
Três Vezes Adeus
Isabel Coixet dirige um melodrama convencional que, ainda assim, intriga
Por Humberto Silva | 18.09.2026 (sexta-feira)
Premissas que levo em conta sempre que me aproximo de um filme com a finalidade de escrever sobre ele: ser justo com a seriedade do trabalho e, com isso, não usar gratuitamente adjetivos desabonadores; considerar o envolvimento, intenções tácitas ou não do diretor (ou diretora) em sua realização; e em decorrência procurar uma escala, critérios em sentido estrito, para proferir julgamento.
Quer dizer, tenho como pressuposto para a emissão de juízo de valor a adoção de escalas diferentes para avaliar o filme de uma diretora (ou diretor) consagrado, com uma obra estabelecida, e um diretor (ou diretora) com circulação marginal ao mainstream ou debutante ou veterano que, no meio, não seja exatamente estrela de primeira ordem.
Essa escusa, como espero esclarecer na economia da escrita adiante, acho necessária ao me propor a escrever sobre Três Vezes Adeus, coprodução ítalo-espanhola dirigida pela catalã Isabel Coixet, falada em italiano e filmada em Roma. Trata-se, pois, de um filme dirigido por uma diretora sexagenária à qual fui apresentado, justamente, por esse filme.

No filme de Isabel Coixet, a separação acontece logo no início, deixando à narrativa o acompanhamento paralelo das vidas de Marta e Antônio.
Decerto, Coixet, bastante profícua, está na estrada há um bom tempo: quase quatro décadas e mais de uma vintena de filmes na bagagem. Sua presença, porém, me escapou e, respeitado seu trajeto, não a enxergo em meu horizonte de referências como estrela de primeira ordem.
Assim sendo, é com o devido cuidado que, ao confessar essa lacuna em meu repertório (não a vi nas diversas vezes em que ela esteve na Mostra de Cinema de São Paulo), procuro um lugar, uma escala apropriada, para situar como assisti a Três Vezes Adeus.
O assunto do filme? Um casal sem filhos que caminha para a meia idade, Marta e Antônio, se separa abruptamente após um entrevero banal e de efeito cosmético em qualquer relacionamento conjugal. Como decorrência, as sequelas com a separação, ressentimentos, hesitação quanto à decisão tomada, o que dá a entender ser resultado de gesto impulsivo de um dos cônjuges…
Dá a entender, pois Coixet, por meio de flashbacks em momentos alternados da narrativa, exibe cenas de felicidade entre os dois ao mesmo tempo em que suspende, com o recurso da elipse, situações de tensão que poderiam explicitar uma crise no casamento.
A trama? A separação ocorre nas primeiras sequências. Três Vezes Adeus se centra, então, em como cada um dos dois conduziu a vida separado. E a opção narrativa adotada por Coixet foi a de acompanhar paralelamente os caminhos que cada um tomou.
Professora de educação física numa instituição escolar, Marta recolhe-se e ensimesma-se, inconformada com o rumo que sua vida tomou… Chef em um badalado restaurante na agitada Roma, Antônio se entrega ao trabalho com sentimento de culpa por ter desencadeado a “situação-limite” que levou à separação… Os caminhos paralelos seguidos pelos dois findam num reencontro lutuoso nas sequências finais…

No filme de Isabel Coixet, a felicidade aparece em flashback e a crise fica suspensa na elipse.
O que me impressionou sobremaneira em Três Vezes Adeus é a “monumental” falta de originalidade do assunto e o modo convencional com que foi filmado. Isabel Coixet com esse filme me fez lembrar apelativos melodramas que via na Sessão da Tarde na Rede Globo décadas atrás (Suplício de uma saudade, 1955, et alii). Isso me suscitou uma curiosidade: entender as razões que a levariam a realizar um filme com tema tão batido, de maneira tão pouco pretenciosa…
A escusa que dei então e seu sentido: eu precisaria ver o trajeto de Coixet, suas possíveis obsessões expressas em outros filmes, e assim quem sabe ter elementos para fazer um juízo apropriado de Três Vezes Adeus. Ou seja, apesar de ter me desagradado, ao tomar conhecimento do que ela já fez, Três Vezes Adeus tem o mérito de atiçar minha curiosidade para ver outros filmes dela.
De sorte que, não tendo conhecimento sobre motivos que eventualmente acompanhem a obra de Coixet, me é difícil compreender, para além do melodrama convencional, uma situação que me intrigou: Agostino, colega que trabalha na mesma escola de Marta, e com o qual ela acaba se envolvendo, cita para ela passagem do livro O homem é aquilo que come, de Ludwig Feuerbach.

Em “Três Vezes Adeus, uma referência aparentemente deslocada a Feuerbach transforma um melodrama convencional em um objeto que pede outra escala de julgamento.
O que me intrigou com a citação de Agostino? Nem Agostino nem o filme em si se exibem com presunção intelectualizante. Os diálogos entre todos os personagens em Três Vezes Adeus são coloquiais, sem ambições além de aludirem à condição existencial dramática em que se encontram. A citação explícita de Feuerbach acaba sendo casual, e ela se torna tão mais intrigante quando em outra situação Agostino além de Feuerbach faz alusão a Hegel e Marx.
Suspeito, apenas suspeito, há uma senha com a qual Coixet propõe uma ironia. Não creio que ela ignore o risco de pôr na boca de um personagem a alusão a filósofos de modo tão inesperado. Uma citação descontextualizada de um filósofo quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo. Em contraste, uma fala casual, obviamente, pode conter filosofia sem a presunção filosófica que se pode aduzir ao se referenciar explicitamente a um filósofo.
De modo que se Coixet não teve intenção de dar sentido de ironia – surpreendentemente uma pérola para intrigar um espetador desatento ou que esperaria apenas o trivial num melodrama de Sessão da Tarde –, a aparição “gratuita” de O homem é aquilo que come torna Três Vezes Adeus um intrigante objeto para situá-lo em uma escala na qual, de modo justo, se possa o ajuizar.















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