
As Cores do Tempo
Passado e presente dialogam no filme de Cédric Klapisch,que ilumina a vulgarização da arte em nossos dias
Por José Geraldo Couto | 23.07.2026 (quinta-feira)
As primeiras imagens, ainda durante os créditos iniciais, mostram detalhes de uma das magníficas pinturas a óleo da série Ninfeias, de Claude Monet. Quando o enquadramento se abre, estamos num museu, onde turistas e visitantes fotografam, filmam e fazem selfies diante da obra. Em seguida, em frente ao mesmo quadro, uma equipe de publicidade grava um vídeo de uma modelo com um vestido amarelo. A modelo comenta que a cor do vestido se choca com a pintura ao fundo, mas a responsável pela peça publicitária diz que não é possível trocar a cor do vestido. Então a modelo sugere, candidamente: “É só mudar a cor do quadro”, diante do silêncio perplexo de Seb (Abraham Wapler), o jovem cinegrafista e “criador de conteúdo digital”.
Gastei várias linhas para descrever precariamente essa cena porque, a meu ver, ela sintetiza a questão central abordada em As Cores do Tempo, o novo filme de Cédric Klapisch, a saber: a relação do mundo contemporâneo com o patrimônio artístico da humanidade. Poderia até servir como uma ilustração atualizada do célebre ensaio de Walter Benjamin “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”.

Alternando a Belle Époque e os dias atuais, As Cores do Tempo investiga o destino da arte, da memória e do patrimônio cultural em um mundo cada vez mais submetido à lógica da mercantilização
É a partir daí, ou para chegar aí, que Klapisch desenvolve uma narrativa engenhosa alternando dialeticamente presente e passado. A história, em linhas gerais, é a seguinte: um casarão oitocentista encravado numa mata, na região da Normandia, é alvo da cobiça de uma incorporadora que quer construir ali um imenso e modernoso shopping center, “com estacionamento para cinco mil carros”. A propriedade está fechada desde 1944, quando morreu sua proprietária, Adèle Meunier (Suzanne Lindon). A incorporadora faz uma árvore genealógica dos descendentes de Adèle e localiza dezenas de sobreviventes, de três gerações diferentes. Eles devem discutir e autorizar a venda do imóvel.
São eleitos quatro representantes dos herdeiros, entre eles o mencionado Seb, para testemunhar a reabertura do casarão e fazer um inventário de tudo o que ele contém. É aí que entra, com base nas pistas encontradas, a reconstituição do passado de Adèle Meunier, jovem analfabeta que saiu da Normandia rumo a Paris no final do século 19, à procura de sua mãe. Adèle descobre então que a mãe (Sara Giraudeau) foi amante de um grande fotógrafo, Félix Nadar (Fred Testot), e de um grande pintor, Claude Monet (Olivier Gourmet).
E mais não se pode dizer, sob o risco de spoiler. Mas o fato é que no velho casarão são encontradas fotos de Nadar e um quadro que pode ou não ser de Monet. Isso atiça o interesse da maior parte dos herdeiros, ávidos para dividir uma fortuna inestimável. A exceção é Guy (Vincent Macaigne), um apicultor ambientalista e meio hippie, que defende a doação das obras a um museu público. Tratado um tanto comicamente no filme, esse embate de perspectivas está no seu cerne.

Entre Claude Monet, Félix Nadar e uma disputa por herança, “As Cores do Tempo” transforma a busca pelo passado em uma reflexão sobre o valor da arte e sua permanência no presente.
Alternando os dias atuais com a Belle Époque parisiense, As Cores do Tempo não perde o interesse nem por um momento, desenvolvendo sua abordagem crítica sem cair no esquematismo e sem desrespeitar a coerência de cada personagem. É certo que há passagens que beiram o entretenimento enciclopédico, com a aparição um tanto gratuita de personagens históricos como Victor Hugo e Sarah Bernhardt, fazendo lembrar, nesse aspecto, a comédia romântica Meia-noite em Paris, de Woody Allen.
Esse possível deslize é compensado por uma construção narrativa sagaz, uma reconstituição de época discreta e eficiente e um tom dramático matizado pelo humor. No fim das contas, o que fica é uma aposta no caráter perene da grande arte, a despeito da mercantilização voraz de nossos tempos. Não será por acaso que o filme começa e termina com as sublimes ninfeias de Monet.















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