
59º Brasília (2026) Oficina Crítica, 14.set.
Sobre “Fundura” e “Tudo é Tempo”
Por Luiz Joaquim | 16.09.2026 (quarta-feira)
– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na foto acima, cena de Fundura, de Catapreta.
FUNDURA
Com a palavra, Catapreta
por João Luiz dos Santos
“Sempre econômico com as palavras”, foi assim que Catapreta, diretor do filme Fundura, foi descrito pelo colega realizador na apresentação do filme para a mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
E de fato, as poucas palavras se refletem nesta produção, mas são dispensáveis frente ao espetáculo cinematográfico em forma de animação criado para contar essa história.
Nesta edição do festival vemos muitas histórias relacionadas as religiões de matriz africana e suas relações com o povo negro periférico. Não poderia faltar falar sobre a proteção de uma mãe, ou no caso de Fundura, o que guarda uma caixa com formigas.
Em Fundura, um jovem trabalhador é sugado pela escuridão de um mundo hostil. Salvo por uma entidade, o garoto encontra nas mãos de uma mãe a cura necessária para abrir seus caminhos. Quando o espaço de casa e cura deixam de ser suficientes para um filho, ele se lança ao mundo e com ele, vai um pedaço do que o protege.
Uma animação de tirar o fôlego, que brinca com a distribuição de uma paleta de cores que dá destaque a cenários, personagens ou objetos de acordo com a necessidade de amplificar o momento narrativo. A paisagem sonora não permite que seu espectador se distraia, com graves intensos de tensionamento, mas principalmente, ausência de silêncios. Se não o conforto do som de pássaros quando o personagem é cuidado, o estridente barulho de uma cidade sempre em movimento.
Um momento de grande impacto é a revelação de seu antagonista, que escancara a vontade de explorar tensões raciais no curta-metragem. Quando o garoto, agora um homem, entra na mira de seu algoz, resta aos encantos impedir que ele amanheça com formigas na boca. Só não é possível dizer o mesmo sobre quem o caçou.
Catapreta é, de fato, um realizador de poucas palavras, mas vale a pena acompanhar o que ele tem para dizer.
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Cena de “Tudo é Tempo”
TUDO É TEMPO
Documentário encontra o Brasil de hoje vinte anos atrás
por Letícia Passos
O documentário Tudo é tempo (2026), dirigido por Marcos Guttmann é, paradoxalmente, uma viagem no tempo e uma trombada com os dias de hoje. O longa, parte da mostra competitiva do 59º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro (FBCB), acompanha quatro personagens distintos: Cristiane, Carlos, Fernando e Heber que, por ventura, se encontram na mesma seção eleitoral na zona sul carioca. Ao longo de vinte anos, as lentes de Guttmann orbitam as vidas desses eleitores, seus sucessos, tragédias e transformações a partir de um marco zero: a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002.
O maior triunfo de Tudo é tempo está justamente em suas figuras centrais. Os personagens encontrados por Guttmann são fascinantes em suas contradições e carismáticos em seus problemas. Na telona, é possível reconhecer personagens agora já clássicos do imaginário sócio-político brasileiro: o herdeiro político, o boêmio descrente, o trabalhador, a pessoa que acredita ser de centro. Todos eles e seus depoimentos, dados nos anos 2000, são tão atuais, que poderiam ter sido filmados este ano se não por um detalhe: naquela época, ainda restava certa civilidade para se discutir política.
Claro que, para acompanhar, reunir, organizar e entrelaçar as histórias de quatro pessoas distintas, em três eleições distintas, de uma forma coesa não é tarefa fácil. Aqui, cabem os louros ao diretor Marcos Guttmann, mas também a Arthur Frazao e Rita Carvana, responsáveis pela montagem do longa. São 85 minutos que fluem com naturalidade, em excelente ritmo e traçam com precisão a cronologia de um país que permanece confuso quanto à política e se tornou cada vez mais polarizado.
Se fosse possível apontar algo que incomoda, ou nitpick como dizem os gringos, é que a narração por vezes pareceu desnecessária. As situações e os personagens, por serem tão familiares para a maior parte da audiência, nem sempre necessitam de explicações via voice-over. Em alguns momentos, o uso do recurso faz lembrar os documentários políticos de Petra Costa, e ainda é cedo demais para saber se essa associação favorece, ou não, o longa. Ainda assim, é possível reconhecer a necessidade da narração em determinados trechos; ela só poderia ser usada um pouco menos.
