X

0 Comentários

Festivais

59º Brasília (2026) – Todo o Sentimento + Cana

Sob a égide da potência, do afeto e do atravessamento dos corpos

Por Luiz Joaquim | 16.09.2026 (quarta-feira)

– acima, Glenda, Ary, Lucas e Aldri apresentam Todo o Sentimento no palco do Cine Brasília. Crédito da foto – Itallo Santos

BRASíLIA (DF) – Por quanto tempo se sustenta um filme cujo equilíbrio se apoia sob a égide conceitual da “potência”, do “afeto” e do “atravessamento dos corpos”? Todo o sentimento, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, exibido na noite de ontem (15) durante a competitiva de longas-metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é uma boa obra para se colocar tal questão em prova.

A premissa trazida pelo argumento é excelente para abrir portas criativas e pôr em perspectiva uma construção cinematográfica sobre um universo paralelo de um Brasil medonho. Algo que, em setembro de 2026, há poucas semanas do 1º turno das eleições presidenciais deste país, nos faz estremece apenas em pensar que o fictício pode se tornar real.

A provocação no enredo é: e se as ações grotescas promovidas na Praça dos Três Poderes pelo gado da extrema-direita durante o 8 de janeiro de 2023 tivessem saído vitoriosas? O novo filme de Glenda e Ary nos coloca na data do quarto aniversário daqueles acontecimentos, então celebrados por programas de tevê.

Estamos numa casa colonial no Recôncavo Baiano onde o amargurado cineasta Henrique (Aldri Anunciação) vive voluntariosamente isolado e solitário. Sua condição de cadeirante não é o seu único limite. O Brasil passou a ser (passou a ser?) um lugar perigoso, vigiado e punido para quem não reza pela bíblia fascista da extrema-direita que está no poder. Assim sendo, aquela casa é o seu refúgio contra esse mundo.

Refúgio onde, contra a sua vontade, Henrique recebe a chegada inesperada de um sorridente cuidador chamado Gustavo (Lucas Leto), enviado por um amigo do cineasta.

Depois de uma longa e rabugenta rejeição de Henrique contra a aproximação de Gustavo, sugerindo humor pelo contraste dos dois personagens, o relacionamento começa a fluir após se defenderem de um violento ataque externo. A situação aproxima os dois em sua condição de exilados em seu próprio país.

cena de “Todo o Sentimento”

É quando a potência do afeto atravessa os corpos, ou a potência dos corpos atravessa os afetos, ou o afeto atravessa a potência dos corpos, e, finalmente, o sorriso volta a brilhar no rosto de Henrique.

É bonito (e necessário), o recado. E é assim, repetimos, particularmente neste setembro de 2026. Só que aqui é resolvido com pouca força cinematográfica – ainda que sejam evidentes o empenho e a energia de Anunciação e Leto empregados nos seus Henrique e Gustavo.

Parece faltar em Todo o sentimento não apenas fôlego para desdobrar seu argumento em algo efetivo em sua capacidade de perturbar e envolver, seja pela chave do humor ou da repressão social (e até pelo sexo), mas também parece faltar audácia estética.

No campo do discurso, tiradas rápidas, cuja problematização parece pedir mais espaço de desenvolvimento, não ganha tempo de respiro no filme. É o caso da ótima fala de Gustavo quando, ao ser atacado, cai no chão com um fascista homicida por cima dele. Gustavo brinca, em conotação sexual: “Você está gostando, não é? De ficar, em cima de mim”.

Numa outra situação, o oposto disso acontece. Num bem resolvido momento, quando, ainda conhecendo os aposentados da casa colonial, Gustavo se depara com retratos na parede dos antigos donos brancos, para daí perguntar a Henrique: “Por quê escolheu ficar aqui?”, para ouvir do cineasta, “É bom eu ser o dono, mostra que o mundo dá voltas”.

Entretanto, no campo da estética, os bizarros programas de tevê visto no filme, por exemplo, que trazem evidente empenho na construção de sua composição para apresentar o discurso do absurdo e do grotesco, flutuam nos resultados entre si.

É também perceptível um volume notável de planos e contraplanos, por enquadramento fechado nos rostos dos protagonistas, para resolver visualmente os vários diálogos do encontro daqueles dois. O que aponta para soluções fáceis no set, ou próprias de um roteiro que se esforçou pouco na sua capacidade de imaginar as possibilidades de explorar a mise-en-scène.

Cena de “Todo o Sentimento”

E mesmo o jogo de fusão entre as imagens com A ilha (2018), amarrando o Henrique do passado com o do presente, parecem não surtir efeito substancial para ajudar a enriquecer a informação sobre quem é aquele cineasta e o porquê do tamanho de sua amargura.

Uma pena.

CANA – Como que salientando ainda mais essas fragilidades de Todo o sentimento, sua sessão foi imediatamente antecedida pela projeção do curta-metragem Cana, de direção coassinada pelo rapper e roteirista Daniel Rone com o produtor da “Oeste Cinema”, Guilherme Xavier Ribeiro.

Cana é puro frescor e energia criativa em forma de cinema. Já em sua abertura, brinca, sem medo, não subestimando a inteligência do espectador, ao apresentar um deslocamento entre o que se escuta e o que se vê na imagem; para depois nos colocar dentro da cabine de uma enorme caminhonete com um motorista e um carona que, inicialmente, poderão testar os valores da plateia no quesito “preconceito racial”.

Cena de “Cana”

Cana larga o espectador nesse espaço, enquanto aos poucos vai nos apresentando àqueles dois jovens – por meio de diálogos de uma autenticidade cativante – e nos deixando confortavelmente ao seu lado.

Não demora muito e um contexto de horror fabular é estabelecido no exterior do carro, tendo a instituição “polícia” como ameaça. Ameaça mesmo para aquele que “quem não deve, não teme”, como diz um dos rapazes, mas precisa temer uma vez que se sabe do modus operandi impregnado na nossa sociedade contra o preto.

Que filme! Que venham mais.

Cena de “Cana”

 

– viagem a convite do Festival

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade