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Festivais

59º Brasília (2026) Oficina Crítica, 13.set.

Sobre o longa-metragem de Daniel Nolasco e o curta -Gastronomia do Olho-, de Nicolau

Por Luiz Joaquim | 14.09.2026 (segunda-feira)

– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na foto acima, cena de Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco.

PEQUENAS TRAGEDIAS

por Luna Neves

Em uma mistura de gêneros e tons diferentes para contar uma narrativa pessoal sobre a vivência queer, o diretor goiano Daniel Nolasco nos apresenta seu mais novo longa-metragem: Pequenas tragédias. No início do filme, o narrador explica que essa história não é somente sobre Daniel, mas sobre a cidade de Catalão, Goiás, e assim, acompanhamos diversos acontecimentos sob a perspectiva de um jovem Daniel, interpretado por Guilherme Théo.

O filme é dividido em oito momentos: prólogo, cinco atos, entre ato e epílogo, cada um focando em um aspecto distinto da vivência de Daniel em Catalão. Assim, acompanhamos sua trajetória desde criança, ao descobrir o que é ser gay, até a vida adulta, depois de diversas vivências em decorrência de sua sexualidade. Essa estrutura funciona de forma muito interessante, emulando de certa forma o sentimento de ler um livro. Dá também oportunidade de nos sentirmos inseridos nos espaços em que o filme se passa, e consequentemente, nos conectarmos com as pessoas que estão tendo suas histórias contadas.

Em diversos momentos do filme, o erotismo funciona como contraposição ao conservadorismo de uma cidade pequena. Vemos várias recriações de acontecimentos e personagens preconceituosos sendo interpretados através de uma linguagem erótica, que não só ironiza os comportamentos hiper-masculinos de alguns personagens, como nos oferece a oportunidade de olhar para o filme através do desejo do protagonista.

Essa linguagem, entretanto, não tira do filme sua seriedade, como Daniel nos avisa no começo do filme: essa não é uma história feliz. A violência permeia toda a narrativa de Pequenas tragédias. Observamos o sofrimento de todas essas pessoas, e com o tom profundamente pessoal do filme, sofremos muito junto delas. Torcemos pelo final feliz que essas pessoas merecem, mas somos majoritariamente respondidos com a realidade violenta em que estão inseridas.

No entanto, Daniel Nolasco vive para contar essas histórias, e não deixar essas pessoas serem esquecidas. E assim, o diretor cria um filme igualmente engraçado, divertido, trágico e emotivo, que, misturando narração e dramatização, ficção e realidade, reflete brilhantemente sobre as memórias que uma pessoa queer carrega em si.

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Cena de “Gastronomia do Olho”

GASTRONOMIA DO OLHO

Cinema experimental que satisfaz quem faz

por Carolina Martins

A experimentação é sempre um risco. No cinema, exige, além de ousadia, uma equipe disposta a até perder dinheiro em nome do prazer de ver uma ideia ganhar forma. Afinal, pode dar certo, mas pode dar muito errado.

Gastronomia do olho, um dos 12 curtas da mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ousou. Com baixíssimo orçamento e sem financiamento de apoio, foi gravado em película 16 mm, sem roteiro, sem ensaio, para “tentar entender se essa proposta funciona”, como assumiu o roteirista, diretor e produtor, Nicolau.

Mesmo sendo representante do Distrito Federal na mostra, o curta é uma ode ao bairro do Bixiga, em São Paulo. O documentário-ficcional tem cerca de dez minutos e acompanha dois atores a caminho do Teatro Oficina. Eles fazem parte da mesma companhia e estão ensaiando Os sete gatinhos, peça de Nelson Rodrigues. É durante um pequeno trajeto percorrido por eles a pé que o filme se desenvolve.

Entre conversas reais e o texto rodriguiano, o curta passeia pelas ruas do bairro paulistano de forma bastante despretensiosa e experimenta também na montagem. Insere trechos de outros filmes, com outras texturas, outras épocas da mesma São Paulo. Em comum, a arte  em diferentes linguagens, que de alguma forma permeia esses diferentes momentos e aparece como um amálgama para unir partes que parecem desconexas.

O título do curta precisou de explicação. Na sessão de debate sobre o filme, hoje (14) pela manhã, Nicolau afirmou se tratar de uma citação direta do escritor francês Balzac, que definiu o ato de flanar por Paris como uma gastronomia dos olhos. A alusão foi a mesma, mas às ruas de São Paulo.

É sabido que o cinema experimental rompe com o conforto da estrutura tradicional e provoca o espectador a ir, por conta própria, em busca de sentidos para a narrativa proposta. Mas, Gastronomia do olho dá poucas pistas e exige um repertório elevado de quem só assiste. Parece mesmo um filme feito para quem faz cinema. Uma experimentação que abarca as intenções de quem filma.

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Cena de “Pequenas Tragédias”

PEQUENAS TRAGÉDIAS

por Luísa Damasceno

Ao retomar a investigação sobre o desejo, a memória e o território goiano, marcas de sua trajetória em obras como Paulistas e Mr. Leather, o cineasta Daniel Nolasco constrói em Pequenas tragédias um retrato fortemente ligado à sua própria história e ao seu entorno geográfico. Para além de um relato confessional ou autobiográfico, o filme cruza a linguagem documental (como as falas direcionadas à câmera, o tom de conversa franca e o resgate da memória dos afetos) com a ficção para expor como as diferentes formas de violência cotidiana enfrentadas por pessoas LGBTQIA+ ganham contornos específicos no interior do país. A força do trabalho está justamente em não paralisar seus personagens na dor: a opressão de um meio conservador, atitude presente em diversos cantos, mas com dinâmica própria na província, é o tempo todo desarmada por um humor ácido e pela potência dos encontros afetivos.

Ao conduzir o olhar documental para além do meramente expositivo, a obra recusa a armadilha de limitar as existências retratadas à condição de vítimas. Essa escolha conecta-se diretamente com a promessa do título, Pequenas tragédias: o filme não se curva à gravidade dessas “tragédias”, fazendo da narrativa um espaço de constante enfrentamento. Sustenta-se, assim, a tese de que a crítica social do filme não se ergue pela passividade do trágico, mas pelo embate constante entre a hostilidade do ambiente e a força de resistência dos seus personagens.

Esse atrito entre a geografia local e os afetos ganha corpo no modo como o filme mapeia Catalão, especialmente em seus cantos mais esquecidos. Um exemplo claro dessa escolha é a cena do encontro entre dois homens em um banheiro público: um lugar marcado pelo abandono e por uma arquitetura isolada. No entanto, a direção recusa a vitimização e transforma a forma de olhar para aquele espaço degradado. Com a escolha dos enquadramentos e o ritmo certo dos corpos, o cenário insalubre vira um território de pura potência sensual. O lugar feito para ocultar torna-se, pela câmera do filme, um espaço de afirmação do desejo.

Outro momento de incontestável potência do filme ocorre na introdução da personagem Monalisa. A entrada dessa figura muda o tom do filme e coloca o público diante de memórias de resistência que costumam ser invisibilizadas no cinema comercial. Longe de reduzi-la a um estereótipo marginal, a direção confere à sua história um lugar de profunda dignidade e escuta. Essa inserção expande o alcance humano da obra ao trabalhar os limites da percepção do espectador, convocando um exercício de genuína empatia diante de um cotidiano marcado pelas asperezas do tempo e pelas cicatrizes de uma vida à margem.

A espacialidade e a direção de arte constroem essa atmosfera de tensão e desejo, mas é na elaboração dos diálogos e principalmente da narração que a veia de humor ácido se consolida. Longe de cair no tom panfletário, o longa usa a ironia e o deboche como estratégias de defesa e inteligência. Os personagens, atravessados por um tom melodramático consciente de si, contrapõem a gravidade do preconceito a uma inteligência rápida, impedindo que a narrativa resvale para o tom pedagógico. Esse humor, ora sutil, ora cortante, atua como o verdadeiro catalisador da obra: ele desarma a dor e devolve aos personagens a contradição, a leveza e a humanidade que as opressões tentam subtrair.

Em última análise, Pequenas tragédias reafirma a maturidade da trajetória de Daniel Nolasco ao converter a geografia de Catalão em um vibrante laboratório estético e político. Ao recusar a vitimização e apostar no choque contínuo entre a hostilidade do ambiente e a exuberância do afeto, a obra deixa uma reflexão duradoura sobre o que é resistir hoje. A potência do filme não reside na mera denúncia da violência local, mas na capacidade de inventar frestas de prazer, romantismo e fabulação em que o meio insiste em interditar o corpo. Conclui-se, assim, uma obra que não se entrega como um inventário de derrotas, mas se afirma como um manifesto vivo, irônico e profundamente humano sobre o direito de existir e desejar.

 

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