
59º Brasília (2026) – Tudo é Tempo / Fundura
Documentário esgarça nossas contradições pelo efeito do tempo como elemento transformador
Por Luiz Joaquim | 15.09.2026 (terça-feira)
– na foto acima, divulgação do Festival, o diretor Marcos Guttmann apresenta Tudo É Tempo, no palco do Cine Brasília.
BRASILIA (DF) – O comentário divertido ao final da sessão de ontem (14) do filme Tudo é tempo, de Marcos Guttmann, na mostra competitiva de longas-metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro era que o Brasil já tinha o seu Boyhood – Da infância à juventude em forma de documentário.
Mas, diferente do drama lançado em 2014 por Richard Linklater, Tudo é tempo acompanha quatro personagens e não um; por 20 anos, e não 12. O foco também é outro. Não estamos ao lado de adolescentes, mas sim adultos como objeto de observação a partir do tema ‘eleições presidenciais no Brasil’.
Neste projeto que Guttmann iniciou em 2002 sem nem saber muito bem onde iria desaguar – por ocasião da eleição que colocou Luiz Inácio Lula da Silva na presidência do País pela primeira vez –, o cineasta estabeleceu como único ponto em comum entre seus personagens o fato de todos terem como seção eleitoral o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
Mas uma das belezas deste trabalho foi a escolha certa de Guttmann em colar em personagens tão distintos, ricos em sua autenticidade, cada um ao seu modo.
Um deles é Carlos Eduardo Ibrahim, então com 30 anos no início das gravações do projeto, e apresentado como filho do líder sindical José Ibrahim, também lembrado como um dos 15 presos políticos trocados em 1969 pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick. História que foi dramatizada no filme O que é isso, companheiro?, de 1997, por Bruno Barreto.
Outra personagem é a doutora sanitarista Cristiane, médica de classe média, também próxima dos 30 anos em 2002. O mais velho de todos os entrevistados é o trabalhador Fernando, morador do complexo Cidade de Deus, pai de cinco filhos e o único preto do quarteto.
Pela faixa etária, mais novo que Fernando, temos Heber. Um poeta, intelectual e desempregado, como ele próprio afirma, sendo, talvez, o mais provocador de todos os personagens.
Heber sempre traz observações que, por vezes, desestabilizam tanto as perguntas de Guttmann quanto, por contraste, as falas de outros personagens. E, pelo menos numa ocasião, Heber desestabiliza suas próprias colocações quando, por exemplo, a partir de um antigo áudio que lhe é apresentado pelo cineasta, o personagem percebe sua própria contradição com o passar do tempo.
O exemplo serve para ilustrar que, para além de um muito atraente e valioso documento audiovisual sobre 20 anos – 2002 a 2022 – profundamente transformadores na política brasileira, Tudo é tempo esgarça o quanto nós, por mais preparados e cuidadosos que sejamos, somos contraditórios e sujeitos a influências, ou, no mínimo, frutos do tempo em que vivemos.
O que estimulou, a propósito, a retomada do projeto por Guttman – pois originalmente seria encerrado com o único encontro presencial entre os quatro personagens no Pedro II, no dia da votação de 2006 –, foi um contato feito há poucos anos de hoje por Cristiane. Ela estava incomodada por ter se percebido manipulada em 2022, quando votou em Jair Bolsonaro, tendo ela um histórico juvenil como ativista política.

Cristiane, Carlos, Helber e Fernando no único encontro presencial do grupo
Da mesma forma, Fernando, claramente defensor de Lula em 2006 pelas razões mais concretas possíveis – o preço do feijão baixou em quatro anos de R$ 13,90 para R$ 6,90 -, chega a 2022 inclinado para Bolsonaro, ainda que se apresente como um fiel da balança, que estabiliza no centro e inclina conforme o peso que recebe.
Já Carlos, que se relacionou profissionalmente com o PSDB no passado, chega a 2022 elogiando Lula como “o maior estadista do planeta”. No seu caso, uma nada fácil luta pessoal, psicológica e social – com a perda do pai e da mãe dentro de um curto intervalo de tempo; com os constantes cuidados especiais exigidos pelo seu filho de limitações cognitivas; e por ter sofrido um acidente que lhe provocou uma hemorragia na cabeça e consequente cirurgia cerebral em caráter emergencial – parece, tudo, ter feito dele alguém menos taxativo em suas opiniões.
Tendo o tempo como matriz para percebermos as mudanças dessas pessoas e da sociedade deste País pelo seu viés político, Tudo é tempo, num certo sentido, parece abrir uma interlocução com o primeiro longa-metragem dirigido por Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso, assinado em dupla.
Falamos de KFZ-1348 (2008), documentário pelo qual os então iniciantes cineastas se debruçaram sobre a vida e a perspectiva de mundo de oito pessoas. Os oito foram todos ex-proprietários de um Fusca num período em que vai do ano em que foi fabricado, em 1965, até 2005. Mascaro e Pedroso deixaram de lado uma forma linear de contar a história do Brasil e da sua evolução (ou involução) econômica e social para, a partir desses oito personagens, jogar reflexões representativas vinculadas a um símbolo social tão forte como é o carro popular. Leia mais aqui.
FUNDURA – O cineasta mineiro Catapreta é um dos mais talentosos nomes da animação brasileira contemporânea. Ponto. Se quiser entender o porquê, nem precisa revisitar suas obras anteriores (mas se o fizer, você, leitor, estará se dando um presente), basta assistir seu Fundura, curta-metragem que figurou na programação de ontem (14) por aqui, na mostra competitiva de sua categoria.
Fundura é daqueles filmes em que o espectador esquece de piscar, ou talvez algum dispositivo interno na sua cabeça seja acionado automaticamente uma vez que você está testemunhando, visual e auditivamente, algo realmente especial.

Imagem de “Fundura”
Fundura, antes de tudo, vale dizer, é filme que merece ser visto numa sala de cinema, com imagem e som apropriados. A sessão na calibrada Cine Brasília sugou a plateia, num certo sentido, e mostrou claramente a comunhão entre o que a obra oferece e o “como” só uma boa sala de cinema consegue entregar como real dimensão hipnótica que algumas obras como esta têm a oferecer.
O enredo de Fundura mostra um jovem num ambiente rural que sofre um acidente caindo na fundura de um buraco e é resgatado por uma entidade. Depois, sob os cuidados da avó, é curado com a ajuda de um tratamento ancestral. Já mais velho, ele se muda para a metrópole e vai trabalhar como segurança numa casa noturna. A profissão o coloca sob o risco de sofrer violência racista, que só poderá ser evitada por conta da ainda presente força de sua ancestralidade.

Protagonista de “Fundura”
Catapreta nos dá várias dimensões aqui. O próprio nome, “fundura”, pode remeter também às profundezas do tempo, com todos os aspectos relacionados àqueles que abriram os caminhos para nós, no passado.
Do ponto de visto estético, reforçamos, Fundura, o curta, é um deleite constante, proporcionado a partir de uma assinatura visual muito pessoal de Catapreta e atrelada a um rigor técnico simplesmente impecável. Que belo filme.
– Viagem a convite do Festival















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