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Críticas

Cemitério do Esplendor

Profanar os mortos é profanar a natureza

Por Luiz Joaquim | 30.03.2016 (quarta-feira)

É sempre difícil para nossa limitada e viciada perspectiva ocidental alcançar toda a dimensão por trás de um filme como Cemitério do esplendor (Rak ti Khon Kaen, Tai., 2015), de Apichatpong Weerasethakul – em cartaz no Cinema do Museu do Homem do Nordeste (Recife) a partir de amanhã (31).

Mas seria também injusto creditar apenas aos nossos vícios sociais locais a incompreensão absoluta da obra desse realizador tailandês. É importante dizer que ela, a obra, é consistente o suficiente para se sustentar grande a partir de suas particulares opções cinematográficas.

Em 2010, ao receber a Palma de Ouro em Cannes pela obra-prima Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, Weerasethakul ganhou as graças do mundo – Brasil inclusive – e aí seu nome ganhou da imprensa internacional o carinhoso (e prático) apelido de “Joe”.

Tal circunstância, seu rebatismo pela mídia para um nome mais fácil, já se apresenta como um indicativo da nossa dificuldade em alcançar a tal cultura de Apichatpong.

Essa cultura pela qual a natureza impõe-se soberana, e a vida se entrecruza com a morte com naturalidade, tem logicamente seu ritmo próprio, e esse ritmo não poderia, obviamente, ser desassociado de uma criação frutífera daquele lugar.

No roteiro criado aqui por Apichatpong, uma antiga escola numa pequena cidade é adaptada como hospital onde soldados são tratados por uma doença do sono. Eles apenas dormem, enquanto são mantidos por soro fisiológico. E, ainda que despertem, também podem cair em sono profundo inesperadamente, como se entrassem numa crise brutal de narcolepsia.

Nesse universo, uma senhora, a ajudante voluntária Jenjira (Jenjira Pongpas) afeiçoa-se ao solitário soldado Itt (Banlop Lomnoi) e passa a cuidar dele ao mesmo tempo em que interage com duas deusas (as atrizes Sujittraporn Wongsrikeaw e Bhattaratorn Senkraigul) aprendendo sobre o que significou aquela local no passado e como seu histórico interfere no presente, particularmente na misteriosa doença dos soldados.

Estas são as premissas básicas que Joe nos dá para acompanharmos o mergulho de Jenjira num aprendizado espiritual em que todas as forças da natureza devam ser observadas e respeitadas.

Longe de sugerir uma doutrinação ecológica ou espiritual, Cemitério… está mais interessado em experimentar, pelo cinema, a interposição de sentidos para aquilo que não entendemos de imediato no desenrolar dos acontecimentos da vida.

E Apichatpong consegue seu intento apenas com sugestões bem construídas de planos contemplativos, e diálogos sugestivos, num timing preciso entre estimular o interesse do espectador para tentar acessar sentimentos pessoais pelas imagens que vê, e o seu desejo (do espectador) em continuar nessa busca dentro do plano (mesmo depois que este plano já não está mais na tela). É uma harmonia com a qual muito poucos, no cinema contemporâneo, logram êxito.

Para concluir, é importante adiantar ao leitor que para bem acessar Apichatpong é melhor entrar na sala de cinema com o espírito livre e leve. Deixando o pragmatismo alucinado do mundo contemporâneo fora do auditório. Assim a fruição pode acontecer na sincronia transcendental queCemitério… deseja oferecer a seu espectador.

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