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Festivais

54ª Gramado (2026) – Antártida

Grandiloquência bem intencionada

Por Ivonete Pinto | 15.08.2026 (sábado)

Quem tem ranço com a Rede Globo não deveria assistir. Não me refiro apenas a quem reza para pneus, mas aqueles que em geral recebem os produtos da emissora como padronizados, sem estética cinematográfica. Antártida é 100% Globo, pois produzido pelo Núcleo de Filmes dos Estúdios da Rede Globo, em produção com a TV  Globo. Quem ultrapassar o preconceito, verá uma proposta feminista, em cujo centro da ação está o tema do estupro. Considerando a visibilidade que o produto terá, vai ser uma peça importante para  conscientizar gregos e troianos sobre este crime que tanto cresce.

O  empenho da distribuição começou ontem ao abrir hors concours a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, que agrega prestígio e uma cobertura que poucos lançamentos podem alcançar. Na sequência, estreia em salas de cinema (17 de setembro) e segue para streaming, sempre com aquela carga de divulgação massiva que a empresa pode oferecer. De modos que o tema é o item mais defensável do filme. 

O resto, bem, o resto, é questionável.

Antártida aposta na tecnologia e na grandiosidade dos cenários para construir uma paisagem antártica convincente, mas o investimento visual não encontra equivalente na narrativa.

Já de saída, quem procurar pela mídia em geral e redes sociais, vai encontrar textos que informam que Marina Ruy Barbosa é a protagonista. De fato, sua personagem é importante, pivô de toda trama, mas  a protagonista é Andrea Beltrão, fazendo a capitã de um navio de pesquisa na Antártida. E o que é esperável, sem demérito, é que praticamente todo elenco é ligado à emissora, contando com Lázaro Ramos e Leandra Leal (fazendo um casal antítese do que fez em O homem que copiava), entre outros. 

O problema é que mesmo sendo atores, todos, de altíssimo nível,  acabam sofrendo com um roteiro que peca pelo inverossímil em função do somatório excessivo de subtramas e reviravoltas em torno do gênero policial. No caso, o “quem matou”, substituído por “quem estuprou”. Em busca da verdade, temos as clássicas pistas falsas, a descoberta de suspeitos que não duram um minuto enquanto tal. Até aí tudo bem. A questão é que os próprios diálogos são mecânicos, mal construídos, colocando à deriva o trabalho de profissionais como  Andrea Beltrão, que mesmo apresentando a força usual, se enfraquecem com diálogos que não se esperaria de uma superprodução. Talvez porque o investimento tenha sido mais no cenário do que na narrativa.

Cenários – É como superprodução tecnológica que o filme está sendo vendido, com direito a câmeras autotracking de alta precisão e uso de Realidade Aumentada. Já no palco, o diretor Bruno Safadi, do ótimo Éden (2018), valorizou ao máximo os recursos de IA que permitiram que a Antártida fosse construída nos estúdios da Globo, proporcionando imagens nunca vistas. 

As bases militares que aparecem  nas cenas de “externa” e a imensidão de neve no entorno são admiráveis. Tratadas com esmero  pela fotografia (Mauro Pinheiro) e pela montagem (Rodrigo Lima), convencem que a história se passa naquele continente coberto por geleiras (e é claro, que o aquecimento global é um dos subtemas).

O diretor Bruno Safadi parte de uma premissa promissora e de um elenco expressivo, mas encontra dificuldades para equilibrar as muitas subtramas e reviravoltas de Antártida.

O roteiro de Cláudia Jouvin, que teve um argumento gestado por nove anos segundo ela, parte de uma estratégia conhecida e que sempre rende: reunir em um ambiente fechado, um grupo de pessoas problemáticas (doentes, traumatizados, abusadores, maus–caracteres, etc.) que precisam conviver, administrando as sucessivas crises. São todos cientistas, mas a racionalidade passa longe quando estão confinados.

Como piloto de série, a estratégia poderia funcionar melhor, pois os desdobramentos das crises e dos perfis problemáticos poderiam ser desenvolvidos. Como um longa de 93 minutos, embora o tema de grande relevância, mais parece uma salada russa servida na neve. Tão falsa quanto aquela que jogam no tapete vermelho do festival.

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