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O Retorno (2024)

Os restos de Ulisses e a sexualidade de Penélope

Por Ivonete Pinto | 30.07.2026 (quinta-feira)

A odisseia de Christopher de Nolan tem provocado uma esquizofrenia de lacrações. Afora elas, há uma profusão de textos sérios que dão conta do filme em mínimos detalhes históricos, estéticos e narrativos, de modo que este artigo não vai tratar desta interpretação da Homero. Vai abordar um empreendimento mais humilde, que não recorre aos deuses do olimpo grego, nem ao olimpo dos efeitos especiais: O retorno (The return, Reino Unido/Grécia/França/Itália, 2024). A produção europeia dirigida pelo italiano Uberto  Pasolini, não deixa de ter um apelo de elenco, tendo escalado Ralph Fiennes e Juliette Binoche para Ulisses e Penélope.

O retorno está na Netflix, foi lançado nos cinemas no Brasil sem recomendação de tamanho de tela, até porque, teve um baixo orçamento, concentrando-se no recorte que se ocupa da parte final da epopeia de Homero. Toda aquela história (fictícia, sempre convém lembrar) do período de 20 anos com Ulisses invadindo Troia, vagando perdido de ilha em ilha, perdendo seus soldados,  socializando com ciclopes, sereias, etc., nada disto entra nesta visão do herói mítico. O grande trunfo de Pasolini foi centrar esforços nos dilemas psicológicos e morais de Ulisses e Penélope e, através de expressões e diálogos enxutos, mostrar seus os infortúnios.

Ulisses matou tanta gente, levou tantos a morrerem, que ao final das duas décadas, exausto, acha que nada valeu a pena. Sofre com o que poderíamos nomear hoje de Transtorno de Stress Pós-Traumático. Encontra uma Ítaca arrasada, decaída,  esperando por um rei que a abandonou. Mesmo que tivesse um amor atávico por sua Ítaca (tão sua que come a terra ao descobrir-se nela, num gesto simbólico que resume toda a relação com o lugar que governou), de herói, vira traidor.  Traidor, desiludido, envelhecido; quando não está nu, aparece maltrapilho, sem coragem de se identificar à própria esposa. Parece que perdeu até a consciência do tempo.

O tempo para Ulisses passou mais rápido, guerreando, conquistando mulheres (pelo menos três, na Ilíada, sem menção no filme), perdendo-se pelos mares. Já para Penélope, o tempo teve o peso dos anos, meses, dias… A espera pelo marido, tecendo aquele manto sem-fim, mantendo-se fiel ao recusar-se a casar novamente, foi um preço alto.  Ulisses surpreende-se que ela ainda não tenha voltado a casar, com tantos pretendentes a fazerem fila no palácio.

Binoche como a paciente e fiel Penélope

Por aí se vê que o roteiro de Uberto Pasolini, em parceria com John Collee e Edward Bond,  dá contornos de protagonista ao personagem de Penélope, em sintonia com as mulheres na obra de Homero, sempre relevantes. Em O retorno, a esposa é testada em sua recusa a uma vida sexual. Há cenas dela vagando pelo castelo e deparando-se com casais fazendo sexo. E nisto a cenografia que produz um palácio sem portas, ajuda em muito.

O desprezo – Com a sugestão de uma sexualidade reprimida, ganha ênfase  um dos pretendentes, Antinous (Marwan Kenzari), o mais ardiloso deles, porém, sua obsessão pelo trono divide espaço por um interesse em Penélope, em tese, genuíno. Algo que modernamente poderíamos chamar de paixão. Ou Antinous é apenas um fingidor competente?

Quando Ulisses volta e promove uma carnificina usando flechas, matando os pretendentes (afinal, ele não tinha saída…), Penélope roga para que Antinous seja poupado.  Por quê? O espectador deve responder a pergunta não de no modo fácil. Não sabemos o quanto ela acreditava nas intenções amorosas dele. Não  havia “envolvimento” entre eles. Ela sempre o rechaçou, porque acreditava que \Ulisses podia estar vivo e percebia as verdadeiras intenções dos pretendentes. Mas ocorre que Antinous esteve ao seu lado  de maneira obsessiva mas real. Ulisses não.

Fiennes como Ulisses, em fúria, flechando os pretendentes de Penélope.

ƒE então vem o desprezo. O Desprezo de Godard, sim. O desprezo da Penélope que vê o marido roteirista entregando-a ao produtor americano. Alhos com bugalhos? Não, esses sentimentos são universais e atemporais. Claro que a associação entre Godard e Homero pode ser também uma viagem epopeica. Porém que só acontece pela grandiosidade e permanência da obra de Homero. D­­iferente de Godard, Pasolini não pune Penélope com a morte de final catártico, opta por Homero e a ideia de reconciliação.

Por fim, seria um crime de anacronismo julgar um enredo criado há três mil anos com parâmetros do presente. E foi só recentemente, há cerca de 150 anos, que o mundo soube que de fato Troia existiu e seu sítio arqueológico pode ser visitado na região da Anatólia, Turquia. Acreditava-se até então que tudo era fake news de Homero. O poeta que turbinou suas narrativas aproveitando-se do manancial que os deuses gregos rendiam à imaginação (Heráclito podia ter definido as invenções de Homero mais ou menos assim). Troia existiu, o golpe do cavalo, batalhas… No entanto, nossos historiadores contemporâneos  ─ de Nolan, passando por Mario Camerini, Mario Bava, Pasolini e tantos outros ─, são tão contadores de histórias quanto Homero, stricto sensu. Trabalham no hibridismo metade verdade, metade mentira. Aliás, uma autora chamada “tradição oral”, também foi mexendo no enredo, contribuindo para a Odisseia e a Ilíada.

E, no limite, cada um entende como quiser as invenções em cima das mitologias dos outros. Fiquemos com Montaigne quando dizia que a palavra é metade de quem fala e metade de quem ouve. Em O retorno, inclusive, o período passado em Troia, é apenas relatado por Ulisses. Relato esse que foi passando por gerações, sempre com novas tintas. Parafraseando Lacan, você pode mostrar o que viu, mas nunca o que o outro está vendo do que você viu.

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