
A Odisseia
E sem uma deferência a algo maior ao que é humano, o que seremos?
Por Luiz Joaquim | 16.07.2026 (quinta-feira)
Há 19 anos, escrevemos um texto, não necessariamente uma crítica cinematográfica, a partir de Ulysses (1954), de Mario Camerini (leia aqui). Encerramos aquele texto citando uma fala de Krzysztof Kieslowski contida em seu roteiro para o filme – O inferno (2005), de Danis Tanovic: “Não temos mais espaço para tragédia em nossas vidas, hoje, sem fé, apenas, no máximo, grandes dramas”.
Pulamos para 16 de julho de 2026 e temos o megalançamento mundial de A odisseia (EUA, 2026), de Christopher Nolan, que escolhe exatamente, como cerne dramático, a morte da fé.
E Nolan – em sua direção, em seu roteiro (que parte da obra homônima de Homero), e também pela edição de Jennifer Lame –, não mata simplesmente a fé. Ele a decapita.
Estamos já falando de um dos momentos mais tocantes deste épico de quase 3 horas de duração, que é, sim, uma sofisticada maneira, em termos de sugestão cinematográfica, de representar a morte da fé.
Mais do que ilustrar dramaturgicamente a sua morte, dar a dimensão trágica – ‘trágico’ é o termo correto para definir o que se tornou a sociedade humana –, do que viria a ser o mundo após a tomada de Tróia, sob o comando de Agamenon (Benny Safdie) a partir do cavalo traiçoeiro criado por Odisseu (Matt Damon).
Pela artimanha de Odisseu, que levou à tomada de Tróia, percebermos aquilo que o herói só compreendeu ao final de sua jornada de 20 anos, até retornar ao lar, ao seu reinado em Ítaca, aos braços da fiel esposa Penélope (Anne Hathaway) e do filho Telêmaco (Tom Holland).

O presente de grego que quebrou o sagrado
Nesse sentido, o filme de Nolan abarca bem a dimensão trágica que Homero nos apresenta em sua obra: a de uma nascente humanidade agora “sem a tênue linha que une os homens”. Trata-se de um mundo sem fé em deuses ou sequer fé na generosidade com o próximo, como determina a lei de Zeus; um mundo, enfim, sem a crença de que há algo maior que o próprio homem.
O filme abarca igualmente bem a indivisível e sagrada unidade formada pelo amor paternal, filial e, por que não, conjugal. A fidelidade de Penélope — que esperou por vinte anos pelo marido Odisseu sem sequer saber se ele estava vivo. Essa história, concebida há vinte e nove séculos por Homero — pode facilmente soar tola três mil anos depois. Mas ela não o é (ao menos não totalmente) se, de alguma forma, A Odisseia ainda comover alguém.

Anne Hathaway é Penélope; Tom Holland, Telêmaco
E ela comove porque há nobreza na fidelidade (termo que pode soar como um palavrão para alguns). Há o sagrado na fé. Atenção, não reduzir à fé religiosa, mas sim expandir para a fé em você próprio e no improvável. É claro que esta é uma tentativa nossa, natimorta, de resolver em palavras o que há de inexorável em um sentimento muito particular e intraduzível: A fé.
E Anne Hathaway ajuda neste poder de convencimento em A odisseia para algo quase incompreensível nesta Idade Contemporânea da História. Sua rainha Penélope é contida na hora exigida e explosiva na hora chave, quando a sua fidelidade/fé é posta à prova.
Há também a fé que se reconfigura em Odisseu após os sete anos ao lado de Calipso (Charlize Theron), quando se permite, por delirioso conselho recebido pela a deusa Atena (Zendaya), a assumir que não é onipotente e nem a ele cabe estar sempre no controle, carregando o peso do mundo.

A deusa Atena (Zendaya) aconselha Odisseu (Damon)
Nolan condensa, portanto, nesta sua A odisseia não um ou dois elementos valiosos para refletir sobre a maturidade humana (ou a tragédia humana), mas uma dúzia deles. E é (quase) sempre exitoso. O “quase” fica por conta de um certo didatismo inicial – o que é compreensível para tantos espectadores que nunca passaram perto da história de Homero -, e também por alguns poucos diálogos mais pomposos do que a medida pedia.
Quanto aos momentos épicos… que beleza de cinema. A combinação do design de som e composição visual, seja no encontro de Odisseu com o ciclope Polifemo, filho de Poseidon, seja no desafio com as sereias, ou no confronto com a feiticeira Circe (Samantha Morton), o que temos são momentos de arregalar os olhos, acreditar no perigo e, ao mesmo tempo, atrair aquele e$pectador que busca unicamente o espetáculo numa sala de cinema.
Pensando bem, que bonito atrair a massa para o cinema com figuras mitológicas da Grécia Antiga, e não da Marvel ou da DC Comics.
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