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Clássicos

O Caçador de Dotes (1971)

Por que falar desse filme norte-americano quando a principal pauta da semana é a Cinemateca Brasileira?

Por Luiz Joaquim | 01.08.2020 (sábado)

Nesta semana que encerra hoje (1º/8), a pauta primeira no campo do cinema brasileiro foi a situação assustadora e emergencial pela qual passa a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, quando seus funcionários somam quase cinco meses sem receber salário e há uma iminente ameaça do corte de energia elétrica (o que seria desastroso em diversos níveis). Tudo porque o Governo Federal não cumpre sua obrigação de repassar verba à Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), responsável pela gestão da Cinemateca desde março de 2018.

Mas, por qual razão, num texto que se propõe analítico sobre um filme norte-americano de 1971, o abrimos com dados da pior crise já vivida pela Cinemateca Brasileira? Porque a memória do cinema, seja onde for, é igualmente importante para revisarmos nossa história e evitar erros no futuro. E, nesse contexto, o belo O caçador de dotes (A New Leaf, EUA, 1971), de Elaine May, não voltaria a ser notícia no século 21 se não houvesse a intervenção de uma fundamental instituição de preservação norte-americana: a Biblioteca do Congresso, com a indicação do Conselho Nacional de Preservação de Filmes (National Film Preservation Board – NFPB).

O NFPB é quem decide, nos EUA, quais filmes daquele país devem ganhar atenção para serem preservados. O Conselho trabalha para garantir a sobrevivência, a conservação e o aumento da disponibilidade pública do cinema feito pelo seu povo.  A cada ano, eles selecionam 25 obras para destacar a variedade de sua produção e reforçar a necessidade da preservação dessas obras pelo Registro Nacional de Filmes (National Film Registry – NFR) da Biblioteca do Congresso Norte-americano, em Washington.

O NFR cuida, portanto, de, a cada ano, preservar 25 novos títulos indicados pelo NFPB escolhidos sob o critério de serem “filme cultural, histórica ou esteticamente significativos”. As obras devem ter no mínimo dez anos para serem elegíveis nesta seleção.

O CAÇADOR DE DOTES – E, em 2019, O caçador de dotes esteve entre os 25 títulos selecionados. Vê-lo pela primeira vez a partir de 2019 em diante, período em que o feminino estabelece cada vez mais o seu lugar de direito na sociedade, é tomar consciência de que realizadoras no passado, a seu modo, calçaram essa estrada para a conquista dos créditos e méritos da mulher no cinema.

O filme foi escrito e dirigido, então com 39 anos de idade, por Elaine May, que é mais lembrada [quando é lembrada] por Corações em alta – segundo filme que dirigiu, com o qual concorreu ao Oscar em 1973 –, ou pelo fracasso de sua última direção Ishtar, de 1987; ou ainda, pelas indicações ao Oscars de seus roteiros para O céu pode esperar (1978) e para Segredos do poder (1998).

Voltando a 1971, O caçador de dotes é uma comédia romântica incomum que provavelmente teria dificuldade de ganhar espaço nos dias de hoje. Isso porque o ponto de partida é o encontro entre o decadente bon vivant e ex-milionário Henry (Walter Matthau, maravilhoso em, mais uma vez, sua persona de solteirão rabugento e eternamente mal-humorado) com a atrapalhada bilionária Henrietta (interpretado pela própria May).

Quando o já cinquentão Henry, que nunca trabalhou, se dá conta que perdeu toda a sua fortuna pelo luxo desregrado com o qual sempre viveu, tem a ideia de conhecer e casar com uma mulher rica para manter o status. A coisa fica mais urgente pois seu êxito preciso acontecer em poucas semanas, conforme dita o contrato feito com o seu tio rico que patrocina a empreitada. Após algumas tentativas desesperadas, ele literalmente esbarra em Henrietta, uma figura que destoa da alta sociedade. É um poço de timidez e comicamente desastrosa em todas as tentativas de sustentar qualquer pré-requisitos social, principalmente os mais requintados.

Henrietta é o alvo perfeito. Não tem herdeiros, é frágil e ensimesmada em sua única paixão na vida: botânica. A graça segue com o conquistador Henry fingindo (pessimamente) o seu igual interesse por botânica, e também com sua constante surpresa em perceber que Henrietta não tem limites em seus pequenos desastres.

Malvadezas de Henry à parte, a beleza em O caçador de dotes pode ser conferida na transformação pelo qual passa o inicialmente insensível protagonista quando começa a dividir o mesmo teto com Henrietta. A esposa que, conforme o marido, é o “ser mais vulnerável sobre a Terra”, acaba despertando nele qualidades que ele nunca imaginara.

E May (num ótimo timing para o humor) constrói isso, com a sua Henrietta, sem nenhum esforço. Há nela (na atriz e personagem) uma aposta na sinceridade de seu sorriso suave, voz doce e honesta benevolência que acaba por comover o interesseiro Henry.

Talvez sua fragilidade não fosse tão apreciada em 2020, mas nem por isso O caçador de dotes perde crédito. Na verdade, ganha ao nos fazer lembrar no século 21 que qualquer delicadeza, como a que há na folha de uma samambaia, por exemplo, também pode ser transformadora. Não entendeu? Veja o filme e sorria.

PS – Elaine May voltou a contracena com Walter Matthau em Califórnia Suite (1978), de Herbert Ross, e pôde ser vista recentemente, aos 83 anos (em 2016) na série Crise em Seis Cenas, de Woody Allen.

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