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Festivais

54ª Gramado (2026) – La Perra e Premiados

A maternidade como ponto de vista

Por Ivonete Pinto | 23.08.2026 (domingo)

Essa edição de Gramado, além de hipopótamo e rinoceronte, contou com um cachorro como personagem. Foi uma edição, aliás, de extremos quanto aos longas fora de competição.  Se a abertura com Antártida fez o elogio do cinema desinventivo,  representado pela rede Globo na concepção e na produção, o encerramento foi em direção contrária. La perra, filme chileno produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (RT Features) , é uma ode ao não dito, aos silêncios, ao enredo mínimo, a um cinema de atmosfera. 

Baseado na novela da colombiana Pilar Quintana, descoberto por Teixeira durante a pandemia, foi apresentado à diretora Dominga Sotomayor e após anos de tratativas, foi adaptado e rodado no Sul do Chile, na ilha de Santa Maria.

Segundo o produtor em coletiva no dia seguinte à exibição no festival, 70% filme é brasileiro e 30% chileno, mas está registrado como chileno em função da língua, entre outros motivos. O Chile tem produzido uma cinematografia de crescente interesse em festivais e principalmente desde que ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro com Uma mulher fantástica (Sebastián Lelio, 2018).

La perra estreou  em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, onde conquistou a Palma de Ouro para a cachorra Yuri (sic).Mas um trunfo para gerar interesse no Brasil, talvez seja a participação de Selton Mello no elenco.

Silvia (Manuela Oyarzún) encontra na cadela uma espécie de filha substituta; a relação entre as duas atravessa o desejo de maternidade e a impossibilidade de realizá-lo.

Desafio mercadológico – Embora seja um filme instigante, de qualidades artísticas inegáveis, não será fácil ser vendido por aqui. Há um animal pet que sofre, diálogos rarefeitos, enredo mínimo e tempo estendido. Elementos que podem ser desmontados, já que os cães foram bem tratados (havia um dublê para cada idade do personagem animal), os poucos diálogos são na medida para contar a história e os 120 minutos até passam rápido.  A reclamação do tempo, é preciso dar um desconto, se dá pelo cansaço que acomete público e crítica no encerramento de um festival que dura mais de uma semana. 

Portanto, em condições normais, La perra pode funcionar ainda melhor e o espectador pode se deleitar com a performance da cachorra. Mas não espere o leitor encontrar, por causa do título, um petzinho fofo. Yuri, que aparece nos créditos iniciais logo em seguida da atriz principal, pode ser  mau-caráter, ou algo assim. Foge da dona (ops, tutora) que a acolheu e volta grávida. Da segunda vez que foge, abandona os filhotes para viver livre leve e solta. Não há culpa da parte dela, é só uma questão de ponto de vista.  O título em português será A cadela, e em inglês recebeu o título de bitch, ambas escolhas carregando uma ambivalência sobre a personalidade do animal.  Cachorros rendem. Há vários filmes que trazem a palavras em torno deste animal, como o argentino El perro, muito mais sobre seu dono (ops, tutor), do que sobre o bicho.

Em La perra, o que temos é um drama que trata da maternidade. Silvia (Manuela Oyarzún) é casada, já tem uma certa idade e não consegue engravidar. Apaixona-se pela perra, dá-lhe o nome que daria a uma filha, muito carinho, mas esta, ingrata, foge. Quando a perra foge pela segunda vez, deixa os filhotes com Sílvia e o marido – este mais ausente que presente. 

Sem emitir pensamentos, percebemos toda uma carga de consciência na mulher, que compara a liberdade da cachorra com a dela,  vivendo literalmente encerrada em uma ilha. Catadora de algas em um mar bravio, suas condições são paupérrimas, especialmente comparadas com a família do personagem de Selton Mello. Eles têm uma casa – a única casa boa do lugar -, chegam de avião e têm dois filhos. 

A participação de Selton Mello pode ser um dos trunfos de La perra para despertar interesse no público brasileiro.

O que acontece com um dos filhos vem a ser uma virada do roteiro (Inés Bortagaray)  e não é o caso de falar a respeito aqui. Porém o contexto serve para mostrar que a vida de Silvia tem suas limitações. 

Já a cachorra ganha sequências que dão a dimensão da felicidade. Difícil escrever sobre o que a cachorra sente, mesmo que tenhamos closes em seu rosto. A alegria ao correr na praia, o olhar para o céu cheio de gaivotas, livres como ela, ilustram esse estado de espírito.

Por isso, a relação das duas vai se estabelecer em outros parâmetros e vamos compreender as atitudes da protagonista. 

A atriz Manuela Oyarzún, vinda do teatro, é um achado para o papel. Seu rosto passa a dureza, a melancolia e a frustração daquela vida em que mesmo no verão,  o vento e o frio não dão trégua.

