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Críticas

79º Locarno (2026) – A Margem do Rio (crítica)

Uma primeira leitura sobre o Prêmio Especial do Júri desta 79º edição do influente festival suíço.

Por Luiz Joaquim | 17.08.2026 (segunda-feira)

Não é fácil falar de A margem do rio (2026), primeiro longa-metragem dirigido pela dupla Enock Carvalho e Matheus Farias, cuja primeira exibição pública aconteceu na terça-feira passada (11) dentro da mostra competitiva internacional do 79º Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. Lá disputava o Leopardo de Ouro e de lá saiu com o Prêmio Especial do Júri. (leia aqui).

Não é fácil falar não por conta do que há de sutil no filme, mas pelo que não há. Não é fácil também porque quem aqui escreve acompanha a trajetória de Matheus e Enock pela realização de curtas-metragens não só com atenção mas com carinho.

Ver A margem do rio é como perceber que a dupla manteve a habilidade apresentada em seus trabalhos anteriores de curta duração ao se apropriar do ambiente cênico, com um notável esmero fotográfico (neste longa assinado por Luciana Baseggio), para criar uma atmosfera que se abre ao fantástico, agregando a isso uma alfinetada social.

Sim, a combinação destes elementos que vemos precisamente amarrados em Inabitável (2020) e em Caranguejo rei  (2019), por exemplo, estão também em A margem do rio, mas com uma administração um tanto frouxa na narrativa das tensões ao longo dos 117 minutos de duração para um enredo que se propõe tenso.

Há aqui um história que quer se impor ao ser contada (e assim acontece) problematizando religião, corrupção e impunidade, mesmo que para isso o desenrolar dos fatos pelo aspecto cinematográfico precise seguir uma “segura” e lógica cartilha mundial, com uma consequente quase inexistente dose de real tensão.

Não confundir ‘quase inexistência de tensão’ com ‘falta de importância’ ou com uma ‘minimização do assunto’ aqui em pauta. Que fique claro, A margem do rio se apropria de um tema urgente: preconceito seguido de assassinato. O que falta é a nuance entre o ponto de partida e o ponto de chegada.

E, considerando o porto seguro pelo qual o filme se estrutura (e pouco se arrisca), é irônico imaginar que se houvesse uma registro científico que medisse a tensão em A margem do rio, tal qual se apresenta a linha de um monitor ilustrando pulsões cardíacas em um exame médico, o traço só subisse no finalzinho de seus 117 minutos de duração.

Uma pena, pois é como se o filme (o cinema) aqui quisesse respirar, mas não conseguisse porque “uma história precisa ser contada”. A prova disso é que, o belo no cinema de Enock e Matheus aparece sim neste longa de estreia da dupla, mas apenas, e exatamente, nos raros momentos em que o acontecimento é maior do que a mensagem.

A ver no primeiro encontro sexual entre Izaquias (o baiano Caique Copque) e Jeremias (Ítalo Martins), quando a mise-en-scène sugere que algo ali transcende o encontro carnal; segundo quando uma das amigas de Izaquias, com quem ele divide apartamento, reaparece após uma noite e um dia inteiro sem dar notícias. O choro e o abraço de alívio no reencontro das amigas comove e transmite verdade a respeito do que é uma vida violentamente marginalizada, cujos efeitos passa longe da esfera de compreensão da colossal maioria da população.

Nas duas sequências, as imagens são eloquentes – toda a equipe técnica e criativa da produção merecem aplausos. A eloquência cinematográfica, entretanto, apequena-se ao longo do enredo quando, em sua estrutura simétrica entre o bem e o mal, sobra pouco espaço para sutilezas. Sutileza é o que não há, por exemplo, na um tanto extensa sequência da festa discotecada pela amiga DJ de Izaquias. Aqui o excesso afunda o recado, a certa altura distraindo e não mais atraindo.

A festa

Sobre o enredo, ele nos traz Izaquias, que divide os dias entre o seu trabalho – atuando como prestador de serviços gerais – e a vida pessoal, praticando o crusing (a procura de parceiros sexuais em locais públicos) nos manguezais recifenses. É alí  que se dá o seu encontro e encanto por Jeremias, um pescador que guarda algo de místico e bastante sedutor em sua própria composição.

Um parênteses para registrar que se tivéssemos que apontar uma única presença marcante em A margem do rio ela estaria na criação de Ítalo Martins para o seu Jeremias. Magnético, de fato, como o roteiro certamente indica.

Itálo Martins (no primeiro plano), forte presença como Jeremias, sombreando Copque (Caique Izaquias)

Os nomes dos protagonistas aqui também não são ao acaso. Izaquias, um derivado brasileiro do bíblico ‘Isaque’, é o filho de Abraão e Sara. O mesmo Abraão que quase mata o filho como prova de obediência a Deus. A criança, uma sobrevivente (como é o personagem do filme), passa a significar, então, aquele que representa Deus (ou qualquer divindade de qualquer outra matriz religiosa) ditado pela felicidade e pela satisfação realizada.

Já o Jeremias de Ítalo, tal  qual o profeta das Escrituras Sagradas, é vaidoso mas justo, e tem a capacidade de sobrelevar o próximo, com sabedoria e bençãos. E é dessa forma que será reforçado o laço entre os dois personagens criados por Matheus e Enock.

Entretanto, essa vinculação bíblica, ou espiritual, colocada em contraponto ao vilões desalmados da igreja neopentencostal para a qual Izaquias presta serviços de limpeza, nos chega por uma mão pesada. Não há gradação entre o vermelho sangue dos assassinos famintos pelo poder, apoiados pela comercialização da fé, e o arco-íris das alegrias, tristezas e lutas da comunidade Queer.

E em seu desfecho, ao colocar o mangue como ambiente de perigo mas também de acolhimento, A margem do rio pode até suscitar analogias a respeito do quanto a comunidade aqui protagonista está à margem do rio, do fluxo heteronormativo da sociedade, mas não complexifica o assunto. O que faz é vingar-se dele, ainda que deixe na conta da natureza o ato do justiçamento.

Independente desta análise, a premiação suíça é, obviamente, bem-vinda e que ela funcione como mola para estimular uma maior quantidade de pessoas, além do público esperado para um filme como este, a conhecer a estreia de Matheus e Enock nesta produção que lhes requereu maior fôlego.

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