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Morre aos 78 anos o escritor Raimundo Carrero

Romancista, jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras, deixa legado literário para o mundo

Por Yuri Lins | 16.06.2026 (terça-feira)

A literatura brasileira perdeu nesta terça-feira (16) um de seus principais romancistas. Raimundo Carrero morreu aos 78 anos, no Recife, onde desenvolveu grande parte de sua carreira como escritor, jornalista e formador de novos autores. Em mais de cinco décadas dedicadas à ficção, produziu uma obra voltada à investigação da condição humana, aproximando a cultura nordestina de narrativas psicológicas permeadas por temas como culpa, violência, religiosidade e desejo.

Natural de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, Carrero nasceu em 1947 e iniciou a vida profissional no jornalismo. Trabalhou durante cerca de 25 anos no Diario de Pernambuco, onde foi repórter, crítico literário e editor, antes de dedicar-se integralmente à literatura. Também atuou no rádio, na televisão e na gestão cultural, presidindo a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

Sua estreia na ficção ocorreu em 1975, com A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão. Nos romances que publicou desde então, preferiu explorar os conflitos interiores de seus personagens a reproduzir uma visão descritiva do sertão. A bibliografia ultrapassa 20 títulos, entre eles Sombra Severa, Somos Pedras que se Consomem, O Delicado Abismo da Loucura, As Sóbrias Ruínas da Alma e A Minha Alma é Irmã de Deus. Um dos principais reconhecimentos de sua carreira veio em 2000, quando As Sóbrias Ruínas da Alma recebeu o Prêmio Jabuti. Posteriormente, também foi contemplado com o Prêmio São Paulo de Literatura, o Prêmio APCA e o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional.

Integrante do Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna no início da década de 1970, Carrero compartilhava o interesse pela cultura popular nordestina, mas desenvolveu uma linguagem própria, voltada menos à representação épica do sertão do que à experiência interior de seus personagens. A convivência com Suassuna influenciou sua compreensão da literatura como expressão artística enraizada nas tradições culturais brasileiras, sem limitar sua escrita a uma única escola estética.

Sua influência, no entanto, ultrapassou os livros que escreveu. Durante décadas, conduziu uma oficina de criação literária no Recife que se tornou referência nacional na formação de escritores. Defendia que a literatura se aprende por meio da leitura, do estudo e da reescrita, recusando a ideia de que a criação depende apenas da inspiração. O método desenvolvido nas oficinas deu origem aos livros Os Segredos da Ficção e A Preparação do Escritor, dedicados aos fundamentos da narrativa. Entre os autores que passaram por sua orientação está Marcelino Freire, além de diversos escritores que iniciaram suas trajetórias sob sua orientação.

Membro da Academia Pernambucana de Letras desde 2004, Raimundo Carrero deixa uma obra que ocupa lugar de destaque na literatura brasileira contemporânea e uma contribuição duradoura para a formação de novas gerações de escritores.

CINEMA – No cinema, Carrero teve sua criação A minha alma é irmã de Deus transformada em curta-metragem homônimo pelas mãos de Luci Alcântara, realizado em 2009. O roteiro foi coescrito pela cineasta e pelo próprio escritor. A trajetória do autor também virou tema do curta documental Carrero: O áspero amável (2019), igualmente dirigido por Alcântara. O filme reúne relatos registrados antes e depois de o escritor sofrer um acidente neurológico. Além disso, Carrero aparece como um dos personagens do longa documental Geração 65: Aquela coisa toda (2008), também assinado pela cineasta, que retrata o movimento literário Geração 65, do qual ele é um dos principais expoentes.

O velório será realizado a partir das 12h desta terça-feira (16), na sede da Academia Pernambucana de Letras, na Avenida Doutor Malaquias, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife. O sepultamento está marcado para as 16h, no Cemitério de Santo Amaro, no Centro da capital pernambucana.

 

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