
54ª Gramado (2026) – Justino
Pastores do mal X Pastores do Bem
Por Ivonete Pinto | 20.08.2026 (quinta-feira)
Habitué do festival, entre curtas e longas, José Eduardo Belmonte está novamente na programação, desta vez com Justino – Nos Bastidores do Reino.
O diretor de Brasília, numa prática também recorrente, foi convidado para dirigir um filme cuja ideia é de um produtor – lógica do cinema de mercado, que no Brasil acontece pouco. O produtor em questão é Nilson Rodrigues, que há anos cultivava o projeto de filmar a vida do ex pastor, ex drogado, ex morador de rua e, se bobiar, ex gay.
É impressionante a trajetória do pastor Mário Justino, que virou livro e é de onde parte o roteiro a oito mãos de Belmonte, Ewerton Belico, Sérgio Moriconi e Nilson Rodrigues. Vivido na tela por Christian Malheiros, sua carreira na igreja foi apoteótica devido à grande capacidade de oratória, sua inteligência e, no início, sua genuína preocupação com os pobres.
A biografia de Justino teria que ir para o cinema em um momento ou outro, pois é riquíssima em seus altos e baixos. O filme, para o bem e para o mal, tenta abarcar uma enormidade de acontecimentos que duraram décadas. Da ascensão na igreja pentecostal na periferia do Rio de Janeiro, até sua vida em Nova York, onde foi buscar uma mala de dinheiro para trazer ao Brasil a pedido do mafioso líder da igreja, pastor Azevedo, e nunca mais voltou. Nesta fase, que se passa entre os anos 1980 e os 1990, adquiriu Aids e foi salvo não pela fé, mas pela ajuda de uma brasileira trans, também com a doença, e que fazia um serviço voluntário de apoio aos doentes. À época, uma legião de contaminados que morriam com muita facilidade.
Mas isto é apenas um dos temas desta biografia de Justino, que ainda passou pelo casamento forçado quando os líderes descobriram a “inclinação” dele para o mesmo sexo, a família que ele constitui, as diversas mudanças de cidades para atuar já como pastor eficiente, cuja definição envolve fazer dinheiro. Cuja definição, por sua vez, envolve explorar pobres e se locupletar com as fortunas do dízimo. Necessariamente.
O filme, por ter uma origem “chapa branca”, livra o caráter de Justino ao mostrar que ele era diferente dos demais. Ao mesmo tempo, ainda que não concordasse com os métodos, acabava conivente e, em nome das receitas milionárias, agia com as mesmas práticas espúrias, embora ele próprio não tenha enriquecido. Teria sido apenas usado.

José Eduardo Belmonte usa a trajetória de Mário Justino para investigar a relação entre religião, poder e exploração.
Justino, o filme, por vezes atropela-se ao contar tantas histórias, ao querer dar conta de todos os acontecimentos. Não quis apostar em recortes e o que temos são pulos de comportamento do personagem que soam pouco críveis na tela. Passa de um ingênuo pregador a usuário de drogas pesadas em um dos saltos da história, por exemplo. A própria Aids, tema que se ressente de ser mais explorado, também é atropelado.
Porém, há um tema que o filme não abandona, respeitando o subtítulo “Nos Bastidores do Reino”. Somos apresentados a toda sorte de falcatrua dos lideres. Não que os brasileiros que pertencem àquela parcela ainda racional e bem informada da população não conheçam. O filme não poupa o mau-caratismo desses líderes, mais empresariais do que religiosos, com ênfase no televangelismo.
O roteiro resolve bem este perfil ao dramatizar entrevistas, a compra de uma emissora de TV, o papel abominável de Collor na negociação, e até a prisão do líder “Azevedo”. Fica muito claro, desde o início, que se trata da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, e dele próprio.
E na pele de Edir Macedo, Caio Blat está à vontade. O ator, aos 46 anos, encarnou o personagem, ao ponto do repúdio e o nojo serem provocados a cada vez que ele entra em cena. Todos atores no entorno estão no mesmo nível, mas a câmera valoriza mais suas expressões, o roteiro investe mais em suas falas precisas – e escrotas – justificando inclusive a decisão de Justino de matá-lo (a cena abre o filme e só então o filme se desenrola em flashback funcional).
O diretor Belmonte conhece bem o tema evangélico e as igrejas neopentecostais. Dirigiu O Pastor e o Guerrilheiro (2023), que também esteve em Gramado. Igualmente interessante ao situar o enredo na ditadura militar, este filme contrapunha um guerrilheiro comunista e um pastor evangélico preso por engano. Um pastor do bem, diga-se.
Com isso, Belmonte acaba fazendo um estudo, através da ficção, da missão dos evangélicos na sociedade brasileira. Cria uma memória de como essas igrejas surgiram. Sem demonizar os fiéis, expõe quais seus métodos de alcance de riqueza. Já há muitos filmes que abordam o tema, como o documentário de Petra Costa, Apocalipse nos trópicos (2024). Nunca serão demais. Precisamos entender o fenômeno que invadiu a politica, virou produto de exportação e determina eleições.
Mário Justino foi, até um certo ponto de sua história, apenas um ingênuo usado pela engrenagem dos pastores. Mas na atualidade, com tantas informações disponíveis, não deveria haver mais justinos. Se um dos públicos-alvo do filme fosse os seguidores evangélicos seria uma incumbência e tanto em prol da conscientização. Porém, quando se trata de fé, e ela é sempre cega, o filme será visto como um amontoado de fake news. Glória a deus…















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