
59º Brasília (2026) – Oficina Crítica, 18.set.
Sobre os últimos curtas-metragens da competitiva, “Poronga” e “Banho de Choque”
Por Luiz Joaquim | 21.09.2026 (segunda-feira)
– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na foto acima, cena do filme pernambucano Banho de Choque
PORONGA
Crueza e afeto em Poronga, de Rafael Rogante
por Robertta Rangel
Representando Rondônia na mostra competitiva de curtas do 59º Festival de Brasília do cinema brasileiro, Poronga, de Rafael Rogante traz uma geografia e atmosfera de opressão desenhada com afeto e crueza. A narrativa acompanha dois seringueiros isolados na densidade da floresta amazônica.
O título, que remete à lamparina que os seringueiros usam na cabeça na escuridão da floresta, serve de metáfora para uma história que acontece na penumbra, e onde o que mais importa não é, e nem pode, ser dito em voz alta. É um curta com ausência quase total de diálogo convencional, onde tudo o que os personagens enunciam é a reza mecânica do pai nosso. A oração é aqui um mantra que tenta expiar a culpa e mascarar o indizível.
Grande parte do impacto do filme se dá ao trabalho de fotografia de Neto Cavalcanti. A beleza plástica das imagens constroem um universo visual áspero, onde o que se vê na tela é um afeto bronco tolhido pelo moralismo e pela rudeza do ambiente. Por fim, Poronga confirma a força de um cinema que confia no silêncio e no impacto das imagens para narrar o interdito.

Cena do filme “Poronga”
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PORONGA
por Luna Nevez
A última noite da mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi aberta com Poronga, dirigido e escrito por Rafael Rogante. No curta, acompanhamos dois seringueiros que tentam sobreviver contra os desafios da floresta amazônica.
Poronga abre já nos inserindo em um clima de mistério e perigo. A escolha de ter o Pai Nosso como uma das únicas falas do filme funciona para mostrar a dependência dos dois homens na religião, que aparece como a única esperança real de não sucumbirem às condições em que estão inseridos.
Vemos também a influência do desejo, do olhar de um homem sobre o outro, tanto na relação entre os protagonistas quanto na situação em que estão. Dessa forma, misturando desejo, medo e o perigo iminente, a violência é o que toma conta da narrativa. As imagens da imensidão da natureza também são parte muito importante da ambientação do curta, criando esse sentimento de que algo ruim está prestes a acontecer e não sabemos o quê.
Então, Poronga se mostra um filme que transmite muito dos sentimentos dos personagens com poucas palavras, através de imagens atmosféricas e uma trilha sonora imersiva, que junto das ótimas atuações, deixa a audiência aflita do início ao fim.
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PORONGA
Identidade e a Arquitetura do Encurralamento em Poronga
Por Luísa Damasceno
Em Poronga, o cineasta rondoniense Rafael Rogante parte da imensidão da floresta amazônica para construir um suspense de sobrevivência pautado pelo isolamento e pela iminência do desamparo no território. Ao acompanhar a jornada de dois seringueiros perdidos na mata, interpretados por Artur Nestor e José Valdomiro, o curta-metragem estabelece um clima de contínua ameaça latente. O grande acerto da composição reside no uso de uma proporção de tela reduzida: ao comprimir o enquadramento no espaço de uma paisagem aberta e monumental, a direção traduz visualmente o confinamento dos personagens, transformando a vastidão da natureza em um espaço de inevitável encurralamento.
A perspectiva visual do filme sustenta essa opressão por meio de uma fotografia atenta às texturas de Itapuã do Oeste, registrando a imponência das seringueiras e o rigor plástico da extração da borracha. Contudo, a obra perde a oportunidade de encorpar essa atmosfera por meio de um trabalho mais rigoroso com o desenho de som. A escolha por apoiar a narrativa em um registro praticamente silencioso apresenta-se como um caminho promissor para acentuar a solidão dos protagonistas, mas a construção sonora carece de maior detalhamento e preenchimento para adensar o mistério e elevar a tensão a patamares mais altos.
Para além da dimensão sensorial, a narrativa desenvolve uma camada instigante ao debruçar-se sobre a relação entre o seringueiro mais velho e o mais jovem, suscitando dúvidas sobre identidade e pertencimento. A sequência em que o homem maduro raspa a barba e o cabelo do companheiro surge como um rito de aproximação física revelador, reduzindo as diferenças entre ambos a ponto de sugerir que um funciona como a projeção do outro. Esse gesto transforma a travessia pela mata em um confronto existencial, no qual o alheamento força o indivíduo a encarar a sua própria imagem refletida no tempo.
Ainda que apresente lacunas em sua sustentação sonora, o curta-metragem estabelece-se como uma contribuição relevante para a cinematografia de Rondônia e da Região Norte. O filme demonstra maturidade no manuseio do cinema de suspense, articulando a beleza do espaço natural à perda gradual de rumo de seus protagonistas. Rafael Rogante entrega uma obra de ideias fortes, na qual o verdadeiro perigo não habita apenas a imensidão da selva, mas a inevitável desintegração do homem diante do silêncio.
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BANHO DE CHOQUE
O choque do tempo
por Robertta Rangel
Conhecida por sua trajetória como atriz e documentarista, Cíntia Lima estreia na direção de ficção com o pernambucano Banho de choque, exibido no último dia da mostra competitiva de curtas do 59º Festival de Brasília do cinema brasileiro.
Ambientada na zona da mata de Pernambuco, a obra articula códigos de suspense e fantasia psicológica para acompanhar Lélia, uma mulher de 50 anos que, ao retornar ao interior e mergulhar nas águas de uma barragem, tem a percepção fraturada por visões que fundem passado e futuro.
A narrativa do filme se constrói na fricção entre o núcleo de mulheres e a intrusão de uma figura masculina que desestabiliza aquele espaço, e opera no estranhamento. O calor e a vegetação do território são parte da dramaturgia, convertendo o reencontro em um território de confronto simbólico e afirmação de corpos negros diante de tensões históricas de gênero e poder.
A produção impressiona pelo rigor plástico e sensorial. A fotografia de Rafael Amorim é de extrema beleza, captando a terra, as águas da barragem e a luz densa do interior sem cair no exotismo. Aliado a ela, o desenho de som de Alison Santos se impõe com volume e precisão visceral, pontuando os silêncios com frequências e ruídos que amplificam a iminência de ruptura e tornam palpável a vertigem temporal que acomete a protagonista.
Ao costurar alegoria social e cinema de gênero com tanta precisão, Banho de Choque se destaca como um trabalho metafórico e visualmente vigoroso. Cíntia Lima faz de sua primeira ficção um gesto consciente de ocupação estética e política, entregando uma obra que confia na potência de seus signos e na densidade sensorial do cinema pernambucano. Um forte candidato ao prêmio de melhor curta-metragem, ao lado de Cana, de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro.
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BANHO DE CHOQUE
Por Luna Neves
Em Banho de choque, de Cíntia Lima, vemos memórias e mágoas antigas se misturando com o suspense de uma mata deserta. Lélia (Gheuza) retorna à sua cidade natal e se reconecta com o irmão e amigas antigas. Junto dessa reconexão, entretanto, feridas nas relações de Lélia voltam a se abrir, especialmente com seu irmão.
Essa junção de um drama familiar com uma força misteriosa externa não é incomum em tramas de suspense e terror, mas aqui, apesar de apresentar ideias interessantes, se realiza de forma um tanto brusca, que tira um pouco do peso emocional tanto do drama familiar quanto da força externa.
Apesar disso, a sequência onde de fato o terror é explorado funciona bem, com cortes rápidos revelando apenas um pouco daquilo que se aproxima dos protagonistas. Essa montagem constrói uma tensão eficiente até o clímax do filme, que de fato surpreende com sua conclusão.
Banho de choque, então, nos engana em sua primeira metade para apresentar uma situação mais perigosa do que parece, mas falha na sutileza que é tão importante para a construção de sua reviravolta.
