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Críticas

Franz

Longe da cinebiografia convencional, ‘Franz’ aproxima a vida de Kafka dos símbolos de sua literatura.

Por Humberto Silva | 01.07.2026 (quarta-feira)

Filmes voltados para a vida de grandes personalidades históricas – ou do mundo cultual pop – estão entre os grandes filões da indústria de cinema. Nos anos recentes, biopics estão quase a um passo para se inscreverem como subgênero do subgênero híbrido drama histórico. 

De memória, com aceno para a Pop Art, Hollywood pôs nas telas as vidas de Elvis Presley, Marilyn Monroe, Bob Dylan, Michael Jackson. Figuras icônicas da cultura pop no século passado. Com isso, evidentemente, grande apelo comercial: a imagem dessas personalidades é uma commodity; pois, reconhecidas imediatamente por bilhões de pessoas, são fonte de lucro e assim se oferecem para consumo global.

Numa escala menor que os exemplos citados, alguns grandes escritores, pensadores, também granjeiam status midiático. Esse o caso do judeu tcheco boêmio Franz Kafka. Seus livros, amplamente conhecidos frequentam bancas de revistas, e os temas de suas obras forjaram o adjetivo “kafkiano”, sabido por tantos que sequer passaram os olhos por quaisquer de seus escritos.

Em Franz, episódios cotidianos dialogam com obras como A Metamorfose e Carta ao Pai, sugerindo que a ficção nasce das tensões íntimas do escritor.

Kafka, aliás, está entre os escritores que mais seduzem no quesito adaptações para o cinema de suas narrativas mais conhecidas ou mesmo instigam alusões diretas ou indiretas dos temas que aborda. Enquanto fenômeno cultural midiático, curiosidades sobre como viveu, o que o inspirou, o porquê de sua idiossincrática visão de mundo – tudo isso bem conhecido por quem leu sua monumental biografia escrita pelo alemão Reiner Stach e traduzida para o português pela Editora Todavia – leva a se pensar numa versão cinematográfica para sua inquietante vida.

É o que fez a cineasta polonesa Agnieszka Holland, a mesma que levou para as telas o polêmico A sombra de Stalin (2019). Trata-se, pois, de uma diretora que se coloca na linha de tiro com respeito a versões cinematográficas de acontecimentos históricos turbulentos e controversos da primeira metade do século XX.

Sendo uma coprodução europeia, seu Kafka – simplesmente Franz, seu prenome que dá título ao filme – põe em pauta de cara o desafio para uma realização cinematográfica que ponha em cena um escritor pop – vale dizer: uma commodity no jogo com o mercado – e um recorte que possa oferecer ao espectador uma pátina possível de sua vida interior, seus relacionamentos amorosos e amizades, tanto quanto o ambiente familiar e  cultural em que viveu e escreveu seus livros.

Juntar os fios para fazer a urdidura, entretanto, não é tarefa fácil, como se pode ler na biografia de Reiner Stach. Agnieszka, certamente ciente do desafio, fez um mosaico. Reuniu em planos diversos, sem cronologia como andaime, momentos que em sua visão de aspectos procuram acentuar a conturbada vida interior de Kafka, seu meio familiar com destaque para a aterradora presença de seu pai, sua complexa sexualidade, as ambiguidades sociais de um judeu boêmio que viveu em Praga e escreveu em alemão. 

Sobre Praga, vale frisar, notadamente equidistante de Berlim e Viena, centros culturais respectivamente do Segundo Reich e do Império Austro-Húngaro. Na órbita, portanto, dos meios culturais mais destacados da Europa.

Ao fundir biografia e literatura, Franz propõe menos um retrato histórico do escritor do que uma interpretação cinematográfica de seu universo criativo.

Entre as opções mais notáveis recolhidas por Agnieszka para realizar Franz está a de, com seu mosaico, recortar episódios casuais da vida de Kafka e atrelá-los subliminarmente a um livro pontualmente. Tem-se com isso um chamariz, um tema nuclear de um livro que aludiria a uma experiência vivida. Com esse procedimento, Franz se oferece como um puzzle em que se misturam ficção (no filme e igualmente em seus livros) e situações casuais, como na relação conturbada entre Kafka e seu pai.

Para ilustrar. A família está à mesa de jantar. Enquanto janta, o pai de Kafka expressa descontentamento com a pretensão de noivado do filho. Em certo momento, um plano fechado exibe uma barata, que caminha sobre a branca toalha da mesa. Em contracampo, em plano médio vemos que os olhos do pai de Kafka apontam a direção para onde supostamente estaria a barata. Ele então, com o plano médio fixo, cerra o punho e golpeia a mesa com força extrema. Corte e em plano aberto todos reagem como se nada houvesse ocorrido. Após o golpe na mesa, o pai de Kafka rosna um som gutural denotando nojo e desprezo. E a conversa sobre o noivado segue, com todos indiferentes à barata esmagada supostamente sobre a mesa.

O enquadramento na barata é rápido. Não creio que chegue a três segundos. O suficiente para percebê-la, tanto quanto esquecê-la, caso a atenção do espectador tenha como foco a conversa à mesa. De sorte que, num filme mosaico em que situações assim se sucedem, a aparição inadvertida de uma barata, sem se vincular notadamente à trama, pode ser efetivamente esquecida.

Essa, contudo, a opção fílmica com que Agnieszka conduz Franz. Por meio dela, o filme vincula uma situação casual vivida por Kafka e sua célebre novela A metamorfose. Aqui, então, se entrelaçam ficção e realidade virtualmente possível. Não é certo que a famosa novela tenha sido estimulada por um episódio casual, como mostrado no filme.

Agnieszka Holland transforma a biografia de Kafka em um quebra-cabeça de memórias, alusões e símbolos. Um filme que desafia o espectador a reconhecer, nas imagens, os ecos da literatura do autor.

Na condução narrativa proposta por Agnieszka, entretanto, isso pouco importa. Em outros momentos de seu mosaico, a economia narrativa fez uso de referências extraídas explicitamente do que Kafka escreveu em sua obra Carta a meu pai. O que importa é o simbolismo por trás das imagens, que faz com que a sequência do jantar à mesa, com duração de três ou quatro minutos, seja a melhor (para quem gosta de fazer lista de melhores; não é o meu caso…) e mais sibilina adaptação de uma obra literária.

Ora, no que seria pretensamente um curta-metragem, Gregor Samsa, o protagonista da novela, que acorda metamorfoseado numa barata, é Franz Kafka, visto com nojo e desprezo por seu pai, que o esmaga furiosamente. O mundo ao seu redor, por sua vez, se mantém indiferente ao que lhe acontece. O filme, com isso, aponta tacitamente para uma entre as diversas possibilidades para se ler Kafka.

O que torna Franz de Agnieszka particularmente difícil é que o mosaico proposto por ela é composto por inúmeras sequências como a que tomei para ilustração. Caso falte ao espectador referências para estabelecer conexões, o filme é incompreensível, pois em outras sequências, com estrutura similar, alude-se a A colônia penal, a O Processo, a O veredito e assim por diante.

Franz de Agnieszka Holland não é, de fato, um filme para muitos. Com as opções fílmicas que tomou para realizá-lo, inegável, há um patente elitismo na proposta. Conquanto se possa condená-la por isso, tendo em vista a avalanche pop com Kafka como estrela cultural, pondero se deva ter atenção a um alerta implícito: quem se acostumou com as biopics hollywoodianas, deve ficar bem longe de Franz de Agnieszka Holland.

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