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Festivais

50ª Mostra de SP (2026) – O Filho da Puta

Animação recria Glauber Rocha com inventividade

Por Ivonete Pinto | 23.10.2026 (sexta-feira)

O resultado da associação das produtoras Otto Desenhos Animados e a Anaya Produções só poderia ser feliz. Os gaúchos Otto Guerra e Erica Maradona uniram-se aos mineiros Tania Anaya e Sávio Leite na direção provocando interesse desde o anúncio. Afinal, O filho da puta não é um título usual, mesmo que não surpreenda por vir de Otto Guerra, conhecido por seu humor para lá de escrachado.

A decana produtora da animação brasileira (e gaúcha, pois nunca deixou o Rio Grande do Sul), imprimiu uma marca em seus filmes onde, além do humor, sobressai-se algo meio precário, meio tosco. Com Tania Anaya, Otto Guerra agregou qualidade no roteiro e na própria técnica da animação, além de um certo lirismo.  Anaya dirigiu o belo curta-metragem Castelos de vento (1998), presente na coletânea 100 Melhores Animações Brasileiras da Abraccine, e tem um currículo invejável na animação. 

O título da produção atual não chega a ser uma novidade no cinema. Quem buscar por putas na internet vai encontrar ao menos O filho da prostituta (Francisco Cavalcanti, 1981), depois nomeado de Aberrações de uma prostituta, talvez em função da censura na época da ditadura militar. Tratava-se de um drama. E erra quem pensa que O filho da puta possa ter alguma alusão ao clássico francês de Jean Eustache, A mamãe e a puta (1973). A puta brasileira é bem brasileira.  O personagem central é Ismael,  filho de uma trabalhadora do sexo vivendo nos cafundós do semiárido mineiro, e tem o apelido repetido durante todo o filme. Sempre apelando ao sentido ambíguo e jocoso. 

Entre Moby Dick, Graciliano Ramos e Odair José, “O Filho da Puta” transforma o sertão mineiro em cenário de uma jornada delirante, politicamente incorreta e repleta de referências à cultura brasileira.

Ismael  é um cara legal, talentoso porque sabe consertar todo tipo de equipamento, embora os tostões que recebe não lhe garantem autonomia para deixar a casa da mãe, um bordel chamado  Casa Rosa. O conflito – ou a jornada que o herói precisa trilhar –, é descobrir quem é seu pai e finalmente ir atrás dele. O nome do pai que o abandonou está na dedicatória de Moby Dick, de Herman Melville (1851). Para quem se lembra, a história do capitão Ahab é contada pelo marinheiro Ismael. O livro terá mais desdobramentos durante a jornada, com Ismael adquirindo conhecimento através de outra história, desta vez bíblica, de Jonas e a Baleia. 

O roteiro de Carla Guimarães é construído com pequenos episódios mais ou menos independentes. São sketches, como a estrutura do impagável e politicamente incorreto Rocky e Hudson – os cowboys gays (Otto Guerra, 1994). 

O humor das situações em O filho da puta  é assegurado com o personagem do cachorro sem uma das patas, Bacalhau, cuja voz é de Matheus Nachtergaele. Sempre pronto a dizer alguma gracinha e assim equilibrar com o jeito meio looser e melancólico do seu dono, Ismael (dublado por Gabriel Martins, o mesmo diretor de Vicentina Pede Desculpas, presente na Mostra). A mãe de Ismael,  dublada por  Zora Santos, por sua vez garante o tom bagaceiro dos palavrões. Tudo muito consistente, afinal, a mulher é dona de um bordel.

Estamos no sertão, e o roteiro da baiana Carla Guimarães  cria a melhor sequência, aquela que reproduz uma das cenas do beato Sebastião de  Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). No lugar do beato, uma religiosa muito louca, dublada por Teuda Bara, atriz do grupo mineiro Galpão, falecida ano passado. Uma sequência cheia  de homenagens, inventiva e delirante.Também Graciliano Ramos faz parte do leque  de citações (o nome da cidadezinha de Ismael  é Veredas), convivendo com a música de Odair José. Uma salada que funciona e não deixa ninguém rubro, já que a censura é 14 anos.

A partir de uma estrutura episódica, “O Filho da Puta” aproxima o humor politicamente incorreto de Otto Guerra de um universo sertanejo povoado por referências literárias, bíblicas e musicais.

O filho da puta, noves fora o entretenimento desopilante, representa mais um esforço, hercúleo, de produzir uma animação no Brasil. Mesmo com os traços simples do 2D, inspirado no estilo de xilogravuras, sabe-se que é grande o tempo que leva e a quantidade de animadores envolvidos na produção. E a simplicidade não significa pobreza: a direção de arte da paulista Érica Maradona é supimpa. Se pensarmos em uma dobradinha com outro gaúcho na Mostra, London (Victor di Marco e Márcio Picoli), temos dois filmes abordando personagens que sofrem preconceito e estão em busca de suas identidades. Cada um a sua maneira, também falam de sexo.

Com distribuição da gaúcha Lança Filmes,  O filho da puta está rodando por inúmeros festivais, tendo já passado pelo mais importante no segmento da animação, o de  Annecy, na França, e tendo conquistado o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio 2026. Teria feito bonito no Festival de Gramado, onde se inscreveu e não foi selecionado. Prova de que santo de casa, mesmo com referências bíblicas, não faz milagre. 

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