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Críticas

The most beautiful boy in the world

Com vocês, após 50 anos, Björn Andrésen, de “Morte em Veneza”, e os fantasmas que lhe assombram até hoje.

Por Luiz Joaquim | 16.09.2021 (quinta-feira)

O crítico Ryan Gilbey mandou bem quando, numa entrevista para o jornal inglês The Guardian feita com o ator dinamarquês Björn Andrésen, salientou a ironia do destino de seu personagem em Midsommer: O mal não espera a noite (2019), de Ari Aster. Nele, Björn é um idoso que se sacrifica numa cerimônia pagã, pulando de um penhasco. A queda não é suficiente para matá-lo. Daí, alguém que observava a cena se aproxima do moribundo e, com um martelo, esmaga a cabeça do personagem de Björn.

Para Gilbey, essa seria a “mais suprema perversa piada – pegar o rosto que enfeitiçou milhões de espectadores para destruí-lo assim”. Isto porque estamos falando do mesmo ator que, 50 anos antes, em 1971, com apenas 15 anos de idade, viveu Tadzio em Morte em Veneza, obra-prima de Luchino Visconti pela qual Björn ‘nasceu’ para o mundo como uma espécie de símbolo da mais pura beleza.

Ainda a partir do filme e de seu frisson ao redor do planeta, tendo como ponto de partida o circo no Festival de Cannes, Björn passaria, a partir dali, a ser assombrado pelo fantasma do título de “o mais belo menino do mundo”, que era como Visconti, muito marqueteiramente, se referia ao adolescente ator de seu filme.

É sobre essa assombração e suas consequências de que fala The most beautiful boy in the world (Din., 2021), documentário de Kristina Lindström e Kristian Petri, exibido na edição 2021 do Festival de Sundance.

BJÖRN – É sempre muito delicada (ou deveria ser) a forma como um documentário biográfico invade a vida de seu protagonista. A julgar pelo resultado de The most beautiful boy…, Kristina e Kristian estavam bastante à vontade enquanto trafegavam pelos tortuosos caminhos que conduziram a vida de Björn Andrésen de se nascimento até os dias de hoje.

É claro que a dupla de cineastas tinha um excelente mote dramático para dar partida a esse documentário que soa como um violento chamariz para qualquer cinéfilo que se preze, isto é, o que teria acontecido a Björn Andrésen após a experiência de exposição que viveu na adolescência no rastro do colossal sucesso do filme de Visconti?

Isso não é pouco, se levarmos em conta que estamos falando da versão da obra de Thomas Mann levada ao cinema por um gigante do cinema italiano, cujo enredo nos coloca ao lado do Gustav (Dirk Bogarde), um intelectual de meia-idade que se depara com o belo em sua mais pura expressão.

Essa belo aparece corporificado no jovem Tadzio (Björn), que inocentemente veraneia com a família no Hotel des Bains, no Lido, uma das ilhas em Veneza. E, por Gustav encontrar a perfeição, também encontra a morte. Afinal, como já dizia Visconti, “encarar o belo é encarar a morte”.

Apesar da suspeição homossexual que envolve a circunstância proposta pelo enredo, o que merece ser sobrelevado nessa história (como já foi elaborado por diversos pensadores nestes últimos 50 anos) é algo mais sofisticado do que um ponto de partida sexual.  É a inexplicável fascinação pelo belo, com sua capacidade de resumir, ou representar, em si, a perfeição, a eternidade.

Para a nada fácil tarefa de encontrar um rosto que resolvesse isso, Visconti fez uma longa pesquisa, por anos, em toda Europa, incluindo países como a Hungria, Polonia, Finlândia, Rússia. Conheceu centenas de crianças e adolescentes até chegar a Björn, o tímido dinamarquês, então com 15 anos de idade, sem pais, criado por uma avó que desejava torna-lo uma celebridade. E conseguiu. Sem muito esforço.

Imagem de “The Most Beautiful Boy in The World”

No teste de elenco de Björn, apresentado no documentário, nem precisamos estar muito atentos para percebermos o entusiasmo do severo Visconti com a entrada do garoto à sala onde seria registrada sua fotogenia em filme. Enquanto ele se apresenta para a câmera, escuta um “tire a camisa!”, ordenado por Visconti. A reação do jovem é imediata: “O que?!”

Em 2021, ouvir isso num teste de elenco faz com que uma lâmpada vermelha comece a piscar initerruptamente no universo do respeito pela integridade do indivíduo, principalmente se este indivíduo for um adolescente. Em 1971, essa lâmpada não existia, ou costumava estar queimada.

The most beautiful boy… inicia a partir daí uma questão que o próprio filme salienta como problemática: a presença desse jovem num set de filmagem cujo diretor e quase toda a equipe era composta por homossexuais. Isso, que necessariamente não seria um problema, acabou, naquele caso, se revelando como um, uma vez que o próprio Björn, 50 anos depois, recorda para o documentário, com claro desconforto, as consequências de sua ida a uma boate gay, levado pela equipe do filme, incluindo o próprio Visconti.

Björn, aos 65 anos

A reviravolta na vida de Björn estava só começando. Tendo se tornado uma febre mundial, logo depois foi parar no Japão, onde até hoje é lembrado como a primeira celebridade pop ocidental a pisar naquele país. Lá estrelou comerciais e até gravou um disco. Novamente, num país estranho, cuja língua era desconhecida, experimentou coisas que não experimentaria por conta própria.

Vale dizer que The most beautiful boy…, ao deixar um pouco de lado o nebuloso espectro que envolveu a conturbada vida de celebridade instantânea experimentada por Björn, e ao entrar em aspectos mais verticais de sua vida familiar, vai apresentando novas e novas camadas que tornam seu protagonista ainda mais interessante.

E Kristina e Kristian administram tudo muito bem, dando, nesse filminho de apenas 93 minutos, a correta dimensão do tempo a cada história valiosa que compõe a trajetória pessoal de Björn. Desde a triste história de sua mãe até a de seu pequeno filho, que ele nunca viu crescer.

Logo na abertura, The most beautiful boy… deixa claro que não é leve o que virá dali, com Björn, um senhor de longos cabelos brancos, de aparência muito frágil, como se confirma posteriormente – caminhando soturnamente, com seu sobretudo negro, pelo que restou do Hotel des Bains, em Veneza, após o incêndio sofrido em 2008.

A trilha sonora de Anna Von Hausswolff e Filip Leyman também ajuda aqui, reforçando toda atmosfera opressiva no início filme, seguindo até o fatídico teste de elenco de Björn com Visconti.

Prepare-se, e, no futuro, ao rever o lindo Morte em Veneza, ao olhar para Tadzio, talvez seus olhos o perceba com outra tonalidade.

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