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Digital

Nome Próprio

A solidão entre as letras e o código binário

Por Luiz Joaquim | 25.07.2008 (sexta-feira)

“Nome Próprio” (Brasil 2008), filme de Murilo Salles que estréia hoje no Cinema da Fundação, abre com um casal num pequeno apartamento paulista numa extrema e fisicamente violenta discussão sobre a história deles. Ela é Camila (Leandra Leal), de 20 e poucos anos, que veio de Brasília a São Paulo junto com o parceiro, e agora se vê expulsa de casa, acompanhada apenas pelas roupas e pelo seu computador. Este, um aparelho que será sua tábua de salvação em sua solidão.

Na cena (e na maior parte do filme), Camila está quase nua, literal e liricamente, e a mise-en-scène não deixa de ser uma maneira interessante de Salles apresentar esta jovem personagem tão mergulhada no nosso universo contemporâneo, e que reflete uma parcela extensa de nossa juventude em sua maneira peculiar (e recentemente nova) de relacionamentos: através da Internet, quase numa dependência dela. Exemplo explícito disso está resumido em um único quadro, no qual Salles mostra um jovem se excitando diante de um computador, enquanto atrás dele está o real objeto de seu desejo.

O diferencial aqui é a relação visceral que Camila possui com a escrita. É por ela que Camila recarrega sua bateria emocional, ou melhor, que descarrega o excesso de si mesma. Como dizia Guimarães Rosa, “o silêncio… é a gente mesmo demais” e Camila é uma solitária, desesperada na sua condição de ser só. Através de seu blog, a garota vai arrebanhando fãs pela sua maneira crua e poética de falar de si (criando assim um espelho para os usuários do site).

O ritmo da montagem e a cuidadosa câmera de Salles (que tem formação como fotógrafo) não saem de perto de Camila, dimensionando a sensação claustrofóbica e de pouco ar pela qual a personagem vive em seu sufocante desespero em busca de um amor. A atriz Leandra Leal dá um espetáculo à parte. Será difícil colocar num texto a tradução da entrega e exposição pela qual ela se submete neste filme. O melhor é mesmo ver para entender.

Apesar de tantas coerência e comunhão entre tema, técnica e interpretação, “Nome Próprio” parece sugerir um drama maior do que pode comportar. O drama de Camila quer ser grande demais para um apartamento pequeno demais. Ali está apenas um menina solitária (sem querer minimizar o sofrimento das meninas solitárias), que dimensiona tudo no superlativo e não consegue administrar suas limitações de socialização.

Mas “Nome Próprio”, o projeto, carrega consigo outro aspecto interessante. Tem todo um perfil digital. Foi captado com câmera digital, só estréia em salas com projeção digital, tem seu marketing feito apenas pela internet e, para quem ainda não sabe, foi inspirado no livro “Máquina de Pinball”, de Clarah Averbuck, e em seus textos publicados em seu blog.

Salles, entretanto, revelou quando esteve no Recife para debate no Cinema da Fundação na semana comemorativa de dez anos, que mais de 60% dos textos ali exposto não são de Averbuck, mas sim um coquetel de trechos de autores admirados por ele, além de textos dele mesmo.

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