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Críticas

O Rei do Show

Como vender a exploração do frágil pela cartilha do politicamente correto. E ainda, cantando e dançando.

Por Luiz Joaquim | 21.12.2017 (quinta-feira)

A premissa era boa. Tanto que, a certa altura, dentro da trama de O rei do show (The Greatest Showman, EUA, 2017), em pré-estreia a partir de hoje (21, e em cartaz dia 25/12), o lendário crítico de teatro do jornal New York Herald, James Gordon Bennett (Paul Spark), estampando uma expressão reflexiva no rosto, diz ao protagonista P. T. Barnum (Hugh Jackman): “Algum crítico poderia classificar seu espetáculo como nivelador da humanidade”.

Explica-se: no filme, Barnum (1810-1891) é retratado como uma espécie de fundador da idéia do show business como entendemos ainda hoje, ou seja, sendo o negócio a construção de um espetáculo (seja cinematográfico, musical, teatral, etc.) cujo objetivo primeiro é entregar ao público fantasia em troca de seu dinheiro

O detalhe é que a primeira fonte de sucesso e conseqüente lucro financeiro de Barnum baseavam-se na criação de uma casa de shows apresentando algumas figuras tidas como excêntricas para o século 19 – a mulher barbada, o homem mais alto do mundo, o mais baixo, o mais gordo, outro com o corpo coberto de tatuagem, ou coberto de pêlos, mais uma albina e ainda um casal de trapezistas negros, entre outros.

“Aberrações” é um termo que inteligentemente não é usado no filme, mas é por este aspecto que as figuras são introduzidas no contexto.

Ainda que o roteiro de Jenny Bicks e Bill Condon (do interessante Chicago, 2002) se esforce para emprestar à figura de Barnum a tarja de mocinho, esta idéia não desce fácil pela goela do espectador. Barnum seria um cara legal por oferecer a dignidade de um artista a estes seus funcionários incomuns. Idéia assumida pelos seus empregados inclusive numa canção que, após serem impedidos pelo patrão de entrar numa festa de grã-finos influentes, a trupe reage entrando no palco cantando que são artistas e ninguém irá impedi-los de seguir em frente.

Este é o único conflito que O rei do show apresenta entre criador e criaturas e, ainda assim, a mágoa pela rejeição não desenvolve para nada, digamos, de reflexivo dali adiante no enredo.

Por este aspecto, O rei do show soa bastante como um produto de seu tempo. Não no bom sentido, mas naquele em que se aproveita da idéia do politicamente correto (um sentimento provavelmente nunca tão aguçada como nos últimos anos) para sugerir que todos são iguais e devemos nos orgulhar disso.

Mas, ei. Barnum usa os “diferentes” para ganhar dinheiro. Em primeira instância é isto o que fica de O rei do show. Daí termos iniciado este texto com “a premissa era boa”. O resultado, nem tanto.

MUSICAL –  O rei do show é a estreia na direção de Michael Gracey. Um jovem criador digital, especialista em efeitos visuais. O histórico de Gracey sugere muito domínio em softwares que fabricam ilusão visual. Sugerem também que o repertório cinematográfico do rapaz não deva ir muito além dos últimos 15 anos, sendo, talvez, “a dança dos famosos”, que ele acompanha em seu país, um grande apelo pessoal.

A propósito, exceto pelo número do ator Carlyle (Zac Efron) com a trapezista Ann (a cantora Zendaya), as performances musicais aqui sugerem um “dança dos famosos” com o adendo de luxo dos cenários virtuais que Gracey domina. Junte-se a isto a estratégia criada pelo diretor Rob Marshall no já citado Chicago de fazer a câmera e a montagem dançar mais do que os atores (assim o espectador deixa escapar as limitações dos famosos). E assim temos em O rei do show mais um produto limitado dentro da linha dos musicais que Hollywood despeja a cada ano no rastro de mega-sucessos, sendo o mais recente chamado de La la land.

Com potencial também para explorar algo sofisticado e que o filme só passa pela superfície – a origem humilde de Barnum e sua constante necessidade de aceitação, particularmente pela exigente sociedade novaiorquina -, O rei do show prefere dar mais espaço a um contexto romântico de preconceito étnico-racial para depois dizer, ou melhor, cantar que o amor a tudo supera.

Pela ideia de “o quanto custa” para a vida pessoal dedicar-se ao show business e o quanto disso esculhamba com a cabeça dos envolvidos, o filme deixa  passar uma boa oportunidade de elevar seu nível, trazendo a cantora Lind (Rebbeca Ferguson) ao assunto, mas não resolvendo-o.

Prefere abrir espaço para Jackman tentar uma nova sorte em musicais após o fracasso de Austrália (2008). Ele se sai melhor aqui, embora a química com Michelle Williams (no papel da esposa Charity) não ajude o ator. Quem sobe alguns degraus no status de estrela parece ser Efron, afinado e bom dançante.

Em tempo: Em um dos números de O rei do show, Burman tenta seduzir, cantando e dançando, para Carlyle tornar-se seu sócio em sua empresa de espetáculos. Seja pela performance coreográfica, seja pela letra da canção e pela interatividade física entre os dois numa mesa de bar, a coisa toda deverá tornar-se um clássico da cultura gay.

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