X

0 Comentários

Festivais

54ª Gramado (2026) – Feito Pipa

Protagonista cativante em filme fofo

Por Ivonete Pinto | 16.08.2026 (domingo)

Primeiro longa em competição da 54ª edição Festival de Cinema de Gramado, o cearense  Feito pipa traz o sentido do filme no título. A pipa aparece mais explicitamente no momento em que o protagonista Gugu (Yuri Gomes) a prepara para soltar. O colorido,  a função de voar ao vento e o fio cujo controle está nas mãos de quem a segura, diz muito do personagem de 11 anos. O vento, claro, não pode ser controlado por ele, mas ele aprende a administrar, assim como maneja suas vontades confrontando-se às imposições do pai, dos colegas da escola, da sociedade.

Gugu abre o filme dançando com trejeitos femininos hits dos anos 1980, ou por aí. Entendemos que são músicas que sua mãe, falecida, gostava muito. E esse é apenas mais um dos temas a ser explorado. A ausência da mãe, uma avó protetora chamada Dilma (sic, Teca Pereira) com quem vive mas que sofre de Alzheimer; um pai ausente que tenta fazê-lo “homem”; a predileção legítima pelo futebol; os conflitos na escola. Aliado a isto, o pai (Lázaro Ramos) que tem nova família e que vai ser seu antagonista ao não aceitar o modo como Gugu se veste e dança, no clássico medo que o filho seja, ou venha, a ser gay. 

Yuri Gomes e Lázaro Ramos interpretam pai e filho em uma relação marcada pelo afeto, pelos conflitos e pela tentativa do pai de impor ao menino uma ideia de masculinidade.

Outro elemento percorre o filme como um fantasma: em várias cenas temos os personagens olhando para as águas da barragem que cobriram parte da cidade. Os moradores observam as águas baixando e deixando à mostra o topo da igreja. A construção da barragem, a forma como a mãe do menino morreu, levam a outras questões.

Ou seja, são múltiplos subplots que assim como o filme de abertura, Antártida, quer falar de tudo um pouco, abarcar os problemas do mundo. Parece que o cinema não consegue mais ser minimalista. Mas ao contrário do produto da Rede Globo, o roteiro do diretor Allan Deberton é mais redondo e convincente. Centra-se no núcleo familiar e, principalmente, na luminosidade do garoto protagonista. Também sabe dirigir atores, com ênfase para as amiguinhas de Gugu e a uma cena em específico que é hilária, quando a diretora da escola interroga os alunos sobre quem começou uma briga.

Coube a Lázaro Ramos, tal como em Antártida, defender um personagem problemático. Porém, sem o esquematismo e o perfil de toxidade,  o pai vivido por Lázaro aqui, pelo amor que tem ao filho, consegue se transformar e virar uma pessoa melhor. 

Yuri Gomes e Teca Pereira vivem neto e avó, unidos pelo afeto diante da ausência da mãe e das limitações impostas pelo Alzheimer.

E esse parece ser o tom geral de Feito pipa, movendo-se em arranjos que levam a um feel good movie, incluindo a cena final, sobre a qual não haverá spoiler. Um tom que já havia em Pacarrete do mesmo diretor e que venceu o mesmo festival em 2019, com uma protagonista fora dos padrões (Marcélia Cartaxo), que insiste no jeito firme de ser e que graças a esse jeito  impõem-se frente à sociedade. 

A recepção de Pacarrete em Gramado foi mais calorosa, sendo aplaudido de pé e levando vários kikitos. Não se sabe o que vai acontecer com Feito pipa em termos de prêmios, mas não seria precipitado pensar que o menino Yuri Gomes tem chances, bem como a atriz Teca Pereira, soberba como uma avó feliz e fogosa, dona de seu nariz. A produção, além do mais, surge com uma trajetória internacional de êxito, tendo vencido, entre outros prêmios,  o Urso de Cristal da mostra Generation Plus do Festival de Berlim.

E, diferente de muitas produções premiadas em festivais, Feito pipa já tem data de estreia nos cinemas: 5 de novembro.

 

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade