
59ª Brasília (2026) Oficina Crítica, 12.set.
Memória e ancestralidade abrem o 59° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Por Luiz Joaquim | 13.09.2026 (domingo)
– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
ANA, EN PASSANT
por Robertta Rangel
Ana, en passant, longa de estreia da realizadora mineira Fernanda Salgado, abre a mostra competitiva de longas do 59⁰ Festival de Brasília do Cinema Brasileiro numa bela sessão conectada por memória e ancestralidade.
Um diálogo delicado entre uma menina e uma mulher abre o filme. Elas conversam sobre o que são mapas e as formas que um mapa pode assumir. A conversa, arrematada pela promessa de uma busca incondicional, antecipa a narrativa na qual entraremos a seguir: a viagem de Ana, uma jovem que deixa Paris após a morte da avó, rumo ao Brasil, tendo em mãos uma carta e chaves de um apartamento, deixados pela avó.
Com direção de animação de Camila Kater (diretora de Carne, premiada animação que entrou na shortlist do Oscar em 2021), o longa trabalha com um interessante cruzamento de linguagens visuais. Enquanto as personagens mantêm uma constância gráfica identitária, o mundo de passagem de Ana oscila entre o traço animado e matéria real.
Ana, mulher negra, quer entender quem ela é num mundo que raramente acolhe seu corpo e suas memórias. Desenhos, texturas e fotos compõe o universo mineiro que descobrimos com ela, com paredes feitas de envelopes, cartas escritas à mão e selos postais. Um universo que, por vezes, se rasga e revela as estrias e a textura crua de uma caixa de papelão sob a imagem, e, por vezes, nos apresenta fotografias documentais reais revelando o lastro biográfico sobre a fabulação, como na visita ao quintal da bisavó, momento mais bonito dessa busca.
É um belo filme sobre quando se pensa estar de passagem, mas as forças da ancestralidade nos fazem ficar e criar raízes.
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ANA, EN PASSANT
Manhãs, caminhos e encruzilhadas
Por João Luiz dos Santos
Leia esse texto com um sentimento muito específico: aquele de ser acordado numa manhã fresca, por uma voz suave, de temperatura certa, como ser abraçado pelo cobertor perfeito perto da hora de acordar. Uma voz maternal com um convite para conhecer o dia e saborear a presença e os mapas que ela cria.
Não à toa, Ana, an passant é uma homenagem de uma mãe para uma filha e conta a história de Ana, uma mulher negra solitária que cresceu na França e, após a morte da avó, recebe pistas que abrem os seus caminhos para Belo Horizonte e para o passado de uma família que ela nunca conheceu, mas sempre esteve ali.
A trilha estética que conduz o longa-metragem se sustenta na animação, uma mistura de rotoscopia com colagem que mantém quem assiste constantemente atento visualmente, imerso em um realismo mágico que acalanta e mantém o ritmo da narrativa. Os rasgos e amassados da colagem escolhidos para dar cenário ao filme entendem seu papel como um fio condutor dentro de um conjunto, e não como uma ferramenta independente.
Ana recebe da Avó a oportunidade de conhecer Alice, uma mulher negra e gestante, que passa pelo processo de entender a própria pele e a nova identidade que a maternidade propõe. Cada uma ao seu modo e tendo Belo Horizonte como catalisador, buscam formas de criar identidade e pertencimento, investigando nas encruzilhadas de uma cidade em movimento, o que se esconde debaixo da terra e dentro de si.
O filme tem dentro da sua estrutura narrativa um vício de linguagem que distancia o espectador desatento, a maioria dos acontecimentos são explicados de forma expositiva antes que aconteçam: antes do rio, se fala do rio. Algo que, no conjunto da obra, não causa grande inquietação, pois ao ver o dito rio, o espectador é conduzido a um mundo fantástico onde tudo é possível.
Ana, an passant deixa o público com a memória de um sentimento distante, de uma voz calorosa, ou um colo que convida ao dia quando ainda estamos descobrindo o mundo. As lembranças vagas das pessoas que ficaram para trás, mas deixaram mapas com os quais caminhamos o curso de uma vida em constante construção. Mapas e caminhos que um dia foram tão familiares, mas inevitavelmente se tornam rios sob terra, prontos para nutrir os jardins que compõem nossa jornada.















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