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Festivais

6. Dcine (2002) – pernambucanos e mexicanos

Festival paranaense é reconhecido por valorizar a mídia digital e o vídeo

Por Luiz Joaquim | 10.05.2019 (sexta-feira)

– publicado originalmente em 10 de maio de 2002, sexta-feira, no Jornal do Commercio (Recife)

CURITIBA – O 6º Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba (FCVDC), que teve início ontem, vai exibir até 14 de maio cerca de 190 obras audiovisuais, projetadas em dois pólos: o Espaço Cultural Canal da Música e a Cinemateca de Curitiba. Além da mostra oficial de longas-metragens, o evento divide as sessões de curtas (competitivas) em três categorias: filme (16mm e 35mm), vídeo e cinema digital. Há ainda a mostra Festival dos Festivais (filme e vídeo), na qual são apresentados apenas trabalhos já premiados.

Na noite de abertura, antes da exibição do longa argentino Uma Amor de Borges, de Javier Torres, foi apresentado o vídeo Guairá: Entranhas. Dirigido, roteirizado e produzido por Kátia Mesel, o trabalho é resultado de uma oficina ministrada para 30 estudantes da região e mostra a sensação de explorar o grande labirinto por trás dos palcos do Teatro Guaíra (dito como o maior da América Latina). Nos imensos corredores, personagens paraenses falam de suas experiências naquela casa. Também ontem, Pernambuco apareceu na mostra Festival dos Festivais (vídeo) com dois trabalhos do Telephone Colorido: Destruindo o Monolito e Shift 3#.

É inevitável a comparação com o festival feito no Recife, por ambos terem nascido no mesmo ano. Um marco indelével em Curitiba é o prestígio que concede às produções em vídeo e cinema digital (Dcine) – produção de conceito discutido entre os puristas mas já reconhecida pela organização do FCVDC. Outra evidência de valor dessa sexta edição revela-se em forma de preocupação sobre a produção intelectual cinematográfica no Brasil.

Homenageado o mítico Paulo Emílio Salles Gomes, o festival realiza um encontro de críticos para debater o tema Cinema: uma indústria atrás de sua crítica e de seu espaço na mídia. Duas grandes novidades deste FCVDC é a criação da Mostra Competitiva Universitária, exibindo vinte trabalhos do Paraná e Rio Grande do Sul, e o lançamento do projeto Filmes que a gente não vê mas deveria: espaço dedicado para cinco sessões homenageando três diretores consagrados. Neste ano, exibindo Ruy Guerra (Os Fuzis, Os Cafajestes), Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol) e Nelson Pereira dos Santos (Memórias do Cárcere, Vidas Secas). Outro ato louvável do Festival de Curitiba é o cunho social do evento. Todos os anos, a renda (ingressos a R$ 1) é revertida para instituições assistenciais do Paraná.

– abaixo, publicado originalmente em 13 de maio de 2002, segunda-feira, no Jornal do Commercio (Recife)

Filme mexicano atrai atenção em Curitiba – Corazones Rotos possui narrativa e personagens à Robert Altman. Pernambuco mostra A Composição do Vazio

Na mostra de longas-metragens do 6º FCVDC não há competição, apenas a exibição de filmes ainda inéditos na capital paranaense. O mais aguardado na cidade é Lavoura arcaica (programado para hoje, uma vez que a atriz curitibana Simone Spoladore estará presente com o diretor Luiz Fernando Carvalho).

Na mostra de longas latinos, serão exibidos filmes espanhóis, italianos, chilenos e cubanos, mas a atenção está voltada, hoje, para o mexicano Corazones Rotos – com narrativa e personagens a la Robert Altman – é, amanhã, passa o filme 25 watts, dos uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. Também amanhã será exibido A composição do vazio, de Marco Enrique Lopes. Curioso é sua inscrição na categoria competitiva de vídeo, quando se sabe que o curta foi concebido e 35mm. Marcos Enrique explica que precisou submeter o filme a uma edição, eletrônica, reduzindo sua duração a 20 minutos (originalmente possui mais de 25 minutos), para, assim, classificá-lo na competição.

A noite de quinta-feira do 6º Festival de Cinema, Vídeo e Cinema Digital (Dcine) de Curitiba (FCVDC) correu sob uma temperatura de 13 graus centígrados e um longo atraso na projeção do longa Um amor de Borges, de Javier Torre. No auditório 1 do Espaço Cultural Canal da Música, o público curitibano conheceu, pelo filme, a mais forte experiência romântica do escritor argentino. O longa foi vencedor latino da última edição do Festival de Gramado, e arrebatou também o título de melhor ator para Jean-Pierre Noher, como Jorge Luís Borges.

O filme de Torre nos apresenta um escritor meticuloso, tímido, cheio de regras e métodos, de vida burocrática. Até que, já por volta dos 40 anos, conhece a aspirante a escritora Estela Canto (Inês Sastre) e é enfeitiçado pela sua personalidade diametralmente oposta a dele. A beleza do filme reside justamente na relação que nasce dessas duas figuras tão distintas. Ela, uma locutora de rádio, simpatizante de ideias comunistas e sexualmente liberal. Ele, com uma timidez constrangedora, é funcionário de uma pequena biblioteca pública, apaixonado pela filosofia, pela literatura e um devoto e dependente de sua mãe.

O que poderia ser uma história piegas, motivo de piada, pela inabilidade de Borges com o sexo feminino, vira, na mão de Torre, um filme sensível, sem excessos, ganhando fluência e delicadeza. Sabe-se que o relacionamento aconteceu na época em que o escritor construía seu conto O Aleph, o que pode abrir, aos fãs de Borges novas revelações/conexões na interpretação desse texto.

– viagem a convite do festival

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