
59º Brasília (2026) – Pequenas Tragédias
Daniel Nolasco, dores e humores a partir de Catalão, -um lugar bom de viver-
Por Luiz Joaquim | 14.09.2026 (segunda-feira)
– na foto acima, divulgação do Festival, equipe de Pequenas Tragédias apresenta a sessão no Cine Brasília
BRASILIA (DF) – Na segunda noite da mostra competitiva – ontem (13) – do 59ª Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o público conheceu o novo trabalho de Daniel Nolasco, cineasta goiano já bastante celebrado pela clareza e firmeza na condução de seus longas-metragens anteriores Vento seco (2020) e o recente Apenas coisas boas (2025).
Com Pequenas tragédias, exibido no Cine Brasília, Nolasco dá mais um paço para fincar seu nome como um dos mais afiados de sua geração e, agora, administrando humor com uma notável destreza sobre seu discurso cinematográfico; e, ainda, trazendo o seu público pela mão com elegância até o final de um azeitado recado.
Ainda mais audacioso do que desenhar um humor sutil em seu enredo, pautado pela ironia fina, o que Nolasco consegue em Pequenas tragédias é trafegar com suavidade e, repetimos, firmeza para um outro campo, o do drama, com fluidez comovente, envolvente.
A divisão dos 119 minutos de duração em Prólogo, cinco capítulos, um entreato e um epílogo ajudam nas transições do cômico para o trágico. Mesmo assim, há a narração em off, do próprio Nolasco, com a sua voz pausada, que a tudo amarra para situar histórias vividas/conhecidas pelo próprio cineasta na cidade onde nasceu e residiu até 2011. Falamos do município de Catalão, a 260 quilômetros de Goiânia.
De partida, somos informados no filme pelo ator Guilherme Théo, olhando para nós espectadores, que ele interpretará Nolasco e o filme é baseado em fatos. Até que, lá pelo capítulo dois ou três, também fica claro que este não é um filme sobre o cineasta, mas sobre Catalão e a sua reacionária e fisicamente violenta cultura contra homossexuais.

Guilherme Théo como Nolasco e Cecília Brito (atriz e produtora) em cena de “Pequenas Tragédias”
Com o slogan, “Um lugar bom demais para viver”, Théo, na pele de Nolasco, explica que Catalão está no limbo entre “a cidade que não é tão pequena a ponto de todos te conhecerem, mas não é tão grande a ponto de você passar desapercebido”.
Dando espaço para figuras emblemáticas, como símbolo de resistência da região mas também de solidão, como Monalisa, uma já idosa travesti que sempre viveu nas sombras de um quadrilátero à beira de um estrada rodoviária para se proteger da hostilidade local, Nolasco vai entregando ao espectador um deprimente desenho do que pode a ignorância e o preconceito. É genuinamente comovente.
O desenho fica ainda mais grotesco com o caso de Jonas (Marcelo Camargo), conhecido pelos impunes espancamentos (no plural) praticados contra gays do município. Como bem falou Camargo em entrevista coletiva hoje (14) pela manhã, Jonas é a “personificação da lgbtfobia de Catalão”.

Lucas Drummond como Samuel, melhor amigo de Nolasco em Catalão, em marcante cena do filme.
Ainda que tais descrição sugiram um filme assustador, o que Pequenas tragédias entrega é o oposto. Sem dramatizar graficamente a violência – “não queria imprimir uma representação visual no filme para que tais imagens não chegassem no lgbtfóbico como uma catarse”, disse Nolasco na entrevista -, o que nos chega é, sim, um filme vertical em sua seriedade contra a violência, mas igualmente divertido ao ironizar com certezas homofóbicas.
A título de ilustração, a sequência do machão Jonas jogando futebol com um amigo, ao som da debochada música I wanna see my friend’s dick (“Quero ver o p@* dos meus amigos”), do comediante e músico Jordan Firstman, é para rir com gosto.
Da mesma forma, as entradas inesperadas de Guilherme Théo em quadro, se dirigindo ao espectador e interrompendo o início de alguma cena sexual em cena – durante o entreato cujo o título é algo como Manual para amigos do Rio de Janeiro e São Paulo sobre gays no interior – são pura perfeição no timing do humor.
Nolasco, portanto, inscreve-se com Pequenas tragédias como um dos mais inventivos e comprometidos criadores de sua geração e, se quisermos fechar o círculo ao universo do cinema queer brasileiro, podemos dizer, com pouca margem de erro, que ele é dono da mais sofisticada escrita com viés humorado deste gênero (com destaque aqui também para o trabalho do pernambucano Fábio Leal).
– Viagem a convite do Festival















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