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Entrevistas

Entrevista: Lina Chamie

A Via Láctea

Por Luiz Joaquim | 07.01.2007 (domingo)

Desde sexta-feira (4), o Cine Rosa e Silva (no Recife) exibe “A Via Láctea” (2007), o segundo longa-metragem (o primeiro foi “Tônica Dominante”, 2000) da paulista Lina Chamie. Tendo sua premiere mundial acontecido dia 16 de maio de 2007, abrindo a Semana da Crítica, em Cannes, “A Via Láctea” mostra Heitor (Marco Ricca), um professor de literatura que cruza a cidade de São Paulo, enfrentando um trânsito infernal, numa busca aflita pelo perdão da namorada Júlia (Alice Braga) após uma discussão com ela pelo telefone.

Neste entrevista, concedida por telefone da cidade que também é personagem de seu filme, Chamie nos conta sobre a matemática e precisão de seu roteiro para este filme de elipses no tempo e na memória; fala da importância da poesia e da palavra na confecão do personagem de Ricca (também produtor associado do filme); e da música, “quase como uma extensão da montagem”, entre outras questões que dão forma a este delicado trabalho sobre despedidas.

Como o roteiro foi fechado? A narrativa no filme parece seguir muito mais um fluxo de experimentações durante a montagem (de André finotti) do que seguir um roteiro propriamente norteador.

É o oposto. Tudo que aparece já estava lá no roteiro. Eu e o Aleksei Abib ficamos dez meses enfurnados, sem um tostão, os dois escrevendo o roteiro a partir de muito estudo. Há uma vertigem emocial profunda no filme, estamos falando de amor. No entanto, o roteiro é muito calculado. Um cálculo exato. Filmei as seqüências com o olhar da câmera costurando uma leitura da perspectiva do Heitor e não. Ela (a câmera) vê o que ele vê e também o que ele não quer ver. Em termos de estrutura no roteiro, tudo estava muito pronto. E é paradoxal, mas um roteiro bem fechado acaba te dando liberdade. Um exemplo concreto: este é um filme semi-documental. Marco (Ricca) dirigia, ele mesmo, e registramos engarrafamentos reais em São Paulo. Uma versão adiantada do roteiro ganhou um prêmio na Espanha e fomos para lá onde ficamos cinco semanas lapidando esse aspécto das idas e vindas no tempo da narrativa. Chegamos a fazer mapas do roteiro.

Seu filme mostra um domínio técnico narrativo impressionante, e nada óbvio. Quanto tempo gastou na pré-produção, nas filmagens e na pós-produção?

A pré-produção foi um trabalho corpo a corpo com o Rui (Pires, produtor executivo) e alguns estagiários, até entrar uma figura chave, nossa assistente de direção, Inês Mulin. Foi um filme de pouco dinheiro. Rodamos em quatro semanas e daí fizemos um 1° corte da montagem a qual levamos para San Sebastian (Espanha), para exibir numa mostra de filme em construção. A finalização foi em Cannes, numa correira. A edição de som até mudou um pouco depois do que mostramos na França.

Há uma bela seqüência como um jogo de esconde-esconde numa livraria francesa, que dá bem a dimensão deste domínio técnico que falo. Seja no aspecto espacial quanto no timing da montagem.

Essa seqüência tem duas coisas. É um momento solar, tem o amor e tem a presença do livro. È quando a Júlia vai entrando no universo do Heitor. E faz até uma brincadeira quando o encontra dizendo ‘te peguei gatinho!’, fazendo um link com a memória da mãe de Heitor que dizia pra ele quando criança ‘vou te pegar ratinho!’ (Chamie insere trechos da música tema do desenho Tom & Jerry, preferido por Heitor na infância). Este momento da livraria, é um momento concreto entre os dois. E apesar de solar, apesar da condição amorosa no ar, é também o início do abismo que vai se instalar entre os personagens. Ele é mais velho, ela é mais pé-no-chão. Isso os atrai e os destroi. Nesse sentido, a construção dessa cena dá o tom milimétrico do roteiro. E questão subliminar vão surgindo como a presença da morte, e nesta proximidade, as lembranças do passado mais distante vão ficando mais fortes. Você quer ir mais para um lugar idílico, reencontrar um amor incondicional, e este só o materno mesmo por que como diz o poema “Momento num Café”, de Manuel Bandeira, e aparece no filme, “que a vida é traição”.

