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Quebrando a Cara (1977-1986)

Quatro anos sem Éder Jofre: permanece a memória.

Por Liniane Haag Brum | 02.10.2026 (sexta-feira)

No dia de hoje, 2 de outubro, completaram-se quatro anos da morte de Éder Jofre (1936 – 2022). Em vida, o primeiro campeão mundial brasileiro de boxe foi celebrado nacional e internacionalmente. Quando já estava afastado das lutas, em 2014, a revista The ring lhe concedeu dupla honraria: o título de melhor peso-galo da história do boxe mundial, e a classificação como melhor pugilista dos anos 1960, deixando até mesmo Muhammad Ali para trás. No auge da sua carreira, o craque também se tornou, como se diria hoje, figura midiática. Um belo exemplo é a capa da revista O cruzeiro de 14 de janeiro de 1961, com os “4 campeões mundiais” do momento: a tenista Maria Esther Bueno, Bruno Hermanny, da caça submarina, Pelé e Éder Jofre. Na época, O cruzeiro era o veículo de maior circulação no Brasil.

Desde 1984, a memória pessoal e profissional do pugilista está registrada no filme Quebrando a cara (veja aqui), do cineasta Ugo Giorgetti. O documentário apresenta imagens de arquivo de lutas e entrevistas com Éder Jofre, além do testemunho de figuras fundamentais do boxe brasileiro, como Waldemar Zumbano, tio e mentor do campeão.

Éder começou a treinar sob a preparação do pai, José Aristides Jofre, pugilista emigrado da Argentina para o Brasil, após um início promissor na capital portenha. Kid Jofre, como ficou conhecido em São Paulo, desembarcou em Santos, em 1928. Seu objetivo era se consolidar como lutador e fazer fortuna. Seu irmão, Armando Jofre, era então um prestigiado e bem estabelecido treinador, dono da principal academia de boxe de São Paulo. Diante de dificuldades decorrentes de seu peso – o chamado peso mosca, categoria inexistente no Brasil, – Aristides acabou abrindo mão de lutar e se dedicou à carreira de técnico. Casou-se com Angelina Zumbano, irmã de Waldemar Zumbano, e fundou um verdadeiro clã de pugilistas: os Jofre-Zumbano.

O longa-metragem de estreia de Ugo Giorgetti traça um perfil íntimo e emocional de Éder, sem deixar de lado o percurso esportivo do boxeador. O realizador paulista trabalhou nesse documentário por quase uma década. Em um tempo em que fazer filmes – por exemplo- com um celular, não era algo nem mesmo cogitado pela ficção científica, a película 16 milímetros foi o meio encontrado para viabilizar a produção. O suporte, mais do que uma escolha técnica, foi o que possibilitou a materialização de Quebrando a cara.

O projeto do documentário surgiu enquanto Giorgetti realizava o seu segundo curta-metragem, Rua São Bento 405 (1976). A ideia era abordar um dos grandes nomes do clã de pugilistas, Aristides Jofre, àquela altura uma figura célebre no meio do boxe. Com o seu falecimento, em 1974, o diretor decide entrevistar Éder Jofre. A aproximação entre eles resultou em filmagens de treinos, conversas e material suficiente para uma história de fôlego.

Éder Jofre, da figuração ao protagonismo

A produção do documentário se iniciou em 1977 e foi concluída em 1986. Entre a primeira entrevista, a montagem e a finalização da versão definitiva de Quebrando a cara, um verdadeiro garimpo foi feito pelo diretor, na tentativa de obter imagens de arquivo das lutas de Éder Jofre. Giorgetti conta que precisou esperar anos para ter acesso a determinados acervos, e que ainda foi necessário chamar locutores para dublar as cenas que nunca haviam sido narradas “Tem um cara que eu trouxe, que foi o Flávio Araújo, um especialista em boxe”, revela, em entrevista para a pesquisa sobre sua obra, desenvolvida no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp.

A conquista do 1º cinturão mundial, em 1960, nos EUA. Foto: Gazeta Press

O filme reúne lutas lendárias e registros excepcionais, como a vitória de Éder Jofre sobre o lutador mexicano Eloy Sanchez, que lhe deu o título de campeão mundial, em 1960. O desfecho da sequência registra Aristides e Éder abraçados, às lágrimas, em um derramamento afetivo e público raro entre figuras de arena.

Também é digna de atenção a entrevista de Waldemar Zumbano. Em um artifício narrativo de inversão, o diretor cede a Éder o papel de entrevistador do tio-mentor. Eles conversam em tom confidente e pausado, avaliam momentos marcantes da carreira de Éder Jofre e a ética nos ringues. Waldemar era contrário aos finais por noucaute. Para ele, fazia parte do esporte bater e levar. “O boxe pra mim é um balé”, ele afirma, a certa altura, contrariando o que se espera de um pugilista. Visto desde hoje, o ato de colocar Waldemar Zumbano em cena, lá nos anos 1970, já era um gesto memorialista do cineasta.

Waldemar ou Neno (apelido de família) nunca esteve nos ringues. Ou melhor, quando em combate, o então decano do pugilismo usava a alcunha de Frank Éder, principalmente em consequência do aspecto político de sua trajetória. No início dos anos 1930, sobretudo a partir de 1937, na ditadura de Getúlio Vargas, Waldemar é preso em razão de sua militância no Partido Comunista Brasileiro e, ao sair da cadeia, é forçado a ir para a clandestinidade. O pseudônimo nasce como uma forma de autoproteção. E também como possibilidade de ganhar vida, já que era com esse nome que se apresentava no interior de Minas Gerais, onde desafiava pessoas a lutar com ele. Quem resgata essa história é Fabio Altman, neto de Frank Éder/ Waldemar Zumbano/Neno e autor do livro O príncipe do Boxe.

Altman também relembra, para o Oxigênio Podcast, a anedota sobre o nome de Éder Jofre: “Quando a irmã do meu avô, Angelina, ficou grávida, e deu à luz ao filho dela com o Kid Jofre, (…) nasce o bebê e não sabiam que nome dar. Angelina se vira pra o marido, o Kid, e pergunta: ‘como é mesmo o nome que o Waldemar usa pra fugir da polícia nas lutas de boxe?’ Aí o Kid Jofre lembra que é Frank Éder.  (…) Batiza o filho como Éder Jofre.”

Consagrado por sua ficção e por filmes como Festa (1989), Sábado (1995) e Boleiros – era uma vez o futebol (1998), Ugo Giorgetti realizou um documentário que se distancia de suas escolhas estéticas e narrativas posteriormente consagradas.  Em sua filmografia, ainda que o mote seja a capital paulista, as histórias se passam frequentemente em ambientes confinados, seja o subsolo de uma mansão, um prédio desocupado ou um bar. Quebrando a cara se espraia entre imagens de arquivo, tomadas externas e ambientes desiguais: o Peruche, bairro da infância de Éder Jofre, o centro da capital paulista, o escritório de Waldemar Zumbano, o ringue.

Pôster do documentário

O documentário também traz uma entrevista com Olga Zumbano, única mulher que, à época, se dedicava à luta, enfrentando homens nas cidades onde se apresentava.

Além de combates procedentes de arquivos e acervos, Quebrando a Cara guarda o registro da última luta de Éder Jofre, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 1976. Filmada pela lente do diretor de fotografia Lúcio Kodato, a sequência é de um primor técnico à altura dos melhores filmes de ficção.

Se na sua origem Quebrando a Cara foi construído como uma investigação sobre Éder Jofre e o boxe do clã Jofre-Zumbano, passados 40 anos ele é a própria memória de um dos maiores esportistas brasileiros de todos os tempos, um dispositivo fundamental para a história do pugilismo no Brasil e um testemunho de transformações pelas quais passou a capital paulista.

Assim como o dia 26 de março, data de nascimento de Éder Jofre, foi instituído como o Dia Nacional do Boxe, quem sabe a data de seu falecimento possa lembrar ao público — e não apenas ao espectador habitual da cultura e das artes — que cinema também é memória.

Liniane Haag Brum é doutora em Teoria e Crítica Literária (Unicamp), é pesquisadora associada do Labjor/Unicamp, onde desenvolve projeto de divulgação da não ficção do cineasta Ugo Giorgetti, com financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Referências

ALTMAN, Fabio. O príncipe do boxe. São Paulo: Seja Breve, 2025.

ALTMAN, Fabio. Entrevista concedida a Liniane Haag Brum. São Paulo, 24 abr. 2026.

BRUM, Liniane Haag. Pesquisa sistematiza e analisa criticamente a produção não ficcional do cineasta Ugo Giorgetti. ComCiência, Campinas, 28 jul. 2025. Disponível em: https://www.comciencia.br/pesquisa-sistematiza-e-analisa-criticamente-a-producao-nao-ficcional-do-cineasta-ugo-giorgetti/. Acesso em: 2 out. 2026.

GIORGETTI, Ugo. Entrevista concedida a Liniane Haag Brum. São Paulo, 16 abr. 2026.

GIORGETTI, Ugo. Era uma vez o futebol: crônicas e contos. Rio de Janeiro: Imprimatur, 2025.

MATTEUCCI, Henrique. A história de Éder Jofre, o galo de ouro. 2. ed. São Paulo: Soma, 1979.

PAVAM, Rosane. Ugo Giorgetti: o sonho intacto. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007

 

 

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