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Críticas

Privado: Natal Amargo

Qué pasa, Almodóvar? Diretor espanhol parece sucumbir a sua “incontinência ficcional”

Por José Geraldo Couto | 03.06.2026 (quarta-feira)

Ivonete Pinto escreveu aqui, no calor da hora, uma ótima crítica de Natal amargo (Amarga Navidad, Esp., 2026) – leia clicando aqui -, quando da sua exibição em Cannes, trazendo de quebra uma saborosa crônica sobre a recepção fria ao filme na sessão para a imprensa no festival. Concluía dizendo, entre o lamento e a brincadeira, que ninguém sabe o que aconteceu com Almodóvar.

 

Também não sei, mas, à luz da filmografia do diretor e do conto de sua autoria que inspirou o filme, arrisco algumas hipóteses. O conto Natal amargo, incluído no livro O último sonho (Companhia das Letras, tradução de Miguel Del Castillo), narra a história de uma cineasta cult que vive de dirigir publicidade e namora um bombeiro que também trabalha como stripper. O relato em primeira pessoa se resume à persistente crise de cefaleia e pânico da protagonista durante um feriado nacional prolongado que antecede o Natal.

Esse núcleo ficcional, concentrado em 17 páginas, é estendido no filme em várias direções. Para começar, a história da cineasta/publicitária Elsa (que no livro se chama Amparo) faz parte do roteiro de longa-metragem que um cineasta de meia-idade, Raúl, está escrevendo, depois de cinco anos sem filmar. Ganham desenvolvimento, nesse roteiro, temas apenas aludidos no conto, como o drama de uma amiga de Elsa, Patricia, que não consegue se separar do marido cafajeste. Soma-se a isso o trânsito constante entre a ação do filme dentro do filme, ambientado em 2004, e os dilemas do cineasta que escreve o roteiro nos dias de hoje: sua relação com o namorado, seu conflito com a assistente que o acusa de usá-la como personagem, etc.

Sbaraglia (de amarelo) como Raúl: o cineasta de meia-idade que volta a filmar.

A opinião geral da crítica tem sido a de que, nessa discussão dos liames entre ficção e realidade, entre cinema e vida, Almodóvar perdeu a mão, não alcançando o admirável equilíbrio e condensação de uma obra como Dor e glória (2019).

É verdade. Mas o tema da representação/encenação, da vida como ficção (ou como teatro), não é recente na filmografia do diretor. Está presente desde o começo, isto é, desde os filmes meio toscos, deliciosamente selvagens e despudorados dos anos 1980, com aquela energia de movida madrileña que emergiu com o fim do franquismo.

Desde aqueles primórdios, seus personagens estão sempre atuando – “performando um papel”, para usar uma horrível expressão em voga – e, em alguma medida, buscando uma estetização (e uma erotização) da vida. O que torna seu cinema singular é o fato dessa hiper-ficção revelar, paradoxalmente, um substrato humano profundo. Seus personagens costumam pulsar, transbordar de energia – erótica ou destrutiva, frequentemente ambas ao mesmo tempo.

Com o tempo, o cineasta foi depurando seu olhar, aperfeiçoando seus instrumentos, encontrando um certo equilíbrio entre a fúria estridente de obras como Pepi, Luci, Bom (1980), Maus hábitos (1983) e O que eu fiz para merecer isto? (1984) e um domínio maior do ritmo, da forma e da dramaturgia, aliado a uma reciclagem do melodrama, até atingir a plenitude de sua arte em obras-primas como Carne trêmula (1997) e Tudo sobre minha mãe (1999).

Uma característica que une quase todas as fases de sua filmografia é o império do desejo. (Não por acaso, sua produtora se chama El Deseo, e um de seus filmes mais emblemáticos é A lei do desejo.) O encontro entre seus personagens – quaisquer que sejam seu gênero e sua orientação sexual – parece sempre uma promessa de relação erótica. Suas criaturas são, antes de tudo, seres que desejam.

Uma vertente mais recente de seu cinema (digamos, desde A pele que habito, de 2011) introduziu outro tema, ou antes, outra atmosfera, que é a da consciência da deterioração física e da proximidade da morte. Dor e glória me parece um ponto alto de equilíbrio entre o impulso do desejo, a promessa de novos começos, e a melancolia do fim. O quarto ao lado (2024) já quase abandonou o influxo erótico, restando apenas a serena preparação para a morte.

É nesse contexto que surge Natal amargo. No filme, o erotismo fica praticamente restrito à cena, logo no início, do strip-tease do namorado da protagonista numa despedida de solteira: é uma espécie de autoparódia, remetendo ao deboche provocador dos primeiros filmes de Almodóvar. Aliás, o humor aparece praticamente só nessa cena e numa breve piada envolvendo restos de cocaína no documento apresentado por um rapaz num pronto-socorro. De resto, o tom predominante é o do luto.

Tanto no filme dentro do filme – isto é, no roteiro de Raúl – como na história do próprio Raúl, a narrativa é um inventário de perdas: mães que perderam seus filhos, filhos que perderam seus pais, amantes que se separaram. A própria paisagem do lugar em que Elsa vai tentar espairecer com uma amiga é de cinzas: a ilha vulcânica de Lanzarote, nas Canárias, belíssima e árida como a superfície lunar. Diga-se entre parênteses que, no conto que serviu de embrião ao filme, a protagonista-narradora tenta ler o livro Secreções, excreções e desatinos, obra outonal de Rubem Fonseca. Diz ela: “Não consigo me concentrar. Não entendo uma só frase, só sei que fala de Deus e de fezes humanas.”

Inventário de perdas, cenário de cinzas.

Um modo de explicar o sentimento de frustração causado por Natal amargo seria o seguinte: para o bem e para o mal, Almodóvar parece padecer de uma espécie de incontinência ficcional, que o leva a criar sempre subtramas dentro da trama principal, sobrepor ao drama de seu protagonista os de outros personagens, desdobrar as histórias em novas histórias, num processo sem fim.

Em Natal amargo ele parece ter perdido o controle desse impulso, introduzindo tantas variáveis, tantas inversões de perspectivas que o resultado soa arbitrário, artificial, rompendo o encanto citado acima, isto é, a habilidade de fazer aflorar a força humana dos personagens, por mais “ficcionais” que eles sejam. Um agravante é que o tema elegíaco não convive bem com a narrativa um tanto frenética, de ritmo entrecortado.

Talvez por isso tudo o final do filme resulte tão frouxo, anticlimático, em contraste com tantos finais sublimes ou epifânicos de outras obras do diretor (penso em Ata-me, em Carne trêmula, em A pele que habito). Na sessão em que assisti, os espectadores ficaram esperando até o final dos créditos que aparecesse uma nova virada, uma centelha, se não de esperança, ao menos de poesia. E ela não vem. Quem sabe no próximo.

 

Leia também texto de Ivonete Pinto para Natal amargo por ocasião de sua cobertura no Festival de Cannes.

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