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Críticas

História de Um Casamento

Do amor ao vilipêndio ao amor

Por Luiz Joaquim | 02.01.2020 (quinta-feira)

Online no Brasil desde 6 de dezembro de 2019 pela Netflix, História de um casamento (Marriage Story, EUA, 2019), de Noah Baumbach, anda dividindo a crítica cinematográfica. Alguns comentários concentram forças condenando como são abordados aspectos de gênero e de classe social nesta história de um casal branco de artistas de classe média alta que se divide entre uma Nova Iorque e uma Los Angeles contemporânea. O enredo traça, do início ao fim, um doloroso e impiedoso processo de divórcio.

Ele, Charlie (Adam Driver, comovente), é um diretor de teatro em ascensão com sua primeira experiência na Broadway em andamento. Ela, Nicole (Scarlett Johansson, ótima), uma promissora atriz durante sua juventude, em Los Angeles, que se tornou uma estrela respeitada nas peças dirigidas pelo marido, quando já residiam em Nova Iorque. Como fruto do casal há Henry (Azhy Robertson, impressionante), uma criança de 8 anos cuja custódia é, logicamente, o que impulsiona todo gasto de energia emocional e física, além de uma montanha de despesas durante o litígio.

Antes de qualquer condenação, seja pelo aspecto que for, contra História de um casamento nos parece razoável pontuar que há aqui uma belíssima construção de narrativa cinematográfica, de dramatúrgia, de encenação e atuação. A começar pelo começo.

Baumbach, diretor irregular, mas reconhecido pela proficiência de seus roteiros e pela dinâmica na direção de atores, inicia o filme com a perspectiva um do outro (de Charlie e Nicole) escritas num papel a pedido do terapeuta que o casal frequenta. Os textos “O que eu gosto em (Charlie/Nicole)…” abre História de um casamento e rascunham, para nós, um casal emocionalmente harmonioso, sob a montagem ágil de imagens felizes ilustrando o que é dito.

Essa falsa dica é tão interessante como abertura para o filme que também é usada como teaser da produção sugerindo aqui um doce filme romântico. E ele é. Mas o sabor é o oposto do doce.

 

Pela narrativa, o mais dolorosamente atraente nesta crônica é a maneira como os tijolos de vilipêndio, colocados um acima do outro, vão lentamente montando uma parede gigante de desrespeito e situações constrangedoras e distorcidas sobre a relação do casal na medida em que vão se transformando em ex-casal. Tudo sob a mediação amedrontadora dos respectivos advogados das partes.

Nesse sentido, tal narrativa de História de um casamento encontra parentes nobres no cinema a partir dessa apresentação do tipo antes e depois do casal, como o mitológico Cenas de um casamento (1973, de Bergman) – e derivados como Infiel (2000, de Liv Ullmann) -, passando pelo jovial (500) dias com ela (2009, de Marc Webb), e chegando atá Kramer vs Kramer (1979, de Robert Benton), que levou os Oscars de melhor filme, direção, ator (Dustin Hoffman), atriz (Meryl Streep) e roteiro adaptado.

Uma curiosidade: História de um casamento está indicado ao Globo de Ouro (cerimônia de premiação acontece neste domingo, 5) por quatro categorias iguais a de Kramer vs Kramer (filme, atriz, ator, roteiro adaptado) e mais duas: atriz coadjuvante (Laura Dern) e trilha sonora.

Para além da beleza de sua narrativa, História de um casamento resolvesse nela (na narrativa) para alcançar e sugerir sentimentos nobres aos seus espectadores (mas só após cruzar por um furacão de bad vibes). No caso, apesar de um razoável equilíbrio para a perspectiva de Charlie e Nicole sobre as discordâncias do casal (ela está sufocada pelo sucesso dele, e sente-se reprimida para atingir seu potencial artístico ), Baumbach concentra maior foco sobre Charlie.

Indo por esse caminho, é sob Charlie que reside os mais tocantes momentos do filme. Num primeiro, no ápice do conflito, há um discurso de ódio supremo. Ele transborda de Charlie contra ela num embate de insultos irracional. Num segundo, já na calmaria, Charlie tem acesso a uma declaração de amor de Nicole para ele. As palavras são ouvidas por ele na leitura trôpega do pequeno Henry.

É um momento chave. Como um segredo (e sendo segredo são normalmente sinceros e por isso valiosos) sendo revelado, mas tarde demais.

Há aqui uma simbiose entre pai e filho como Hollywood não compunha desde, talvez, À procura da felicidade (2006, de Grabiele Muccino) – importante registrar também uma produção independente e devastadora sobre o mesmo tema, pai e filho: O fim do amor (2012, de Mark Webber).

Voltando a História de um casamento, uma fala de Nicole destaca o que há de terrível num processo negativo contra alguém que você terá de viver conectado (por um filho) pelo resto da vida.

Baumbach traduz isso visualmente numa composição simples e eficaz (coisa de gente talentosa) quando Charlie está levando Henry para passar o dia com ele, mas o menino não larga o braço da mãe. É um inquebrável elo humano.

Esse mesmo laço, noutro contexto mais suave, é mostrado com Henry dormindo nos braços de Charlie e Nicole se despedindo dos dois num abraço, com o menino entre o ex-casal. O mote serve para o desfecho, também composto sem diálogos, e que cinematograficamente resolve uma verdade única: ex-marido e ex-esposa ajudando um ao outro significa ajudar o filho.

É cinema o que Baumbach faz.

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