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Festivais

21º CineOP (’26) Encontro de Arquivos: Pioneiros

Seminário apresenta a importância das iniciativas individuais para a criação de uma memória coletiva.

Por Luiz Joaquim | 27.06.2026 (sábado)

– na foto acima, de Leo Fontes/Universo Produção, os debatedores Carlos Alberto Mattos, a mediadora Vivian Malusá, Luciana Corrêa de Araújo e Solange Stecz

OURO PRETO (MG) – É muito bom acompanhar um seminário protagonizado por pesquisadores que são autoridades no assunto a eles proposto. Não apenas pelo mergulho que dão (e nos levam junto) no tema, mas também pela leveza como o fazem e por trazer à luz novos dados que nos obriga a repensar nossa história.

Estamos nos referindo à mesa Gestos pioneiros: A construção da memória do cinema brasileiro. Sob curadoria de José Quental e Vivian Malusá, o debate acontece na tarde ontem (26) no QG desta 21ª CineOP: Mostra de Cinema de Ouro Preto, sob mediação da própria Malusá.

E as autoridades que nos referimos foram os professores da Universidade Federal de São Carlos (SP), Arthur Autran e Luciana Corrêa de Araújo; o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos; e a professora e pesquisadora Solange Stecz, da Universidade Estadual do Paraná.

Como sugere o nome da mesa, a curadoria explica que aquele debate propunha “evidenciar como o trabalho incansável de pesquisadores e arquivistas – como Jota Soares (na fala de Luciana Araújo), Pedro Lima (fala de Autran), Jurandyr Noronha (Carlinhos Mattos) e Valêncio Xavier (Stecz) – transformou coleções e interesses pessoais, vestígios  e fragmentos em história e patrimônio coletivos”.

Começando pelo fim, podemos dizer que a pernambucana Luciana Araújo encerrou a mesa brilhantemente, e com humor, ao trazer o legado de Jota Soares (1906-1988) como grande memorialista do cinema pernambucano desde 1940 com diversas publicações e entrevistas sobre os primórdios do cinema no Estado, mas do ponto da criação de uma coleção cinematográfica, Luciana trouxe ao primeiro plano a figura do jornalista Pedro Salgado Filho.

Luciana Correa de Araújo, em foto de Leo Mendes, jogando luz sobre a trajetória de Pedro Salgado

Luciana destaca, em particular, as atividades do Cine Siri, de Salgado, nos anos 1943 e 1944, quando promovia sessões de cinema em endereço não revelado que, conforme texto do jornalista Mário Melo lido pela pesquisadora, acontecia num recinto pequeno, daí, supõe Luciana Corrêa, o nome “Siri”, pois todos tinha de entrar andando de lado para acessar as cadeiras do auditório.

Com a transformação, do Cine Siri em Museu-Cinema, Pedro Salgado formalizou o espaço por meio de uma petição em abril de 1944 ao Interventor Federal Agamenon Magalhães, aferindo mais segurança aquela prática que poderia ser mal-interpretada pelo poder público de então. E assim, com a prática cineclubista e a compra de filmes dos anos 1920, Salgado conferiu distinção àquelas produções.

Luciana destacou ainda a palavra “Filmoteca” na manchete do texto de 1948, escrito por Jota Soares na coluna Mundo de luz e som, de Luiz Ayala, publicada no Diário de Pernambuco, ao se referir ao Museu-cinema. E conforme o mesmo texto, Agamenon Magalhães não apenas frequentou o cinema de Pedro Salgado como também elogiava a iniciativa.

Desta forma, a pesquisadora marcou a centralidade pioneira da coleção no Museu-cinema de modo que obras como Retribuição (1925), Revezes (1926); Aitaré da praia (1927); e Grandezas de Pernambuco (1926), entre outras, ganhassem a longevidade que conquistaram, tendo passado pela Cinemateca Brasileira (CB) nos anos 1960, voltado ao Recife, para a Fundação Joaquim Nabuco nos 1970/1980 e sendo restaurado nos anos 2000 numa parceria entre as duas instituições.

