
54ª Gramado (2026) – Leite em Pó
O surpreendente filme vindo do Rio Grande do Norte
Por Ivonete Pinto | 19.08.2026 (quarta-feira)
Enfim um longa-metragem instigante, formalmente arrojado e avesso a qualquer fórmula narrativa. Sem precisar recorrer a temas da hora, nem à duração excessiva (90min), o diretor e roteirista Carlos Segundo, em Leite em pó, desliza com segurança pela liberdade narrativa. O enredo é simples: um homem de 38 anos (Vinícius de Oliveira), vive com a avó (Zezita Matos), tenta carreira como cantor de rock, mas vive de bicos. De barman a vendedor de álbuns de fotografia. É um looser, em bom português. A avó morre e a partir daí começam os eventos, as curvas, os atalhos e até algumas bizarrices que levam o filme para o humor, mas nunca abandonando o ingrediente existencial do personagem, centrado na solidão e na inconformidade.
Como a situação a seguir acontece logo no início, não seria spoiler adiantar. A avó, que se suicidou, é mantida pelo neto, com a ajuda de um velho amigo dela (Antônio Pitanga, em registro contido e perfeito), à base de sal grosso e injeção de formal. O motivo seria prático: não informar a ninguém sobre a morte, porque a pensão dela cairia em alguns dias na conta. Só que este motivo revela-se pífio, já que o tempo passa e não é bem isso que importa. Após outras situações de deslocamento social e sentimental do rapaz (a tentativa frustrada de ter uma namorada de volta, por exemplo), a avó é cremada. Ela deixou instruções e dinheiro para a cremação. O que ele e mais duas personagens à deriva vão fazer com as cinzas não é algo exatamente original no cinema. Pelo menos dois filmes já fizeram uso das cinzas de maneira, digamos, pouco ortodoxas, como o horror Tiny Cinema (Tyler Cornack, 2022) e um mais antigo, Uma estrada muito doida (John Schlesinger, 1981).

No filme de Carlos Segundo, gêneros e expectativas são embaralhados em uma narrativa que encontra humor onde menos se espera.
Mas Leite em pó não é um filme de gênero. Ele dá um nó nos gêneros surpreendendo o espectador em cada curva do enredo. E isso não é pouca coisa, considerando que os filmes vistos até aqui nesta edição do festival, incluindo os curtas nacionais e os longas gaúchos, pecam pela previsibilidade. Apontam para aonde vão, e de fato vão.
Leite em pó é lacunar, propõe situações inusitadas, que, em função da assumida liberdade narrativa, não soam gratuitas. O roteiro vai ganhando a atenção em cada cena, culminando com um desfecho igualmente surpreendente.
É o primeiro longa do paulista Carlos Segundo. Dirigiu, entre outros, Sideral, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 2021. Em paralelo, é professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi em Natal que Leite em pó foi rodado, trazendo um componente que fica apenas como vestígio no filme, que foi a ocupação norte americana na cidade durante a Segunda Guerra Mundial. A base dos EUA lá deixou marcas no imaginário local, que servem como pano de fundo para a história de Leite em pó. Mas de fato é apenas um vestígio. Um elemento importante, ainda não citado aqui, é o diário que a avó escreveu durante décadas, dando conta de sua insatisfação com o casamento, com a vida. O neto vai lendo o diário e compreendo a avó, sua decisão de suicidar-se e ao mesmo tempo as anotações da avó vão dando liga ao filme.

Em “Leite em Pó”, Vinícius de Oliveira retoma a força expressiva de um cinema baseado nas imagens e encontra no silêncio a densidade do personagem.
Por último, é preciso destacar a performance do eterno Josué de Central do Brasil, Vinícius de Oliveira. Walter Salles nos legou um filme já clássico e um ator que introjetou este cinema feito com o poder das imagens. Suas expressões, que à primeira vista parecem “cara de paisagem”, na verdade dão densidade aos conflitos interiores dos personagens que interpreta. Em Leite em pó, é talhado para o papel.
O projeto do filme foi realizado com a parceria com a Vitrine Filmes e com uma coprodução francesa (Les Valseurs e Cinefilm). É a garantia de que não ficará mofando em alguma prateleira e ganhará o circuito que merece. Sem megalomanias, irá encontrar seu público.















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