A direção de fotografia, a cargo do italiano Simone D’arcangelo (que já trabalhou com Vittorio Storaro), preenche esses estados de espírito e dá dramaticidade e expressividade aos enormes rochedos da ilha. 

Embora o minimalismo da proposta, os poucos acontecimentos são recheados de elementos que fazem pensar. Para alguns temos respostas, para outros não. O que faz o sentido  do cinema de arte, ou, em outras palavras, de mercado segmentado.

A cadela Yuri, premiada em Cannes, ocupa um lugar central no filme; sua liberdade serve como contraponto à vida de Silvia, confinada às limitações da ilha.

O certo é que o espectador terá diante de si, um legítimo exemplar de cinema periférico e transnacional. Além de Chile, Brasil e Colômbia e Itália, há profissionais de outros países envolvidos, como Uruguai e Estados Unidos. Este último está na trilha sonora original de Clint Mansell, que assinou também a trilha de Réquiem para sonho,de Darren Aranofsky (2000).

E ainda sobre trilha, cabe o registro para os nostálgicos. Marcando a época em que se passa a história, a música tema escolhida por Dominga Sotomayor é cantada por José Augusto, legítimo romântico-brega que foi tema dea novela Barriga de aluguel, sucesso no Chile anos atrás. Um elemento cultural popular que rompe fronteiras. Enquanto consumimos vinho chileno, eles consomem  “Aguenta Coração”. Ninguém é perfeito.


 

PREMIAÇÃO – Encerrada mais uma edição do Festival de Cinema de Gramado, chega a hora de conhecer os filmes e artistas que receberam os principais prêmios desta edição. Confira, abaixo, a lista completa dos vencedores:

PREMIADOS DA MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: Nosso Segredo

Melhor Direção: Allan Deberton, por Feito Pipa

Melhor Ator: José Loreto, por Chorão: Só os Loucos Sabem, e Christian Malheiros, por Justino: Nos Bastidores do Reino

Melhor Atriz: Teca Pereira, por Feito Pipa

Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel, por Leite em Pó

Melhor Fotografia: Wilssa Esser, por Nosso Segredo

Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte, por Justino: Nos Bastidores do Reino

Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes, por Chorão: Só os Loucos Sabem

Melhor Direção de Arte: Lucas Osório, por Nosso Segredo

Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa, por Pele de Rinoceronte

Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos, por Feito Pipa

Melhor Desenho de Som: Waldir Xavier, por Leite em Pó

Prêmio Especial do Júri: Yuri Gomes e Onna Silva

Júri da Crítica: Leite em Pó

Júri Popular: Feito Pipa

PREMIADOS DA MOSTRA COMPETITIVA SEDAC/IECINE DE LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS

Melhor Longa-metragem Gaúcho: Filhas da Lua, de Tatiana Sager

Melhor Montagem: Gabriel Sager Rodrigues, por Filhas da Lua

Melhor Direção: Hique Montanari, por A História Mais Triste do Mundo

Melhor Roteiro: Hique Montanari, por A História Mais Triste do Mundo

Melhor Ator: Arthur Seidel, por A História Mais Triste do Mundo

Melhor Trilha Musical: João Vitor Costa Dias, por A História Mais Triste do Mundo

Melhor Desenho de Som: Gabriela Bervian, por A História Mais Triste do Mundo

Melhor Fotografia: Juarez Pavelak, por A História Mais Triste do Mundo

Melhor Atriz: Áurea Baptista, por Remanente – Voltagem

Melhor Direção de Arte: Tiago Retamal, por Remanente – Voltagem

Júri Popular: Filhas da Lua, de Tatiana Sager

PREMIADOS DA MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Melhor Filme: 씨발 (Shibal)

Melhor Direção: Wesley Gabriel Silva Santos, por Pão Doce

Melhor Ator: Francisco Gaspar, por Pão Doce

Melhor Atriz: Chris Couto, por Um Passeio

Melhor Roteiro: Camila Tarifa, por Mulher Papaya

Melhor Fotografia: Felipe Ovelha, por Pique-Pega

Melhor Montagem: Gilson Costa e Thamires Coelho, por Divino: sua alma, sua lente

Melhor Trilha Musical: Ângelo de Souza, por Graxa e o Zepelin

Melhor Direção de Arte: Jackson Abacatu, por A menina que queria ser pedra

Melhor Desenho de Som: Marcos Lopes, por Fúrias

Melhor Filme pelo Júri da Crítica: Mulher Papaya, de Camila Tarifa

Prêmio Especial do Júri: Revelação, de Gabriela I. Gaia

Prêmio Canal Brasil de Curtas: Revelação, de Gabriela I. Gaia

Júri Popular: Divino: sua alma, sua lente, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú