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Festivais

26º ETV (2021) – Charlie Chaplin

Uma trajetória bem desenhada daquele que é o mais popular nome do cinema de todos os tempos.

Por Luiz Joaquim | 11.04.2021 (domingo)

O que esperar de Charlie Chaplin: O gênio da liberdade (Charlie Chaplin, Lé Génie de La Liberté, Fra., 2020), documentário feito para a TV francesa por Yves Jeuland? Obra que levou o selo Cannes Classics 2020 e foi disponibilizada ontem (11), por streaming, pela 26ª edição do É Tudo Verdade: Festival Internacional de Documentários (ETV).

Bem. Fãs e profundos conhecedores sobre a vida e obra do eterno e atemporal gigante do cinema, que foi Charles Spencer Chaplin (1889-1977), terão a chance de ver imagens raras como, por exemplo, a do filminho publicitário que anunciava o histórico lançamento da United Artists, em 1919, com Chaplin, mais a estrela Mary Pickford, o polêmico diretor D. W. Griffith e o galã Douglas Fairbanks (o melhor amigo, de toda vida, de Chaplin).

Fairbanks, Pickford, Chaplin e Griffith, 1919.

Todos fazendo um cumprimento coletivo e engraçado, com gestos celebrativos da nova companhia que lhes davam a alforria dos gigantes estúdios da época (a Warner e a Metro, por exemplo), e assim terem todo o controle (e lucro) sobre seus próprios projetos.

E isto é apenas um exemplo para ilustrar as raras e belamente encadeadas nesse filme.

Já os leigos no assunto Carlitos terão a chance de se dar conta por uma narrativa não apenas didática (no melhor sentido da palavra) do tamanho e importância de Chaplin para o mundo e para as pessoas (até hoje), além de experimentarem um primeiro encontro intelectual com a sua genialidade e sensibilidade cinematográfica.

E também por acessar, quem sabe pela primeira vez (sempre haverá uma primeira vez com Chaplin enquanto houver gente nascendo nesse mundo), a beleza intraduzível construída pelo gênio Chaplin na pelo do Carlitos, o vagabundo mais amado que o cinema já conheceu.

Bastidores das filmagens de “Luzes da Cidade” (1931)

Nesse sentido, um bom exemplo da inteligência deste documentário pensado para a TV – que na versão integral disponibilizada pelo ETV possui 145 minutos (que passam voando) – pode ser conferida quando o verborrágico documentário silencia totalmente para “assistir” junto com nós, espectadores, a clássica sequência final de Luzes da cidade (1931), quando a florista finalmente reconhece o benfeitor que a ajudou a enxergar novamente.

A economia e a precisão dos gestos ali resultam no esplendor absoluto que transcende gerações e, arriscamos dizer, comovendo profundamente, da mesma forma, em 1931 ou em 2021.

O documentário concentra uma boa energia neste que foi seu quinto longa-metragem, inclusive oferecendo cenas raras de seus bastidores para falar do perfeccionismo do cineasta, porque, como se sabe, Luzes da cidade foi decisivo na carreira de Chaplin naquele momento (1931) em que o cinema falado já dava as cartas, mas o realizador queria contradizer o mundo mostrando que seu Carlitos, com sua pantomima, pertencia ao cinema silencioso e, por ele, venceria.

E venceu.

O gênio da liberdade mostra em fotografias que, na sessão de estreia do filme, Chaplin tinha sentado ao seu lado ninguém menos que o cérebro mais respeitado de então: Albert Einstein (1879-1955), e que, ao final dessa sequência, ao dar uma espiada pro lado, conferiu que os olhos do físico estava carregado de lágrimas.

A cena final de “Luzes da Cidade” (1931), com sua intraduzível beleza.

Nem dá para mensurar aqui o tamanho do tesouro que são as informações visuais que ilustram os primeiros anos da vida miserável que Chaplin teve em Londres, e as informações dos primeiros passos de sua carreira artística. Tudo fluidamente organizado pelo documentário em sua primeira parte, com a narração pontual do ator Mathieu Amalric (Escafrando e a borboleta; O som do silêncio).

Mas, como aponta o título do filme – com a palavra ‘liberdade’ em destaque -, há um enfoque político aqui que explica muito bem como Chaplin chegou a uma outra obra-prima, O grande ditador (1940), lançado em plena Segunda Guerra Mundial. E idealizado a partir de uma prévia viagem feita ao redor do mundo que fez para descansar após a complexa filmagem de Tempos modernos (1936).

Chaplin, prestes a dar o histórico discurso em “O Grande Ditador” (1940)

A viagem lhe tomou mais de um ano e, nesse período, fez suas ideias sociais refinaram, conectando o artista ainda mais a sua infância miserável vivida nos guetos de Londres.

Era o que faltava para fazê-lo decidir-se, mais uma vez, ir contra a vontade de todos e realizar o primeiro filme antibélico do mundo, audaciosamente satirizando o demônio sobre a Terra, Adolf Hitler 1889-1945).

Entre tantas graças n’O grande ditador, há o tom grave do histórico discurso – que o documentário ressalta bem: ali não é a fala do ditador-personagem, nen a do barbeiro-judeu, mas sim a do criador Chaplin -, nos lembrando que precisamos de mais humanidade para termo um mundo mais justo. E só.

Para o persecutório governo norte-americano, paranoico contra os comedores de crianças da URSS, Chaplin agigantava-se ainda mais em ser um incômodo pela sua popularidade e discursos humanistas e, daí,  O gênio da liberdade aproveita para também contextualizar o sobre a decisão do artista em viver seus últimos dias na Europa, em particular, na Suíça, onde faleceu.

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