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Festivais

54ª Gramado (2026) – Chorão: Só os Loucos Sabem

Cinebiografia sobre um músico que bebia cerveja

Por Ivonete Pinto | 18.08.2026 (terça-feira)

O cinema brasileiro é pródigo em cinebiografias de cantores, seja em documentários, seja em ficções. Há desde filmes de expressivas bilheterias  como o sobre  Vinícius de Moraes, até a mais recente,  sobre Belchior. As produções ora partem para hagiografias, que retiram todas as contradições e defeitos dos músicos, ou tentam entendê-los  em suas complexidades, expondo  o lado obscuro dos retratados.

Chorão – só os loucos sabem fica com as duas vertentes. Baseado no livro da viúva de Chorão, Graziela Gonçalves,  explora suas relações familiares, o profundo amor pela mãe e até pelo pai, que era mais duro com ele. Como o ponto de vista é da esposa, centra-se mais na relação com os dois e de como ela foi importante na trajetória dele, inclusive para convencê-lo que deveria abandonar as letras em inglês e passar a cantar em português. Se ela é de fato a responsável por esta virada, o acerto é inegável. As letras de forte conteúdo social, de contestação, só fazem sentido se o público alvo aderir às mensagens. Poder gritar em um show aqueles palavrões de efeito catártico. E é o que acontece com o sucesso absoluto que ele a banda Charlie Brown Jr. alcançou ao longo dos anos, desde sua cidade natal de Santos.

Entre o ídolo e o homem contraditório, Chorão – Só os Loucos Sabem evita a hagiografia, mas suaviza justamente um dos aspectos mais decisivos de sua trajetória: a dependência química.

Tudo isto o filme vai mostrando de forma quase linear. Também não esconde os conflitos com a banda, com o baixista  que entrou no grupo com 13 anos, Champignon. O componente trágico da banda entra no filme como um pé de pagina ao final, informando que Champignon se suicidou alguns anos depois da morte Chorão, mas sem vincular os fatos, o espectador é quem monta um quadro de infelicidades no entorno do show business. Fica claro que Champignon  possuía um talento evidente, que Chorão teve que engolir, mesmo que contrariado por achar que o garoto poderia estar fazendo sombra a ele. O conflito serve para ilustrar a personagem controversa de Chorão. O badboy, brigão skatista que chora fácil e que, ao mesmo tempo, pode ser muito duro e injusto com quem o cerca. 

O aspecto do grande sofrimento que Chorão  passou pelas perdas de amigos importantes, em acidentes em que  sobreviveu por pura sorte, tem um peso forte no filme. Um sofrimento vivido na máxima voltagem por José Loreto, fisicamente talhado par ao papel. Ao lado da atriz  Nanda Marques, que defende a esposa Graziela Gonçalves,  com doçura, perseverança e racionalidade, deixa tudo convincente.

O sofrimento, a mente eternamente inquieta, parecem ser os motivos para a entrega às drogas, ao comportamento de autodestruição permanente. O roteiro não poupa o lado machista do músico, que queria a esposa ao lado dele, não importando se ela era feliz  ou não. A crítica vem dela mesma e, naturalmente, serviria para representar boa parte dos artistas rebeldes, roqueiros, funkeiros, amados por multidões, cheios de mensagens progressistas,  libertárias, etc., mas   escrotos  na intimidade. Não que o filme carregue nas tintas deste aspecto, mas está lá, evitando a hagiografia.

O filme de Hugo Prata e Felipe Novaes revela o homem por trás do ídolo, entre a sensibilidade, a agressividade e os conflitos que marcaram sua trajetória.

No entanto, o filme, por uma escolha certamente envolvendo a classificação etária de público, peca ao esconder o motivo da morte precoce de Chorão, aos  42 anos. Quem tem o mínimo de informação sobre sua morte, sabe que foi overdose.  Para quem não tem essa informação, para os adolescentes de hoje que ouvem a banda e não se ligam em biografias, o filme passa a ideia que ele morreu de overdose de cerveja e um tanto pelo consumo de  maconha. Ora, ora… Era  conhecido o fato de  que havia drogas pesadas neste processo de autodestruição, que Chorão as usava dia e noite. Esta é uma discussão legítima. É como se um filme sobre Janes Joplin ou Jimmy Hendrix, eles tivessem morrido de overdose de cerveja. 

O mesmo diretor Hugo Prata, que assina a codireção de Chorão com Felipe Novaes,  dirigiu Elis (2016). Naquele filme, também optou por não mostrar Elis Regina consumindo cocaína, que teria sido a causa da parada cardíaca que a levou à morte. Mas o envolvimento de Elis com cocaína se deu no final da vida e não define sua carreira (sem trocadilhos). Entende-se, então, a opção de apenas sugerir o que aconteceu no final da vida.  Já o caso de Chorão, a dependência química era pública e notória. A garotada de hoje que ouve suas músicas,  será poupada deste traço da biografia de Chorão. Compreenderá menos as relações de causa e efeito, compreenderá menos a figura. 

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