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Críticas

Em ritmo de fuga

O que dá para fazer com 13% do orçamento de “Transformers 5”? “Em ritmo de fuga”.

Por Luiz Joaquim | 25.07.2017 (terça-feira)

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Tendo entrado em cartaz no último dia 20 em mais de 300 salas de cinema no Brasil, Transformers: O último cavaleiro foi a maior estreia da semana passada, apoiando-se em robôs alienígenas que se transformam em carros. Mas poder mesmo há neste outro filme, pequeno e também com carros em destaque, chamado Em ritmo de fuga (Baby Driver, EUA, 2017), de Edgar Wright (de Scott Pilgrim contra o mundo) nos cinemas a partir desta quinta (27).

Realizado ao custo de 13% (US$ 34 milhões) do orçamento de Transformers 5, Em ritmo de fuga tem a seu favor o garoto Ansel Elgort (da série Divergente e das açucaradas adaptações do romances de John Green, A culpa é das estrelas, 2014, e Cidades de papel, 2015). Seu carisma já posto em prova aos adolescentes chega agora a uma outra faixa etária de público (sem descartar os juvenis pagantes de sala de cinema).

Em ritmo…  é como um teste de fogo para Ansel, pelo qual contracena com os figurões oscarizados Kevin Space e Jamir Foxx. E ele é aprovado.

Não podendo deixar ser comparado com Drive (2011), de Nicolas Winding Refn – uma vez que aqui, Ansel é Baby. Ele é o exímio motorista que Doc (Space) contrata para disparar em fuga ao final de cada assalto de banco que planeja -, mas o filme de Wright, ao mesmo tempo, se afasta do de Winding Refn uma vez que seu interesse é envolver principalmente pela diversão, além da ação.

Para isso a música é definida com primordial, não apenas para desenhar o protagonista, mas também definir o ritmo do que nos é contado com imagem e som. Baby, que não é do mal, não gosta de falar, foi criado por um senhor surdo (C J Jones), e está sempre com seus earphones presos entre as orelhas e os seus diversos iPods, que reproduzem incessantemente boa música.

Fundindo a batida das músicas com o som do tiro das armas de seus parceiros no crime, a trilha-sonora de Em ritmo… é uma estrela a parte. Foge do óbvio e traz James Brown (I got the feelin’), passa por Jonathan Richman & The Modern Lovers (Egyptian reggae), esbarra com Carla Thomas (B-a-b-y) ou os T-Rex (Debora), entre outras, e já começa com os ótimos The Jon Spencer & Blues Explosions (Bellbottms), sugando a plateia para a adrenalina da briga, com Ansel praticamente dublando o vocal da música enquanto, ao fundo, o assalto corre solte.

A dublagem da música integrada à trilha sonora, o jeito cool, sempre de óculos de sol – um Ray-Ban clássico -, a juventude livre e a relação forte com a melodia das canções também remetem Baby ao querido Ferris Bueller (Mathew Broderick) de Curtindo a vida adoidado (1986), ou ainda ao Joel, um Tom Cruise bacana, que ficou perdido num passado chamado Negócio arriscado (1983).

Em ritmo… acaba por forjar-se, com êxito, como o fruto da combinação entre estes clássicos juvenis dos 1980 com outros clássicos de perseguição de automóveis (uma especialidade do cinema norte-americano) – para além do contemporâneo Drive – como Bullit (1968), Corrida contra o destino (1971) e Operação França (1971), só para citar três obrigatórios.

O humor fica por conta do constante status relaxado de Baby contrastando contra o ultra-violento de Bats (Foxx) e o provocador de Buddy (John Humm, o Don Draper de Mad Men), além do onipresente poder de Doc sobre o garoto. Poder que o bom roteiro (também de Wright) cuida de explicar aos poucos.

 

Importante registrar, entretanto, que a grande beleza de Em ritmo… está nos seus 2/3 iniciais. Até lá, o roteiro vai apresentando seus personagens ao mesmo tempo em que deixa uma saudável dúvida sobre aonde o filme quer chegar e sobre quem devemos prestar atenção, além de Baby, num grupo de malucos nos é apresentado.

Essa miscelânea de tantos personagens secundários poderia descambar para a confusão, mas Wright controla seus filhotes com muito cuidado, dando a eles o tempo necessário que precisam para nos atrair e, depois, para esquecermos deles.

O terço final de Em ritmo… acaba por resolver-se, talvez, rápido demais, se comparado ao que vinha sendo construído com calma nas partes anteriores. Mas nada tão destoante a ponto de enfraquecer ou enterrar o filme.

O todo encerra-se positivo, sai ileso em tempos de autorobôs valentões e patéticos, e ainda serve como um belo cartão de visita de Ansel para o mundo dos adultos – ainda que sem tirar um pé das apaixonites juvenis, sendo seu par aqui a atriz Lily James (de Cinderela, 2015). É legal.

Lily James e Ansel Elgort em cena de “Em ritmo de fuga”.

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