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SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA
As mulheres que Brasília decidiu esquecer
por Pedro Paulo Gouvêa
Sabes de Mim, Agora Esqueça é um dos filmes mais interessantes do festival. A proposta de recuperar a memória das profissionais do sexo durante a construção de Brasília é especialmente relevante por abordar uma parcela da sociedade historicamente marginalizada e apagada dos registros sobre a construção da capital.
O próprio título remete a esse apagamento histórico e social, mas o filme leva essa ideia ao pé da letra ao utilizar elementos fantásticos e quase sobrenaturais para contar sua história.
Rúbia está fugindo quando o comboio em que viaja quebra. Ela acaba sendo acolhida por Margô, dona da Toca, um dos poucos cabarés de Ceilândia que ainda resistem à repressão dos Lanternas. É nesse espaço que Rúbia descobre que Margô guarda um segredo há séculos.
O que mais chama a atenção no longa são os elementos fantásticos, extremamente bem construídos, que em diversos momentos remetem ao cinema de Tarkovsky e Lynch. As mulheres são tratadas quase como entidades com poderes próprios, enquanto os diálogos assumem um caráter onírico que contribui para a construção desse universo.
Essa dimensão fantástica também funciona como uma maneira de materializar o próprio apagamento abordado pelo filme. As memórias dessas mulheres deixam de ser apenas parte de um passado esquecido e passam a ocupar um espaço concreto dentro da narrativa.
A sequência final lembra bastante Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, principalmente pela forma como trabalha suas personagens femininas e a relação entre desejo, marginalização e resistência.
As atuações também merecem destaque. O elenco mantém performances consistentes ao longo de toda a obra, conseguindo transitar entre os momentos mais realistas e aqueles de caráter fantástico e onírico.
Por outro lado, o excesso de cenas eróticas acaba reduzindo parte da força do tema. Em determinados momentos, essas sequências parecem prolongadas além do necessário e acabam desviando a atenção da construção das personagens e da própria discussão sobre o apagamento histórico.
Outro ponto que poderia ser mais desenvolvido é a presença dos Lanternas. Apesar de funcionarem como uma força de repressão importante para a narrativa, esse elemento acaba sendo pouco explorado, deixando algumas questões sobre esse universo sem um desenvolvimento maior.
Ainda assim, Sabes de Mim, Agora Esqueça encontra uma maneira original de abordar uma memória historicamente apagada. Ao misturar ficção científica, fantasia e elementos sobrenaturais com histórias ligadas à construção de Brasília, o filme transforma o próprio esquecimento em matéria cinematográfica.
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SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA
No corredor do cabaré do fim do mundo
Por Gabriel Oliveira
Logo nos primeiros minutos de “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, somos introduzidos a um grupo de mulheres em fuga: não sabemos de onde elas vêm nem para onde vão, apenas que se escondem e correm em meio a um jogo de luz e sombras filmado com eficácia. Na escuridão, homens focam suas lanternas para todos os lados incessantemente no encalço dessas mulheres.
Já é de dia quando a perseguição finalmente termina, e, dos trilhos do trem, surge uma mulher mais velha, que se apresenta como Margô, com uma introdução enigmática: “eu tenho 258 anos e já morri 50 vezes”. Se é verdade ou não, não sabemos, mas pronto, está estabelecido o tom de mistério que vai dominar o filme a partir dali, ao mergulharmos na Ceilândia distópica desenhada pela diretora e roteirista Denise Vieira em seu primeiro longa-metragem.
Margô conduz a protagonista Rúbia e as demais mulheres do grupo a um edifício antigo, e lhes oferece roupas e abrigo. É nesse prédio que ficaremos imersos junto a elas pela maior parte da trama. Pouco sabemos do mundo lá fora, além do fato de ser um ambiente inóspito para essas mulheres, todas profissionais do sexo. Quando Rúbia sugere a Margô que vai sair em busca de homens para atender, a mais velha retruca: “se você não tiver medo de morrer”. Assim, a ameaça que paira sobre elas é lembrada a todo momento. Em um dos poucos vislumbres que temos do mundo exterior, os “Lanternas”, como elas se referem a esses agentes repressores munidos de luzes, continuam vasculhando os cantos da cidade em sua busca, enquanto uma voz em um alto-falante alerta para os perigos da prostituição para as famílias.
