
Cinco da Tarde
Filme de Eduardo Nunes é ensaio poético ambientado na zona fronteiriça entre a vida e a morte
Por José Geraldo Couto | 17.06.2026 (quarta-feira)
As primeiras imagens, num lindo preto e branco altamente matizado, são de peixinhos num aquário. Um lento travelling lateral mostra, ao lado do aquário, um celular piscando em primeiro plano e, ao fundo, desfocada, uma moça que se aproxima e entra aos poucos em foco ao apanhar o aparelho.
Logo saberemos que a moça é Anabel (Barbara Luz), que mora com a avó naquele apartamento de um predinho velho em Niterói, em frente a um frondoso parque. Saberemos também que é época de pandemia, pois fora de casa as pessoas usam máscaras.
O escasso enredo consistirá na relação afetiva que se formará entre Anabel e uma vizinha nissei jovem como ela, Meiko (Sharon Cho), que mora com a mãe dois andares abaixo. Detalhe: tanto a avó de Anabel como a mãe de Meiko estão mortas.

Em um Niterói suspenso pela pandemia, Anabel e Meiko se aproximam enquanto a vida cotidiana parece habitar um território entre a presença e a ausência.
Não se trata propriamente de um spoiler, primeiro porque, embora nada seja dito explicitamente, os dados são expostos desde o início para quem estiver atento e aberto para ver. Além disso, Cinco da Tarde se constrói menos segundo uma lógica narrativa do que de composição poética. Trata-se não tanto de contar uma história, mas de construir um espaço ficcional singular, no hiato ou intersecção entre a vida e a morte, ou melhor, entre os vivos e os mortos.
A ambientação na época da covid ajuda a configurar esse espaço fronteiriço: o isolamento, o silêncio, as ruas desertas, tudo naqueles tempos sombrios nos arrancava das certezas do dia a dia, remetendo-nos a esse limbo, a esse não-lugar.
A configuração estética do filme e a mise-en-scène de Eduardo Nunes acentuam a dimensão ambígua, indefinida, do ambiente. A começar da escolha do preto e branco, que tende a depurar a imagem, a “essencializá-la”, livrando-a das impurezas acidentais do real. Talvez tenha sido essa também uma das razões da escolha do formato de tela (se não me engano, 1,33:1), mais clássico, “menos horizontal” que o habitual hoje em dia.

Filmado em um delicado preto e branco, o longa transforma corredores, janelas e silêncios em matéria de contemplação e memória.
Assim como nas imagens iniciais descritas acima, quase sempre a câmera começa captando o ambiente antes da entrada em cena das personagens, e continua mostrando-o por alguns segundos depois que elas saem de quadro. Os movimentos lentos de câmera, a manipulação sutil do foco, a recusa quase sistemática do campo/contracampo, o recurso frequente aos longos fadeouts (escurecimento da tela), os demorados silêncios, tudo isso compõe uma atmosfera contemplativa, e mesmo compassiva, que condiz com o tema central do filme, a meditação sobre a morte – que, paradoxalmente, ressalta o gosto da vida.
A criação de um espaço cinematográfico em que convivem vivos e mortos é um traço recorrente no cinema japonês pelo menos desde o magnífico Contos da Lua Vaga (1953), de Mizoguchi. Um exemplo mais recente seria Para o Outro Lado (2015), de Kiyoshi Kurosawa. Talvez isso tenha a ver com uma visão da morte diferente da concepção ocidental. Ou talvez seja a presença da personagem Meiko, com suas referências à cultura nipônica, que tenha me induzido a essa leitura. (A propósito: Meiko é filha de mãe japonesa e pai coreano, mas a atriz que a encarna, Sharon Cho, é filha de coreanos.)
O fato é que os mortos (mais precisamente: as mortas) de Cinco da Tarde são mais que meros fantasmas; têm uma presença real, interagem “naturalmente” com os vivos. No universo do filme, o sonho e a vigília, o real e o imaginário têm a mesma espessura, isto é, o mesmo tratamento estético. Não terá sido por acaso, tampouco, que o prédio onde se passa a maior parte da ação tenha sido no passado um cinema – o local em que convivem os vivos e os mortos, a sombra e a luz.

Sem recorrer ao espetáculo, Eduardo Nunes encontra na observação dos gestos cotidianos a matéria de sua poesia
Na poética do filme, o elemento essencial é justamente a luz, controlada de modo extraordinário pelo diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr., seja na maneira como os corpos e objetos são esculpidos na borda das sombras nas cenas escuras, seja nas cenas em que a luz que entra pela janela parece trazer o parque em frente para dentro de um apartamento. O próprio título, como constatarão os espectadores, remete à “hora mágica” em que tudo fica mais belo graças à incidência da luz.
A luz faz quase as vezes da religião – ou da espiritualidade, de forma mais abrangente – nessa obra que é, no fundo, sobre a finitude dos seres (gente, planta, bicho) e sua permanência na memória dos vivos. A perspectiva, em todo caso, é sempre imanente, alheia à crença em uma transcendência divina qualquer. A protagonista Anabel vai duas vezes à igreja: na primeira, conduzida pela observação de um pássaro; na segunda, para dizer ao padre que o sino devia ser tocado às cinco, como queria sua avó, e não às seis da tarde.
Cinco da Tarde passou praticamente em branco pelo Festival do Rio de 2023 e só agora, três anos depois, chega aos cinemas. É, de certo modo, um objeto estranho no circuito, por estar na contramão do nosso cinema recente, marcado por um forte realismo ou pela ânsia em responder a demandas urgentes. O filme de Eduardo Nunes não tem enredo espetacular, não grita em defesa de alguma causa, não apela a emoções fáceis. É reflexão poética, essencialmente audiovisual, sobre “o que fica do que passa” quando alguém morre. Acho que não é pouco.















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