
59º Brasília (2026) – A Pele Morta
O Festival abriu com recados sobre o momento delicado de nossa democracia e com um belo road-movie
Por Luiz Joaquim | 12.09.2026 (sábado)
– na foto acima, de Michelle Rolim, a equipe de A Pele Morta apresenta o filme no palco do Cine Brasília
BRASILIA (DF) – Ontem (11), noite de abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A sua 59º edição. Aquela que quase entra para a história por não acontecer, interrompendo um ciclo iniciado em 1965 e que só teve dois anos silenciados, no início dos 1970, por conta dos militares.
Para a alegria (e importância) da cultura brasileira, o Festival iniciou ontem como uma vitória política após muitas articulações internas. Algo que ficou claro na apresentação dos homenageados pela Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV). Em discurso inflamado, a representante da ABCV esquentou o ânimo da lotada plateia do Cine Brasília. Recado que foi reforçado pela Secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, em seu discurso representada a ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Plateia na noite de abertura do Festival, foto Michelle Rolim
Igualmente homenageada, com o troféu Candango Conjunto da Obra, a atriz Julia Lemmertz brilhou e emocionou falando do seu amor pelos profissionais de cinema, da alegria de estar em um set de filmagem, da nossa pequenez e da importância dos nossos sonhos. Encerrou declamando ninguém menos que Shakespeare, por uma fala do Próspero, na peça A tempestade, a qual reproduzimos aqui porque vale a pena.
“As torres, cujos topos deixam-se cobrir pelas nuvens, e os palácios, maravilhosos, e os templos, solenes, e o próprio Globo, grandioso, e também todos os que nele aqui estão e todos os que o receberem por herança se esvanecerão, nada deixará para trás um sinal, um vestígio. Nós somos esta matéria de que se fabricam os sonhos, e nossas vidas pequenas têm por acabamento o sono”.
A PELE MORTA – Road movies guardam em si um encanto próprio. O espectador, assim como o motorista que se arrisca pela estrada, também se arrisca com o inesperado, o porvir que a estrada (o filme) está para nos apresentar. A pele morta, longa-metragem de abertura do Festival, cumpre bem essa premissa.
Roteirizado por Daniel Tavares a partir de um projeto de Geraldo Moraes (1939-2017) e dirigido pelos filhos do cineasta – Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres – A pele morta nos coloca na boleia do velho caminhão do uruguaio Justo (César Troncoso, sempre marcante).
Tendo o Paraguai como destino, saindo do Mato Grosso do Sul, Justo convida o jovem Saulo (Luan Iturve), de origem guarani-kaiowá, a acompanhá-lo na aventura da viagem em busca de trabalho. Ainda sob convulsão interna, em luto pelo irmão assassinado, Saulo costuma extravasar sua dor compondo e cantando rap, porém, nem isso o acalanta mais; até que decide aceitar o convite de Justo.
Entre encontros e desencontros pelo caminho, os dois dão carona para uma solitária menor de idade que caminha na beira da estrada. A adolescente Rosário (Ivana Gomez) quer chegar na Filadélfia, município no Chaco paraguaio, para encontrar a irmã mais velha.
É aqui que A pele morta enrijece sua musculatura dramática. A chegada e presença marcante de Rosário, igualmente sofrida, tal qual Justo e Saulo – mas impregnada pela habitual esperança juvenil – surge como um ponto de equilíbrio entre aqueles dois homens. Justo, maduro e calejado pela vida, e o jovem Saulo, soturno, carregando nas costas anos ancestrais de sofrimento infligido ao seu povo.
A beleza suave e o talento da atriz Ivana Gomez são de uma força tão intensa entre aqueles dois homens (e impressa na tela) que seu personagem não precisa de muitos diálogos para provocar um efeito catalisador entre os dois. Seja para o atrito, seja para a reconciliação.

Rosário (Gomez) entre Saulo (Iturve) e Justo (Troncoso)
Uma linda cena sintetiza isso, com Justo e Saulo sentados num banco de jardim, silenciosos e amuados. Cada um numa ponta, com o primeiro o machucado por um prévio entrevero com o segundo. Leve, Rosário entra no quadro, aloja-se entre os dois trazendo um picolé para cada um deles. Simples assim, sem diálogos, a cortina de ferro entre os dois é aberta e o sorriso aparece.
A pele morta é, portanto, um filme de encontros e desencontros, com as suas tristezas e alegrias, dando seu recado sobre a resistência indígena, mas pelo sussurro cinematográfico, sem gritar militâncias; evidenciando que o nosso passado sempre estará conosco. Como o chocalho de uma cobra venenosa, que a acompanha como resquício de sua pele morta. Nós também temos nossa pele morta e o que importa é o que iremos fazer com ela.
* viagem a convite do festival.
















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