O que é exatamente esse mundo distópico e como ele funciona pouco importa para o filme, o que acaba se revelando um grande trunfo: “Sabes de Mim, Agora Esqueça” se interessa muito mais em se aprofundar em Rúbia, Margô e todas as outras mulheres que se abrigam nesse cabaré misterioso.
Logo, o espectador fica confinado a esse edifício assim como elas, e descobre aos poucos a natureza fantasiosa desse lugar. Ali, essas mulheres tornam sua invisibilidade literal: elas atravessam paredes, se camuflam, flutuam em cadeiras de bar e exercem plenamente sua sexualidade com os vários homens que visitam o local sem ter lembrança do que aconteceu depois. Mesmo quando elas assumem um papel de submissão no sexo, elas permanecem no comando. Ali, são elas que ditam as regras.
Assim como esse cabaré parece suspenso no espaço e no tempo, “Sabes de Mim” flutua entre dois tons, mas o faz com equilíbrio. Por vezes, temos uma abordagem mais naturalista, quase documental, que transborda o afeto que se tem por essas personagens, como quando elas se reúnem no quarto e conversam sobre suas preferências no cunete. Já em outros vários momentos, Denise Vieira explora a fantasia com toques de David Lynch, em que o que não aparece na tela é tão ou mais importante do que aparece: são estrondos e clarões misteriosos – em um excelente desenho de som, diga-se de passagem -, que sugerem um segredo místico nesse lugar capaz de repelir os repressores e manter essas mulheres seguras.
Podemos não saber o que há no fim do corredor misterioso do cabaré de “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, mas nunca corremos o risco de não nos interessarmos pela galeria de mulheres que nos guiam até lá, e isso é mais do que o suficiente.
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SABES DE MIM, AGORA ESQUEÇA
Filme faz do prazer um abrigo contra o apagamento
por Letícia Passos
Há uma pequena ironia escondida no título de Sabes de mim, agora esqueça. Por 96 minutos, o primeiro longa-metragem dirigido por Denise Vieira faz o contrário do que ordena: insiste para que suas mulheres sejam vistas, ouvidas e lembradas. Exibido na mostra competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme parte de uma Ceilândia distópica para imaginar um futuro no qual profissionais do sexo são perseguidas por uma espécie de força moralista de vigilância. Em fuga, Rúbia (Pietra Sousa) encontra abrigo na Toca, cabaré comandado por Margô (Cida Souza), e entra em um mundo onde aquilo que é condenado do lado de fora encontra, entre quatro paredes, espaço para existir.
Não é por acaso que Denise escolhe um bordel para construir esse refúgio. Antes de dirigir, ela se destacou como diretora de arte de produções como Branco sai, preto fica e Mato seco em chamas, e essa experiência aparece com força em Sabes de mim, agora esqueça. A Toca parece pequena e infinita ao mesmo tempo. Do lado de fora, os trilhos, as lanternas, os ruídos e as pregações religiosas fazem lembrar que existe uma ameaça constante. Dentro, estão o baralho, as conversas, os chinelos, as camas, o sexo e a vida. A Ceilândia propriamente dita quase não aparece, mas está entranhada em tudo aquilo. O prédio usado como locação, inclusive, já funcionou como cabaré.
E que bom que o filme passa tanto tempo dentro da Toca, porque são suas moradoras que fazem Sabes de mim, agora esqueça ganhar vida. Denise construiu boa parte dos diálogos a partir da improvisação e das experiências levadas pelas próprias atrizes às personagens, e a escolha aparece em conversas que parecem existir independentemente da câmera. Elas discutem clientes, práticas sexuais, desejos, limites e sonhos com uma naturalidade deliciosa, transitando de uma piada sobre sexo para o desejo bastante convencional de casar e ter filhos sem que uma coisa anule a outra. Não existe qualquer necessidade de transformar aquelas mulheres em símbolos permanentes de sofrimento para justificar o interesse por elas. Rúbia, Melina, Margô e companhia podem ser engraçadas, vulgares, românticas, cansadas, excitadas e contraditórias. Enfim, gente.