O documentário é um senhor triunfo de seus criadores. A sala de exibição do Cine Brasília erupcionou em risadas, expressões de choque, comentários e reações durante toda a sessão, um verdadeiro testamento da solidez do longa. Na tela, os presentes viram, através de quatro eleitores, o Brasil e os brasileiros mudarem de opinião vez após vez, após vez, após vez, após vez…
Talvez a única coisa que não mude no breve futuro seja a certeza de que Tudo é tempo vale cada segundo.
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TUDO É TEMPO
Mudamos, mas continuamos os mesmos
por Pedro Paulo Gouvêa
A ideia gira em torno de quatro personagens que não se conhecem, têm condições de vida diferentes e candidatos diferentes, mas que votam no mesmo lugar no Rio de Janeiro. O filme começa acompanhando essas pessoas na primeira eleição de Lula, em 2002, e, a partir daí, passa a registrar suas vidas ao longo de vinte anos.
Já é muito instigante acompanhar essas pessoas, entender suas vidas, dificuldades, gostos, famílias, trabalhos e por que decidiram votar em seus candidatos. Essa retomada a cada ano torna cada personagem único e faz com que se crie um certo carinho e entendimento por cada um deles.
A sequência em que eles se encontram pela primeira vez, depois de quatro anos, é espetacular e mostra como essas diferentes vidas podem se cruzar. Mas o que torna essa experiência ainda mais interessante é a retomada em 2022, na terceira eleição de Lula. É muito interessante ver a evolução desses indivíduos, perceber como mudaram de opinião, de trabalho e como se tornaram pessoas muito diferentes, mas ainda preservam características que os tornam os mesmos personagens. Parece contraditório, mas o filme consegue mostrar isso muito bem.
Também é interessante acompanhar a evolução do mundo ao redor deles: a moda, a tecnologia, os costumes e os próprios pensamentos. É como entrar em uma máquina do tempo e observar não apenas essas pessoas envelhecendo, mas também o país se transformando junto com elas.
Tudo é tempo é um documentário leve, alegre e provocador, que o tempo inteiro expõe as contradições de cada personagem. A política está presente, mas acaba servindo também como um ponto de partida para observar algo maior: como vinte anos podem transformar completamente a vida de uma pessoa sem necessariamente apagar quem ela era.
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Cena de “Fundura”
FUNDURA
É impossível voltar pra caixa
por Robertta Rangel
A animação Fundura, de Catapreta, abriu a sessão do terceiro dia da mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Catapreta já havia participado do festival com o excelente Dona Beatriz Ñsîmba Vita, em 2023, recebendo o prêmio de melhor roteiro.
Fundura é uma fábula de horror social onde acompanhamos um garoto que, salvo de um buraco de fundura, é acolhido e costurado pelas mãos de uma matriarca em uma casa de cura repleta de muletas e ex-votos. Mas ele decide fugir desse abrigo sagrado carregando consigo apenas uma caixa. Ele é agora um corpo fragmentado, condenado a carregar as marcas da violência histórica para a vida adulta, onde passa a trabalhar como segurança de um clube noturno, sintoma da precarização e exposição contínua de corpos pretos na linha de frente da vigilância urbana.
O curta impressiona pelo rigor estético. A técnica de animação manual de Catapreta ganha dimensão com o excelente trabalho de desenho de som, que constrói uma atmosfera de tensão constante, nos colocando num estado de absoluta presença.
A fundura diz respeito à vala de onde o garoto emergiu, à profundeza das marcas coloniais que carrega na pele e ao abismo de uma tentativa final de retorno à caixa. Mas não tem como retornar intacto ao refúgio primordial depois de ter sido empurrado pro mundo.
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Cena de “Cidão”
CIDÃO
Elaboração de uma perda
por Robertta Rangel
O curta-metragem goiano Cidão, dirigido por Alessandra Gama, tem como ponto de partida uma ferida histórica e familiar incontornável: o assassinato de seu pai, no dia 1º de maio de 1981, quando saiu de casa para comemorar o feriado do dia do trabalhador.
O filme, que se utiliza do saturado recurso da diretora-narradora em primeira pessoa, se estrutura a partir da urgência em tocar nessa ausência e entender as circunstâncias de uma morte violenta que atravessou décadas sem resolução plena. Nesse resgate, a diretora tem em mãos um material de densa carga afetiva, reunindo relatos de familiares, fotografias e notícias de jornais, mas que por vezes se dispersa em soluções formais típicas de um filme de formação. Essa contundência material, porém, ganha respiro nas sequências de uma mesa de oferenda que cruzam o filme, criando rituais de afeto e memória que apontam pra uma elaboração mais poética da perda.
Ao final, a dor real e a denúncia daquele 1º de maio permanecem gravadas na memória do público sobretudo pela matéria bruta do arquivo, a carteira de trabalho do pai, manchada de sangue, que atravessa o filme.















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