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Festivais

54ª Gramado (2026) – Nosso Segredo

O ciclone Grace Passô

Por Ivonete Pinto | 21.08.2026 (sexta-feira)

O último filme em competição na categoria ficção do festival passou como um ciclone. Mesmo quem fez reservas, considerando que havia simbologias em excesso, não ficou alheio e reconhece a robustez da proposta. O mineiro Nosso segredo, primeiro longa de Grace Passô, de fato é pleno de símbolos, metáforas e sugestões, que estão longe das obviedades recorrentes em boa parte dos roteiros brasileiros. Mas é o espectador quem deve criar os significados de acordo com seu repertório, outorgando a si mesmo a liberdade para interpretar, tirar suas próprias conclusões. Na verdade, como acontece com a experiência de assistir qualquer filme, estabelece-se um contrato tácito, onde o espectador pode entrar na proposta conceitual em questão, ou não. Se o público aderir, vai sendo encaminhado sem pressa ao núcleo dramático de Nosso segredo, através de uma família negra que perdeu um pai, que era branco. O filho mais velho, motorista de uber (Robert Frank), é o esteio de todos. Há um filho rebelde, uma filha sensível e um menino de seis anos, Tutu, interpretado por Efraim Santos, que parece ser o que mais sofre, o que menos entende a partida do pai e também o que guarda um segredo. Nada, ou muito pouco, é dito claramente e tudo é embalado por ruídos que vão dando corpo ao casarão em que a família vive. Lâmpadas queimam, barulhos estranhos surgem do nada, paredes racham. Um tom de mistério fantasmagórico predomina no ambiente. Na primeira cena, há uma longa conversa entre o motorista do uber e um passageiro, um idoso negro que solta umas frases enigmáticas.

Entre o sonho, o trauma e o sobrenatural, Nosso segredo constrói uma experiência sensorial em que corpos, ruídos e imagens sugerem mais do que explicam.

Por mais que pensemos em retrospectiva nesta cena, ela continua sendo aleatória. Para a roteirista e diretora Grace Passô, não deve ser. Como se trata daquele tipo de filme que continua convivendo com o espectador para além da projeção, certos sentidos podem ir surgindo mais tarde, sem problema. Ao fim e ao cabo, não incomoda que não alcancemos significados ou “mensagens”. Pouco importa se a lama que jorra escada abaixo dentro de casa é uma alusão à tragédia de Mariana, ou não. Nem se os ruídos e o tremular das paredes e do teto vêm de um monstro que vai se materializar, ou não.

Há uma concepção de origem teatral que emerge no filme em função da história se passar quase 100% dentro do espaço claustrofóbico da casa. A casa é personagem. Grace Passô trouxe o roteiro de uma peça que ela própria dirigiu. Que o leitor não julgue apressadamente: trata-se aqui de cinema, com um trabalho de decupagem e câmera muitíssimo elaborado (Wilssa Esser), bem como uma montagem que garante ritmo também narrativo (Eva Randolph). A articulação da linguagem teatro-cinema é um ponto forte.

Os atores, graças à sensibilidade e expertise de Grace Passô, uma das mais importantes atrizes da atualidade, estão soberbos. Incluindo o menino caçula, responsável por representar uma espécie de chave para compreendermos – ou tentarmos compreender – o que acontece com aquela família em luto. Ele segura longos planos, muitos em close, em alta performance. Sem caras e bocas, só com o olhar. Para quem teve a sorte de ver o média-metragem dirigido por Passô, Vaga Carne (2019, ver crítica aqui) e do curta República (2020), sabe que esta mineira não facilita a vida do espectador, não entrega nada de bandeja. Move-se em enigmas, contando sobretudo com uma trilha de som com música e ruídos que narram, sem se sobreporem às imagens.

Silêncios, olhares e ruídos conduzem o drama de Nosso segredo, um filme que transforma o luto em matéria sensorial.

Em Nosso segredo, a trilha original é assinada por Amaro Freitas e o design de som e mixagem de Tiago Bello. O destaque para essa área técnica do filme é justificada porque todos os estudantes de cinema, mas não só eles, deveriam prestar atenção. Uma trilha, foley incluído, avessa aos excessos habituais do cinema atual. O projeto deste filme foi gestado por muito tempo, sendo aos poucos amparado, o que resultou a uma construção sólida, artística e de estrutura de produção e distribuição.

Ainda em 2020, ganhou o Prêmio da Vitrine Filmes em seu programa de novos clássicos. Também conquistou o Prêmio de Desenvolvimento da Globo Filmes e Grace participou de um laboratório de residência em Toulouse. Chegou ao Festival de Berlim em 2026. Para uma mulher negra estreante em longa, é um feito e tanto.

Nada disto aconteceu por acaso. Conjugando o trabalho no teatro e no cinema, a atriz e diretora é incansável. Por muitos anos Grace Passô foi a cara da produtora mineira de Contagem, Filmes de Plástico, tendo protagonizado produções como Temporada (André Novais Oliveira, 2018). O cinema brasileiro já tem a marca de Passô.

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