
A campanha brasileira no Oscar 2027 é nordestina
“Feito Pipa” (Cerará) é o escolhido; o curta “Os Arcos Dourados de Olinda”(Pernambuco) faz campanha
Por Yuri Lins | 16.09.2026 (quarta-feira)
O Brasil entrou oficialmente na temporada do Oscar 2027 nesta quarta-feira (16), e quem manda no mapa da disputa é o Nordeste. A Academia Brasileira de Cinema anunciou que Feito Pipa, longa cearense dirigido por Allan Deberton, será o representante do país na corrida por uma vaga em Melhor Filme Internacional. Horas depois, por um caminho paralelo e com um orçamento incomparavelmente menor, o curta pernambucano Os Arcos Dourados de Olinda lançava a própria campanha, na categoria de Documentário em Curta-Metragem.
Feito Pipa se passa em Quixadá, no sertão central do Ceará, onde também foi rodado. Gugu divide a casa com a avó, Dilma, numa rotina em que cabem a bola e a dança na mesma tarde. Quando a saúde dela se deteriora, o menino esconde o que está acontecendo para não ter de se mudar para a casa do pai, Batista. No papel central está o estreante Yuri Gomes, ao lado de Teca Pereira e Lázaro Ramos.
O roteiro é de Deberton com André Araújo e partiu de lembranças de infância dos dois em Russas, também no interior cearense. O diretor assina ainda Pacarrete (2019), com Marcélia Cartaxo, um dos grandes vencedores de Gramado naquele ano.

Allan Deberton, Teca Pereira, Yuri Gomes e Lázaro Ramos durante a apresentação de Feito Pipa no festival de Gramado.
O novo filme estreou fora do país. Em fevereiro, na 76ª Berlinale, levou o Urso de Cristal do júri jovem e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus. Em agosto, no 54º Festival de Gramado, saiu com quatro Kikitos (direção, atriz para Teca Pereira, ator coadjuvante para Lázaro Ramos e júri popular), mais troféus que qualquer outro longa da noite. Chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro.
A decisão saiu de uma comissão de seleção de 15 integrantes, presidida pela produtora Clélia Bessa. Foram 15 filmes inscritos, seis finalistas e, no fim, o longa que já havia sido o mais premiado do último Festival de Gramado.
Ficaram pelo caminho 100 Dias, de Carlos Saldanha; A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai; A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo; Nosso Segredo, de Grace Passô, que havia levado o Kikito de melhor longa brasileiro em Gramado; e Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins.
A escolha chega depois de duas temporadas de exposição inédita do cinema brasileiro na premiação. Ainda Estou Aqui venceu Melhor Filme Internacional em 2025 e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, colecionou quatro indicações em 2026, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura, sem levar nenhuma estatueta para casa.
A outra frente nordestina da temporada custou uma fração disso. Com 24 minutos, Os Arcos Dourados de Olinda é dirigido e montado por Douglas Henrique, de 26 anos, tem roteiro de Arnon Segal Hochman e produção de Pedro Ferreira, pela Inferno Produções. O filme começou como trabalho de conclusão do curso de Cinema da UFPE e não tem um único plano rodado pela equipe: todo o material é de arquivo, entre fitas VHS, fotografias, jornais e registros de televisão.
O tema é a loja do McDonald’s que abriu na Avenida José Augusto Moreira, em Olinda, no início dos anos 2000 e fechou antes de completar três anos. Dali saiu a versão que a cidade repete até hoje, a de ter sido a primeira do mundo a quebrar uma unidade da rede. O curta liga esse fracasso comercial à eleição da prefeita Luciana Santos (PCdoB) e ao público majoritariamente LGBTQIA+ que frequentava a lanchonete.

Douglas Henrique, diretor e montador de Os Arcos Dourados de Olinda, que iniciou nesta quarta-feira (16) a campanha do curta pernambucano por uma vaga no Oscar 2027, na categoria de Documentário em Curta-Metragem.
Em abril, o curta saiu do festival 31º É Tudo Verdade com cinco troféus na mesma noite. Levou o de melhor curta-metragem brasileiro e ainda os prêmios Canal Brasil, Mistika, edt. (montagem) e APACI. Antes disso, já havia recebido menção honrosa na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2025 e o prêmio de melhor documentário internacional no Bogoshorts, na Colômbia.
Douglas Henrique começou a pedir apoio público para a campanha nesta quarta-feira, no mesmo dia do anúncio da Academia Brasileira de Cinema. A conta é o obstáculo real. Para disputar de igual para igual, um curta precisa alcançar votantes espalhados por vários países, o que costuma exigir sessões pagas, assessoria de imprensa, inscrição em outros festivais e material de divulgação, despesas fora do alcance de um filme nascido como trabalho de conclusão de curso. Sem streaming, Os Arcos Dourados de Olinda depende hoje de sessões e festivais para ser visto. Teve exibição especial no Cinema São Luiz, no Recife, passou por Havana e estreou em Portugal no IndieLisboa.
A temporada 2027 também chega com mudanças nas regras. Pela primeira vez, filmes falados em língua não inglesa podem se qualificar a Melhor Filme Internacional tanto pela inscrição oficial do país, como fez o Brasil, quanto pela conquista do prêmio principal de festivais como Berlim (Urso de Ouro), Cannes (Palma de Ouro), Veneza (Leão de Ouro), Sundance, Toronto e Busan. A Academia passou ainda a creditar como indicado o filme, e não o país, com o diretor recebendo a estatueta e tendo o nome gravado nela.
Na prática, a via alternativa não muda a rota dos dois nordestinos. Os prêmios de Feito Pipa em Berlim vieram da mostra Generation Kplus, fora da lista de troféus que dão passe livre, e o curta de Olinda disputa outra categoria. Resta o percurso convencional, e o funil é o mesmo para os dois. A lista de pré-selecionados sai em dezembro, os indicados em janeiro e a cerimônia acontece em março.















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