
15° Olhar de Cinema (2026) – Como Todo Mortal
Documentário de María Molina Peiró transforma a mineração em reflexão sobre matéria, vida e finitude.
Por Marcelo Ikeda | 19.06.2026 (sexta-feira)
O longa-metragem de estreia da cineasta e artista visual espanhola María Molina Peiró é um documentário de forte cunho experimental e ensaístico que usa a mineração como ponto de partida para uma meditação filosófica e científica bastante complexa. A produção foi filmada na região de Río Tinto (na Andaluzia profunda, sul da Espanha), que abriga algumas das minas mais antigas do mundo. O longa retrata a vida dos habitantes locais cercados por paisagens artificiais, formadas por montanhas de resíduos minerais e povoados inteiros enterrados pelo avanço do extrativismo. Em paralelo, cientistas da NASA e de outras agências utilizam o solo de Río Tinto, cujas condições químicas e minerais mimetizam o ambiente do planeta Marte, para testar trajes espaciais, simular robôs exploradores e estudar outras formas de vida que sobrevivem em condições extremas.

Em “Como Todo Mortal”, María Molina Peiró aproxima mineração, ciência espacial e memória operária.
A abordagem experimental de Peiró entrecruza o documentário observacional, a ficção científica especulativa e até o folclore andaluz, recuperando o lamento do flamenco, que historicamente ecoou nos protestos dos operários da região contra a exploração capitalista. A obra questiona os limites entre o orgânico e o inorgânico, a pilhagem comercial da Terra e a investigação científica do espaço profundo. A realizadora vai além da mera denúncia sobre os riscos ambientais para propor uma investigação visual ambígua e complexa sobre as fronteiras entre o mineral e o biológico. É fascinante como a diretora usa a montagem para aproximar a textura da pele dos trabalhadores, marcada pelo sol e pela fuligem, das superfícies das rochas escavadas. Os corpos dos mineiros, que passaram gerações respirando o pó daquelas jazidas, estão literalmente impregnados por aquele território inorgânico. O título Como Todo Mortal ganha aqui um duplo sentido: somos carne, mas também somos poeira cósmica e mineral retornando à terra.
Diante da programação do Olhar de Cinema, torna-se instigante comparar a obra com Yellow Cake, filme de Tiago Melo que também cruza ciência e cinema ao refletir sobre o papel da exploração de minérios no interior do Nordeste. No entanto, enquanto o longa pernambucano utiliza o cinema de gênero e o pastiche, o ensaio de Peiró tangencia o campo das artes visuais, propondo uma reflexão rigorosa sobre a própria natureza da imagem e a conformação de outros modos de existência.

O longa relaciona os corpos dos trabalhadores às formações minerais que moldam o território.
Por fim, este trabalho deve ser apreendido não apenas por sua sofisticação formal, mas sobretudo por sua dimensão política. Ao tensionar o flamenco (o canto que nasce da dor do trabalhador da terra) com as imagens assépticas e silenciosas da tecnologia espacial, Como Todo Mortal sugere que o desejo humano de tocar as estrelas e o impulso de cavar a terra até o esgotamento partem da mesma obsessão: a nossa incapacidade de aceitar os limites da nossa própria finitude.















0 Comentários