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Críticas

O Lobo de Wall Street

O bacanal da ganância

Por Luiz Joaquim | 24.01.2013 (quinta-feira)

É bem raro o Recife poder conferir na mesma semana a estreia de novos filmes de dois titãs do cinema. Se juntássemos a dedicação de Martin Scorsese e Jean-Luc Godard a este universo somaríamos mais de 110 anos de história, totalizando mais de 50 filmes. Para muito além dos dados numéricos, estes dois tornaram-se gigantes pelo talento e renovada capacidade de reiventar o cinema, alargando para os lados sua linguagem e oxigenando sua longevidade. Os novos “O Lobo de Wall Street”, de Scorsese, e “3x3D” (o segmento “3 Des-Astres”), de Godard, demonstram que o cinema destes dois senhores está cada vez mais jovial, no sentido vigoroso da jovialidade. Confira abaixo.

O bacanal da ganância

Martin Scorsese nos convida a entrar com “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013) na mais alucinada e irresponsável festa pela qual foi a vida de excessos do protagonista Jordan Belfort, o real e voraz corretor da bolsa de valores (belamente interpretado por Leonardo DiCaprio) que iniciou em Wall Street para depois criar sua própria empresa, a Stratton Oakmont, e enriquecer na velocidade de um raio.

Chegando a ter lucros de US$ 49 milhões por ano, Jordan perdeu tudo movido pela ganância por mais dinheiro, mais drogas e mais mulheres sem nunca sentir qualquer tipo de remorso. Tal qual uma festa sem rédeas, o novo título de Scorsese move-se rápido como seu protagonista. O roteiro adaptado por Terrence Winter do livro escrito por Belfort reúne tantas situações absurdas que fazem o espectador desconfiar da famosa “licensa poética” utilizada pelos cineastas.

Mas, em recente entrevista a rede de tevê CNN, o verdadeiro Belfort confessou que o que está no livro e no filme é verdade. E que obscenidades maiores se sucederam, mas de tão cabeludas, nem ele teve coragem de relatar.

DiCaprio – ao lado de Scorsese desde “Gangues de Nova Iorque” (2002) – parece nunca ter se colocado de maneira tão física num personagem. Gritando o tempo todo e agindo quase que por todas as três horas de duração do filme como um personagem sob o efeito de drogas e tesão, o ator é o mestre de cerimônia desta representação de uma universo que parece ter atingido seu limite no que diz respeito a sedução orgiástica do poder.

Já Scorsese refaz um caminho por ele muito bem traçado no passado, ao nos colocar tão intimamente dentro do modo de pensar de Jordan. Um sujeito escroque, canalha e traidor, mas com o qual simpatizamos. Como se não bastasse seus filmes “Caminhos Perigosos” (1973), “Os Bons Companheiros” (1990), “Cassino” (1995), “O Aviador” (2004), “Os Infiltrados” (2006), o diretor nos agracia mais uma vez com um elaborado estudo cinematográfico de como certos homens poderoso negociam.

Ou ainda como um homem comum pode se meter em encrencas sem entender muito bem quais os passos que errou – tal qual no cômico “Depois de Horas” (1985).

Um dos momentos mais elegantes de “O Lobo…” prescinde da edição elaborada de sua montadora Thelma Schoonmaker (com Scorsese desde “Quem Bate à Minha Porta?”, 1966), dos dialogos ferozes de Winter, ou do vigor interpretativo de DiCaprio. Pertence mesmo é ao dono da bola, Scorsese.

Acontece quando os federais chegam para levar Belford preso, e DiCaprio está posicionado no segundo andar de sua casa, em segundo plano. É um plano rápido, e nele contém a galhardia que resume o talento e eloquencia cinematográfica de Martin Scorsese.

Martin Scorsese, 71 anos. 24 filmes de ficção para o cinema. Há quem considere este baixinho (1,63 m) que nasceu em Little Italy, Nova York, o maior diretor norte-americano vivo. Junto a Copolla, Di Palma e George Lucas, foi o responsável pela remodelação de Hollywood nos anos 1970, quando mostrou aos grandes estúdios que era possível fazer bons filmes com baixo orçamento e muito talento. Amante de filmes em todos os aspectos, criou sua própria assinatura visual nas últimas cinco décadas com obras que olham com carinho para loucos, bandidos, prostitutas, falidos, mafiosos e até para a Igreja Católica. O mundo de Scorsese é o da violência, da ganância, da vingança. Temas próprios de um frenetismo que só ele consegue imprimir tão bem.

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