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Digital

Cem Anos de Solidão

Série colombiana recria com brio e competência a saga de García Márquez

Por José Geraldo Couto | 14.08.2026 (sexta-feira)

Gabriel García Márquez declarou mais de uma vez que julgava Cem Anos de Solidão um livro infilmável. Em tempos pré-CGI (imagens geradas por computador) e pré-inteligência artificial, era de fato inconcebível levar às telas a contento a saga de sete gerações da família Buendia, que sintetiza em chave fantástica a malfadada história da América Latina.

De posse desses recursos tecnológicos – e contando com um elenco e uma equipe técnica de primeiro nível –, a saga dirigida por Laura Mora Ortega, Alex García Lopez e Carlos Moreno consegue a façanha de fazer jus ao espírito e à letra do texto original. A segunda e última temporada da série produzida e veiculada pela Netflix confirma e até supera a qualidade da primeira temporada. Falta o último episódio, com transmissão agendada para 26 de agosto.

Na obra monumental de García Márquez, tida como uma das mais importantes de toda a literatura em língua espanhola, tudo se passa no vilarejo fictício de Macondo, fundado por José Arcadio Buendia e Úrsula Iguarán nos confins da Colômbia. Os dois eram primos, e seu enlace vagamente incestuoso dá origem a uma estirpe marcada pela fantasia, pela loucura e pela solidão.

Macondo funde fantasia e realidade sem aviso. A série naturaliza o prodígio até apagar, aos olhos de quem assiste, a fronteira entre magia e cotidiano.

Nesta segunda temporada o José Arcadio primordial já morreu, depois de passar décadas enlouquecido e amarrado a uma árvore, mas Úrsula (a extraordinária Marleyda Soto) se mantém como matriarca e esteio da família. Mais do que centenária, ela testemunha o apogeu e decadência do filho Aureliano (Claudio Cataño) como coronel e líder político dos liberais, assim como todos os desastres e transformações de Macondo.

Seria impossível e insensato enumerar aqui a miríade de acontecimentos fantásticos e reais (não surgiu por acaso o rótulo “realismo fantástico”) que ocorrem em torno dos Josés Arcadios, Aurelianos, Amarantas e Remédios das várias gerações. Cabe apenas chamar a atenção para alguns aspectos da construção narrativa dessa saga.

Há, por exemplo, uma desenvoltura notável na transição entre a notação realista e a intervenção do fantástico. Talvez nem seja o caso de falar em “intervenção”, mas transfiguração, em desdobramento “natural” do real. O fantástico não vem de fora, mas de dentro, por assim dizer.

A segunda temporada aprofunda a dimensão histórica de Cem Anos de Solidão, aproximando a trajetória dos Buendía dos conflitos políticos e sociais da América Latina

Tomemos o caso da relação sexual prodigiosa entre Aureliano Segundo e sua amante Petra Cotes. Cada coito entre os dois estimula a fertilidade de toda a natureza, fauna e flora, trazendo abundância à região. Na primeira vez que isso acontece, o narrador em off explica o fenômeno e assistimos a uma sucessão rápida de animais acasalando, árvores frutificando etc.). Nas vezes seguintes, já vemos os frutos do sortilégio: galinhas, porcos, frutas, verduras chegando às mesas e às bancas de feira. O fantástico passa a ser naturalizado, por assim dizer.

Assim que o espectador imerge no universo fabular, deixa de haver distinção precisa entre fantasia e realidade. Mas não se trata de um “vale tudo”, de uma profusão aleatória de bizarrices, e sim de uma espécie de expansão do real, de uma liberdade poética que parte das potencialidades do próprio real.

Outro aspecto digno de nota é a imbricação do particular com o universal, isto é, da crônica da família Buendia amalgamada à história da Colômbia e do continente latino-americano em geral. Nesta segunda temporada, por exemplo, o empreendedor José Arcadio Segundo tenta abrir um canal que ligue Macondo ao mar, depois constrói a primeira ferrovia e, por fim, depois de trabalhar como capataz da United Fruit Company, lidera a rebelião dos bananeiros contra a empresa, reprimida com um massacre indizível. Em sua trajetória está sintetizada uma porção de coisas: a modernização conservadora da América Latina, a transformação da natureza e, sobretudo, a exploração pelo imperialismo norte-americano.

Marleyda Soto interpreta Úrsula Iguarán, a matriarca que se torna testemunha da história de Macondo.

Mas a série, assim como o livro, não se resume a uma ilustração metafórica da história política e social. O que os torna vivos e duradouros são seus embates humanos essenciais, entre sonho e pragmatismo, entre desejo e repressão. Todos os personagens, em alguma medida, vivem esses conflitos, interna e externamente. Os homens são místicos ou empreendedores, dionisíacos ou imbuídos de um espírito de missão – às vezes todas essas coisas alternadamente. E as mulheres ocupam um lugar decisivo, seja como fonte de erotismo e afeto, como amparo emocional, como norte moral ou como castração religiosa.

Se o livro é inesgotável, a série impressiona por sua competência dramatúrgica e narrativa. Não há “barrigas”, nem firulas, nem conversa jogada fora. A progressão narrativa é enxuta, objetiva, em que cada cena, cada plano, se resolve de modo preciso, mesmo que entre uma sequência e outra transcorram décadas.

O último episódio, descontados os prováveis flashbacks, deverá ter como protagonistas o Aureliano da sétima geração e sua tia Amaranta Úrsula. No sétimo episódio os dois ainda são crianças e ouvem o vaticínio da tetravó Úrsula: não podem fazer amor entre si, pois o fruto desse amor seria uma criança com rabo. Li o livro, mas mal posso esperar para ver como será o desfecho na série.

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