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Festivais

49º Brasília (2016) – noite 4

Encontros e desencontros em Minas Gerais.

Por Luiz Joaquim | 24.09.2016 (sábado)

BRASÍLIA (DF) – E na terceira noite competitiva (ontem, 23/09) deste 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, aspectos de sua curadoria vão ganhando contornos curiosos pela perspectiva temática.

Se na noite 2 e noite 3 as ilações dos longas em competição foram amarradas pela ideia da luta e resistência em função da posse da terra, na noite 4 o programa 1 da competitiva – que incluiu o curta-metragem Solon, da mineira Clarissa Campolina, seguido pelo longa cearense O último trago, de coletivo Alumbramento, assinado aqui por Luiz e Ricardo Pretti mais Pedro Diógenes – apresenta-se também com ao menos um ponto de contato com o documentário Martírio, de Vicente Carelli, que é a luta de uma figura indígena pelo o que é seu de direito.

O último trago – também sobre a urgência de uma resistência – passa-se num lugar remoto, onde, num bar, sua funcionária Marlene (Mariana Nunes) tem uma conexão com uma índia (Samya de Lavor) cuja cultura foi massacrada e que busca por justiça. A redenção acontece, com a reação do espírito, mostrada dentro de uma muito particular composição estética criada para dar conta desse universo fabuloso.

A direção de fotografia de Ivo Lopes Araújo utiliza três formatos de composição – scope, 1,85:1, 1,37:1 – para a partir deles criar seu próprio tom, ritmo e atmosfera. Entre estas atmosferas os planos em scope dão às sequências no bar, com uma acuidade especial para as sombras e silhuetas, a leve sugestão à ideia do gênero western.

O programa com os dois filmes criou um situação belíssima de comunhão entre as duas obras, uma vez que o atordoante e lindo Solon – sobre o surgimento da vida, no caso gerando a mulher e que por sua vez dá origem à água no mundo – encerra com imagens de uma margem banhadas por água, enquanto que o filme da sequência, O último trago, abre com a imagem de uma praia, do qual um homem surge de sua profundeza.

debate

Na foto de Júnior Aragão (divulgação), debate sobre “O último trago” e “Solon”, com, da esquerda para a direita: Pedro Diógenes, Luiz e Ricardo Pretti, Luiz Joaquim, Clarissa Campolina, Tana Guimarães e Carol Louise

O programa 2 de ontem (23) à noite também apresentou pontos de interseção entre o curta Constelação, de Maurílio Martins, e o longa A cidade onde envelheço, de Marília Rocha.

Ambas produções mineiras, tratam de relações de personagens estrangeiros em Minas Gerais e suas implicações de estarem neste lugar deslocado de suas origens. Enquanto em Constelação um homem (Renato Novaes Oliveira) dá carona para uma dinamarquesa (Stine Krog-Pedersen) que não fala português. No trajeto eles compartilham traumas sobre perdas e esquecimentos.

Em A cidade onde envelheço, primeiro longa de ficção dirigido por Marília Rocha (e também fotografado por Ivo Lopes Araújo, ausente no Festival), acompanhamos o cotidiano de duas amigas portuguesas. Uma é Francisca (Elizabete Francisca), que reside em Belo Horizonte e recebe de Lisboa como hóspede por tempo indeterminado sua amiga de infância Teresa (Francisca Manuel).

Enquanto a primeira já entende BH por um viés racional, carregando consigo uma melancolia pela saudade de Portugal, a segunda é solar e frenética, vivendo uma excitação constante (e divertida e engraçada pela performance de Francisca Manuel) ao se encontrar naquele novo mundo.

É bonito como a fluidez entre as duas atrizes acontece no belo roteiro escrito a três mãos (Marília, Thais Fujinaga e João Dumans), e com este filme fotografado por uma leveza que atua de maneira coadjuvante na construção desse espírito livre das protagonistas.

*Viagem a convite do Festival

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