Margô talvez seja a melhor tradução desse encontro entre o cotidiano e o fantástico. Logo de cara, a personagem afirma ter 258 anos e já ter morrido 50 vezes. A informação é absurda, claro, mas dentro daquele universo quase não importa decidir se devemos entendê-la literalmente. Há algo de ancestral nessa mulher que acolhe outras tantas e permanece de pé enquanto o mundo insiste em persegui-las. Cida Souza interpreta a dona da Toca sem transformá-la em uma grande sacerdotisa solene. Margô joga, briga, ri, administra o cabaré e exerce a própria sexualidade. O fantástico, quando funciona melhor no longa, aparece misturado à banalidade até que já não seja possível determinar exatamente onde termina uma coisa e começa a outra.
O sexo segue a mesma lógica. Sabes de mim, agora esqueça é explícito, bastante explícito, mas curiosamente há pouca vontade de escandalizar. Denise filma sexo porque aquelas personagens fazem sexo, gostam de sexo, trabalham com sexo e estabelecem suas próprias regras em torno dele. A montagem de Frederico Benevides transforma a sucessão de corpos em movimento quase coreografado. O que poderia facilmente se reduzir à provocação ganha outra textura porque a câmera não trata o prazer feminino como recompensa ao olhar de alguém. Dentro da Toca, são elas que determinam como, quando e sob quais condições aqueles corpos serão tocados.
Tal liberdade torna ainda mais curioso que justamente a ficção científica seja a parte menos sedutora da produção. Os Lanternas funcionam muito bem como imagem de uma vigilância moral que mistura poder político, religioso e masculino, enquanto o dispositivo escondido no fundo de um corredor, capaz de mexer com a memória dos homens, dá ao título uma dimensão bastante inteligente.
O problema é que Sabes de mim, agora esqueça abre tantas portas fantásticas que nem sempre parece interessado em atravessá-las. O mundo para além da Toca permanece propositalmente nebuloso, e isso favorece a sensação de clausura, mas também deixa algumas ideias apenas esboçadas. A própria mitologia em torno do esquecimento poderia receber a mesma atenção dedicada à intimidade das personagens. Quando o filme precisa construir seu universo distópico, por vezes sentimos o mecanismo; quando simplesmente observa aquelas mulheres vivendo, tudo parece muito mais livre.
Talvez essa diferença revele, no fundo, onde realmente está o interesse de Denise Vieira. Sabes de mim, agora esqueça nasceu de uma pesquisa sobre profissionais do sexo durante a construção de Brasília, mulheres que aparecem de maneira lateral (quando aparecem) na memória oficial erguida em torno da capital. O longa chega ao futuro carregando essas figuras que ficaram pelo caminho no passado. Não pretende reconstituí-las de maneira histórica ou transformá-las em mártires. Prefere imaginar que sobreviveram, encontraram umas às outras, montaram um cabaré e continuaram fazendo sexo, contando piadas, sonhando e escapando, sempre que possível, daqueles que insistem em decidir como uma mulher deveria usar o próprio corpo.
Pode até haver coisas no filme que merecessem ser mais desenvolvidas. Difícil, porém, terminá-lo obedecendo ao seu título. Vieira construiu uma ficção sobre pessoas que um determinado projeto de sociedade preferiria não enxergar e, numa espécie de vingança cinematográfica, colocou essas mesmas mulheres no centro da tela, do prazer e da própria história. Os homens entram na Toca e precisam esquecer o que viram para que aquele lugar continue existindo. Para quem está do outro lado da tela, a proposta parece ser exatamente a contrária.















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