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Festivais

25º É Tudo Verdade (2020) – Boa Noite

Cid Moreira: o homem de todos

Por Luiz Joaquim | 30.09.2020 (quarta-feira)

– na foto, Cid Moreira e Hilton Gomes na primeira década do Jornal Nacional, da tevê Globo

Como compilar num filme a história de um homem que foi ao ar, no telejornalismo brasileiro, por mais de 8 mil vezes, durante 27 anos? Que imagens escolher, que assunto priorizar? Optar por contar a totalidade dessa história, e também o que vem antes dessa história, seria impossível. Mas, qual o recorte então a ser estabelecido para detalhar ao espectador a trajetória do apresentador Cid Moreira?

O apresentador, a propósito, completou 93 anos ontem (29), mesma data em que o documentário Boa noite, de Clarice Saliby (em seu primeiro longa-metragem), ficou disponível pelo festival É Tudo Verdade, em sua 25ª edição, podendo ser acessado a partir da página do evento (etudoverdade.com.br).

Clarice seguiu um fio interessante e despretensioso: entremeou o contar dessa longa história profissional com detalhes contemporâneos do dia-a-dia na vida de Cid, na confortável residência daquele que entrou na casa de milhões de brasileiros por quase três décadas. E o resultado é bom.

Bom, particularmente, porque Clarice consegue acessar a simpatia do apresentador cuja a marca era a sisudez em frente às câmeras da TV Globo, além de deixar claro que Cid chegou onde chegou por ser dono de uma disciplina espartana.

Ainda que houvesse tantas imagens disponíveis com o Cid por trás da bancada do Jornal nacional (JN) para brincar na edição do documentário, esse volume de imagens era, contraditoriamente, pouco dinâmico pela própria natureza do telejornalismo. A dinâmica está nas imagens das reportagens e não em quem apresenta, do estúdio, a notícia – ao menos era assim no século passado. Em função disso, era falsa a ideia de facilidade por conta do volume gigante de imagens disponíveis.

Ao mesmo tempo, como dissemos na abertura desse texto, era verdadeira a ideia de dificuldade em função do volume de imagens ao alcance da diretora, um material que é fruto de 27 anos (1969-1996) diante das câmeras. Uma das fotos de divulgação do documentário, com Cid nos corredores de arquivos da Globo, já dá essa dimensão.

A façanha da longevidade no telejornalismo, inclusive, lhe deu um lugar no Guinness book, livro dos recordes – que pode ser batido pelo seu sucessor no JN, William Bonner, já há 24 anos na mesma função.

Mas o que Boa noite talvez tenha de mais valioso seja mesmo os momentos do Cid Moreira de hoje. Gravado quando o personagem tinha ‘apenas’ 91 anos, o encontramos serelepe e íntimo das redes sociais e softwares de edição de som.

Cid, em cena de “Boa Noite”

Num dos melhores momentos, é o próprio Cid quem sugere à diretora uma trilha sonora de suspense, ao invés do ‘pianinho’ previamente escolhido, para cobrir sua performance para o documentário, representando a si mesmo numa situação assustadora, quando, há poucos anos, ele ficou preso na sauna de sua casa sob o risco de entrar em coma.

Entre curiosidades da carreira – como a de chegar atrasado na bancada do JN por conta de um temporal no Rio de Janeiro, ou da mosca que quase engoliu enquanto estava ao vivo -, e cobranças vinculadas à ditadura militar (“Sou apolítico. Leio o que me pagam para ler”), Boa noite é principalmente um trabalho sobre um homem longevo, saudável, de bem com a vida – marcado apenas pela tristeza de ter perdido uma filha para as drogas – e colhendo os frutos de, repetimos, uma carreira profissional rígida, ditada pela disciplina.

Disciplina tamanha a ponto de fazê-lo segurar a lagrima durante uma edição do JN em que recebeu a notícia de que a mãe havia falecido. Não é para muitos.

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