
54ª Gramado (2026) – Pele de Rinoceronte
Mais um roteiro que naufraga nas boas intenções
Por Ivonete Pinto | 17.08.2026 (segunda-feira)
Inspirado no caso Ângela Diniz, mulher assassinada pelo namorado playboy Doca Street em 1976, porque ela queria terminar a relação e ele não aceitou. Deu não sei quantos tiros no rosto da “mulher que amava”. Houve dois julgamentos do caso. No primeiro, o sujeito foi inocentado com a tese da defesa da honra (ela o teria traído) e no outro julgamento cerca de três anos depois, ele foi finalmente condenado. Passou a receber cartas de amor de mulheres apaixonadas e muito apoio da população. Num episódio marcante, que diz mais sobre as patologias da sociedade do que sobre os julgamentos em si.
Mas o filme carioca, estreia na direção do produtor Marcello Ludwig Maia, é apenas inspirado no caso, sequer assume elementos ligados a este assassinato. Há só uma breve referência à reação pública em favor do réu.
A estrutura do roteiro é centrada em dois blocos: no primeiro uma jornalista policial (Débora Falabella) cobre o crime, ao mesmo tempo em que namora o chefe da redação, um homem casado (Augusto Madeira, em mais um papel de cafajeste). Ela quer terminar, não porque ele seja casado, mas porque é violento com ela. E então, adivinhem, ele não aceita, tudo indica mais um feminicídio. No outro bloco, em ação paralela, temos um casal de advogados que, encerrados em casa, arquitetam a tese de que não foi defesa da honra, mas assassinato de gênero, contra uma mulher, ou seja, feminicídio. Na verdade, a tese é dela, ele só concorda.
Entre os dois blocos, o filme mostra como a relação da mulher assassinada e do assassino se deteriorava, como ele a considerava sua posse e como ela não conseguiu evitar ser mais uma vítima.

Em “Pele de rinoceronte”, o tribunal se torna espaço de confronto entre a antiga lógica da “defesa da honra” e a compreensão do crime como violência de gênero.
Naruna Costa, faz a intrépida advogada, Maria Thereza. A atriz tem aparecido em muitos filmes e novelas com cada vez mais destaque. De uma beleza clássica e imponente, exibe forte expressão dramática e carisma; lembra um pouco a atriz redescoberta por Quentin Tarantino, Pam Grier. Em Pele de rinoceronte, tem um momento -chave, em que faz um ensaio para a sustentação oral em defesa da vítima (Camila Lucciola). Na sessão do festival, arrancou aplausos da plateia num efeito catártico, porque desmonta a tese da defesa da honra com argumentos jurídicos e paixão.
Irandhir Santos, o marido, é o advogado mais experiente, sujeito não tão brilhante quanto ela, mas sensível, que cuida das filhas e compreende a ambição profissional da esposa. Para os anos 1970 – e é sempre bom frisar que a história se passa nesta década, quando a liderança do homem do casal era indiscutível. Além do mais, trata-se de um casal interracial, pouco comum à época. Mais incomum ainda seria ela assumir o caso no tribunal, o que acontece no filme por liberdade poética-identitária. Normal.
O anacronismo é que o filme é rodado nos dias de hoje, com as pautas e os raciocínios de hoje. O problema é que o discurso, o vocabulário, as palavras de ordem não poderiam ser as de hoje por uma simples questão de verossimilhança. Talvez o problema maior do roteiro esteja nesta concepção equivocada de que para tratar de uma pauta atual, os personagens precisam vomitar frases de efeito, diálogos esquemáticos embalados em jargões de passeatas atuais, que claramente não funcionam numa dramaturgia honesta e competente.

No filme de Marcello Ludwig Maia, a pertinência das questões de gênero esbarra em diálogos que parecem mais preocupados em afirmar uma tese do que em construir personagens.
Este tem sido o ponto fraco de alguns filmes brasileiros recentes, como o próprio Antártida, que abriu o Festival de Gramado. As questões de raça e gênero são inquestionavelmente relevantes e urgentes e o cinema deve abordá-las, mas com roteiros e diálogos bons!
Não cabe à critica dar lição aos realizadores, porém, convenhamos, qualquer manual de roteiro aponta o básico para que filmes não caiam em ciladas como estas. É preciso confiar nas imagens e apresentar, quando necessário, diálogos realistas, onde as pessoas não falam como bonecos de ventríloquos.
Trazer o caso Ângela Diniz é meritório, entretanto, sem uma dramaturgia eficiente, mais afasta o público do que o aproxima. Um exemplo recente de proposta que funciona, em termos dramatúrgicos, pois foge do discurso, é o belga Nós acreditamos em você (On vous croit, Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, 2025). Há uma opinião, já no título, mas a inteligência do público é respeitada, não sendo alvo de clichês verborrágicos.
Ainda quanto à estrutura de dois blocos apresentadas em Pele de rinoceronte, a impressão que fica é que havia orçamento para a parte da jornalista vivida por Débora Falabella, e não havia para o bloco dos advogados. Toda a ambientação de época foi gasta ali e sobrou para os advogados o recinto de uma sala. E é com a jornalista que se dá uma cena de máxima eficiência em termos de imagem. Fugindo do ex que a persegue, a repórter tem um momento lúdico-sensual, dançando com um jovem jornalista na cidadezinha onde aconteceu o crime. Tudo levava a um desfecho sexual, consentido. O roteiro de Josefina Trotta, por sorte, opta por sugerir que nem importa se aconteceu ou não esse desfecho, o que fica claro, é que o personagem dele a estava respeitando e a decisão seria dela. Sem palavras, sem discurso, temos o exemplo de uma resolução por imagens que, infelizmente, o próprio filme desconsiderou no resto das cenas.















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