
Morre Luiz Carlos Barreto
Produtor de clássicos do cinema nacional, uniu grandes filmes à defesa das políticas para o audiovisual
Por Yuri Lins | 22.07.2026 (quarta-feira)
O produtor, fotógrafo e cineasta Luiz Carlos Barreto morreu nesta quarta-feira (22), aos 98 anos, no Rio de Janeiro. Conhecido em todo o meio audiovisual como “Barretão”, ele deixa uma das trajetórias mais influentes da história do cinema brasileiro, marcada pela produção de filmes fundamentais do Cinema Novo, pela consolidação da indústria cinematográfica nacional e pela defesa permanente das políticas públicas para o setor.
Nascido em Sobral, no Ceará, em 1928, Barreto iniciou sua carreira como fotojornalista na revista O Cruzeiro. A experiência como fotógrafo o aproximou do cinema no início dos anos 1960, período em que participou diretamente da renovação estética promovida pelo Cinema Novo. Ao longo das décadas seguintes, tornou-se um dos principais responsáveis por transformar projetos autorais em obras de grande alcance público.
Ao lado de Lucy Barreto, fundou a LC Barreto, produtora que se tornou uma das mais importantes do país e responsável pela realização de mais de uma centena de produções entre longas, curtas e documentários. A empresa formou gerações de profissionais e consolidou um modelo de produção que conciliava ambição artística, viabilidade econômica e circulação internacional.
Sua filmografia reúne alguns dos títulos mais importantes do cinema brasileiro. Participou da produção de obras como Vidas Secas (1963), Terra em Transe (1967), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), Bye Bye Brasil (1979), Memórias do Cárcere (1984), O Quatrilho (1995), O Que É Isso, Companheiro? (1997), Bossa Nova (2000) e Flores Raras (2013). Muitos desses filmes receberam reconhecimento internacional e contribuíram para ampliar a presença do Brasil nos principais festivais e premiações do mundo.
Mais do que produzir filmes, Luiz Carlos Barreto tornou-se um dos principais representantes institucionais do cinema brasileiro. Desde a crise provocada pela extinção da Embrafilme, no início dos anos 1990, participou ativamente das discussões que levaram à reorganização do setor, defendendo mecanismos de financiamento, a consolidação da Lei do Audiovisual, a ampliação da distribuição dos filmes brasileiros e políticas voltadas ao fortalecimento do mercado interno.
Nas décadas seguintes, manteve presença constante nos debates sobre a Ancine, o Fundo Setorial do Audiovisual, a cota de tela e os modelos de financiamento da produção nacional, tornando-se uma das vozes mais influentes na defesa da continuidade das políticas públicas para o cinema. Um registro do 12º Cine-PE, em 2008, revela essa dimensão de sua carreira. Na ocasião, ao receber a Calunga de Ouro do festival, entregue pelo cineasta Roberto Farias, parceiro no roteiro de Assalto ao Trem Pagador (1962), Barreto transformou o discurso de homenagem em uma reflexão sobre os caminhos do cinema nacional.
“Antes da projeção dos longas, o homenageado Luiz Carlos Barreto recebeu a Calunga de Ouro das mãos de Roberto Farias, de quem fez questão de ressaltar sua parceria no roteiro que escreveu para Assalto ao Trem Pagador (1962). Barretão fez um discurso longo e empolgado, diferente daquele que proferiu duas semanas antes no CineCeará, onde também havia sido homenageado. Concentrou sua fala no momento triste em que se encontrava o cinema brasileiro no que dizia respeito à comunicação com o público. Discursou sobre a necessidade de acessibilidade da população às salas de cinema e defendeu a ampliação do acesso aos filmes nacionais. Nostalgicamente, lembrou os anos 1970, quando o cinema brasileiro chegou a atrair uma parcela significativa do público para suas produções. Ao concluir, afirmou que nunca desistiria de lutar pelo ‘nosso’ cinema. Também dedicou palavras ao crítico pernambucano Fernando Spencer e destacou realizadores do estado como Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas.”
Luiz Carlos Barreto deixa a esposa, a produtora Lucy Barreto, e os filhos Bruno e Paula Barreto, que também construíram carreiras no cinema.















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