JURANDYR – Tendo vivido 99 anos (1916-2015), Jurandyr Noronha teve muito de seu envolvimento com o cinema, contou Carlos Alberto Mattos, pautado pela mecânica das coisas, pelas máquinas, pelos equipamentos. Começou trabalhando com Jaime de Andrade Pinheiro na produtora Pan-Film do Brasil nos anos 1940 até ir ao Instituto Nacional de Cinema (INC) em 1948, tendo ali realizado diversas produções e trabalhado no 1º depósito de filmes instalado na América Latina.

Carlinhos lembrou ainda que, em vida, Jurandyr Noronha tinha o desejo (frustrado) de dirigir sua autobiografia, para a qual já tinha o inspirado título de Prestação de contas.

Carlos Alberto Mattos e Arthur Autran (ao fundo), em foto de Leo Mendes

PEDRO LIMA / VALENCIO XAVIER – Arthur Autran, igualmente brilhante, desenhou a trajetória de Pedro [Mallet de] Lima (1902-1987) desde sua amizade, na adolescência, com Adhemar Gonzaga, passando pela coluna– O cinema no Brasil – na revista Selecta a partir de 1924 (tornando-se o primeiro a escreve com regularidade sobre cinema no país. Três anos depois, passou a escrever na Cinearte, de Gonzaga, cujo alcance nacional, até 1930, ajudou a fundar uma ideia mais ampla para o conceito de Cinema Brasileiro. Com Gonzaga também integrou a equipe de produção de Barro humano (1933).

Após a passagem na Cinearte, escreveu para os veículos dos Diários Associados e para a revista O cruzeiro, tendo ingressado no Ministério da Agricultura em 1939 onde lá realizou curtas-metragens sobre agricultura, pecuária e geografia, entre eles Nordeste (1945). Também em 1945, tornou-se o primeiro presidente da Associação Brasileira de Cronistas Cinematográficos, e integrou a Comissão Federal de Cinema, em 1956.

Não conseguiu concluir o projeto de escrever uma história do cinema brasileiro mas seu enorme acervo acumulado tornou-se fonte fundamental na historiográfica do cinema nacional, principalmente sobre os anos 1920 e 1930.

Autran conta que em 1988 a Embrafilme chegou a procurar a família de Noronha para adquirir seu acervo, mas o mesmo foi vendido em 1989 para Haroldo Coronel, que foi desmembrado a coleção, inclusive colocando-a a venda numa loja de souvenirs em Copacabana. Mas, desde 1993, parte deste acervo encontra-se na Cinemateca Brasileira e outra parte no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Sobre Valêncio Xavier, a professora Stecz, destacou que esta “genial e geniosa” figura foi muito mais que o criador da Cinemateca de Curitiba, em 1975. Entre tantos trabalhos de formação e inovações, criou um projeto sobre ‘Cinema e Educação’ pelo qual envolveu mais de 100 escolas da região, envolvendo crianças trabalhando com Super8 no projeto Criança e cinema de animação.

VIDEO NAS ALDEIAS – No final da manhã de hoje (27), Pernambuco também esteve em pauta no 21º CineOP com a mesa Das primeiras imagens no passado aos reencontros no presente: ‘Arquivo Vivo’ e os 40 anos do Vídeo nas Aldeias. Mediado por Clarissa Alvarenga, curadora da temática ‘Educação’ no CieOP, a mesa trouxe a pesquisadora mineira Cláudia Mesquita e o diretor do Vídeo nas Aldeias, Vincent Carelli.

O debate toma como ponto de partida o filme Arquivo vivo (2026), dirigido por Carelli com Ana Carvalho, constando na programação deste CineOP. O documentário se desenvolve a partir das experiências com os cinco primeiros povos com os quais Carelli trabalhou – Nambikwara Mamaindê (MT), Gavião Parkatêjê (PA), Enawenê-Navê (MT), povos isolados do Corumbiara (RO) e Xikrin do Cateté (PA).

Neste retorno às imagens atualizadas de tempos distintos, o filme “reafirma a história, a vitalidade e a continuidade da existência desses povos e de seus mundos”, diz o texto curatorial.

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