Em alguns momentos a textura da imagem é outra. Mais limpa, mais suave. Um exemplo bastante claro acontece quando Heitor fala das estrelas para a menina num semáforo.

Ali foi um plano feito em Super16mm. A idéia era ‘parar’ o tempo. De forma objetiva, captamos 80% do filme em mini-DV. A imagens no campo foram captadas em 35mm. E tivemos o cuidado ao final de, ao fazer a ampliação total, fazermos direto do HD. No campo, há algo idílico. Seu olho descança. As lembranças da mãe de Heitor também são em 35mm, a camera estava num tripé. Era uma decupagem clássica. Essa diferença de bitola e formato nas várias imagens é uma comunicação subliminar para sugerir esses repousos para o olho que a situação pedia.

Existe uma, vamos dizer, “desordem organizada”, nos sons do filme, nas músicas, que sugerem uma desarmonia, uma espécie de cacofonia que provoca um incômodo bom. Algum interesse específico de reação (no público) com estes sons?

A música é quase uma extensão da montagem. Cortei (uma música de) Schubert chamada ‘A Morte e A Donzela’, de forma que vai se desfazando, e o filme vai ficando silencioso. Dando espaço para a escuridão. É uma construção em espiral e contínua na história que a música ajuda a montar. A música anda com a montagem, ajuda a construir sentidos com a montagem.

A poesia (antes da poesia, eu diria, a palavra) é dona de um espaço muito especial no seu filme.

A palavra está filmada. Ela é um elemento essencial para construir a personagem de Heitor.

Como o Marcos Ricca “virou” um produtor associado?

Parece clichê dizer isso mas, ele fez o filme com muito amor. Ele gostou muito do roteiro. Como disse, era ele quem dirigia mesmo nas cenas do trânsito, e ele brincava dizendo que era o motorista da equipe e falava ‘meu grande problema e não bater o carro’ (risos). Mas o Marco buscou uma humanidade para o personagem que só fez enriquecê-lo. Lutamos para que o filme não parecesse um exercício estético. Acho que conseguimos fazer um filme de personagens, graças aos atores. Sou muito gratao Marco e hoje ficamos amigos.

É perigoso, mas a gente pode dizer que “A Via Láctea” tem uma pegada mais forte para quem vive em São Paulo, quero dizer, ele oferece sentidos mais latentes para quem conhece a loucura dessa cidade, ou você acha que isso é bobagem?

Claro que quem mora em São Paulo vai reconhcê-la bastante, e ela é um personagem. Mas o curioso é que o filme viajou muito antes de estrear no Brasil. E foi bem aceito lá fora. É um filme de 3° mundo com uma dicotomia social grave impressa nele, mas não está lá como um tese, por isso chega a todo o público. Ninguém passa impune a uma cidade grande. Isso é universal. É humano. O tema é bastante comum a todos: a lembrança, a perda, o amor. Quem já perdeu alguém conhece essa aflição, essa angústia.

Como foi reação em Cannes?

Em Cannes foi tudo às pressas. A Semana da crítica é muito generosa, passa o filme sete vezes, e quatro delas com um debate com público. Vimos o que o público se relacionava com o filme. Essa era a questão principal, ele se comunicou com as pessoas. Constatamos isso nos debates. Foi o nosso maior prêmio.

Não quero ser reducionista mas, se fosse dizer numa frase, diria que “A Via Láctea” é um filme sobre o que?

Ele fala sobre a perda e a ““despedida” (Chamie usou outra palavra que não posso reproduzir para não estragar o desfecho da história). Ao mesmo tempo é um filme de amor e da vida. Não vejo como um filme amargo, mas amoroso com São Paulo e com a vida. Fala de apego e desejo, e de rupturas.

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