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Festivais

59º Brasília (2026) Oficina Crítica, 16.set.

Densidade de personagens e escatalogia bem produzida

Por Luiz Joaquim | 18.09.2026 (sexta-feira)

– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na foto acima, cena do filme Privadas de suas Vidas.

PRIVADAS DE SUAS VIDAS

Horror não pede licença à digestão

por Robertta Rangel

Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner estreiam Privadas de suas vidas no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro antes de partir para o Festival do Rio e após passarem por festivais como IFRR e Fantasia. O filme é um horror escatológico que já mostra a que veio logo no prólogo, chocando de imediato os desavisados que entraram no cinema sem saber do que se tratava.

Numa paródia à comédia de costumes, a narrativa se ambienta em um edifício no centro de São Paulo para acompanhar uma mulher em luto, que psicossomatisa o trauma na incapacidade de fazer cocô. O trama parte da premissa absurda de que os sanitários desse edifício se rebelam com violência assassina, transformando uma celebração familiar de vizinhos em um massacre sangrento. Esse atrito doméstico e a hipocrisia das relações de condomínio servem de estopim para os realizadores liberarem um humor ácido, onde a convenção social é engolida pela podridão dos canos. Metáfora que se expande na figura da jovem que faz leitura de fezes e secreções. Se cada um tem a sua própria privada, cada um também retém e recusa processar os próprios dejetos emocionais.

Se a aposta estética caminha no limite do grotesco, o elenco garante a excelência do filme. Martha Nowill, Otávio Müller, Olívia Torres, Chandelly Braz, Marco Pigossi, Regina Braga, Maria Gladys, Caetano Gotardo e Benjamín Damini compram a bizarrice sem hesitar, transformando cada embate e explosão corporal em momentos de puro descarrego cênico.

Ainda assim, o mergulho irrestrito no horror escatológico cobra seu preço. O exagero visual, as secreções e o gore escrachado colocam a sensibilidade do público à prova o tempo todo. Para além das leituras sobre trauma familiar, aceitação e hipocrisia de classe, Privadas de suas vidas é uma experiência feita para testar limites, e não é recomendada para quem tem estômago fraco.

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Cena de “Privadas de Suas Vidas”

PRIVADAS DE SUAS VIDAS

Densidade de personagens e escatalogia bem produzida

por Carolina Martins

Uma mulher sentada na privada, em plano médio, fazendo cocô. Corta para o close no resultado, dentro do vaso. Essa é a cena de abertura de Privadas de suas vidas – honesto com o espectador desde o princípio. O filme de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner é um terror de objetos assassinos, com muita escatologia e sangue na tela, no clássico estilo gore. Mas, não é só isso.

Como bem sugere o nome, as privadas são o elemento central do longa. Tudo começa quando Malu (Martha Nowill), uma mãe solo, produtora de festas, perde um dos filhos gêmeos, ainda criança, em um acidente trágico no vaso sanitário. Até aí, não há, ainda, nenhum elemento do universo fantástico – foi um acidente horrível, mas real. Uma tragédia que pode, de fato, acontecer. E isso choca muito mais.

A partir de então, acompanhar a trajetória dessa mãe se torna imprescindível – é o que o prende a atenção mesmo de quem é menos afeito ao gênero do filme.

Anos se passam. O corte temporal se dá com Malu novamente no banheiro, mas dessa vez não em uma privada. Desde a morte do filho, ela nunca mais conseguiu sentar num vaso sanitário e sofre de constipação crônica – uma alegoria certeira pro luto mal digerido.

E esse não é o único drama materno de Malu. Ela também vive às voltas com Gênesis (Benjamin Damini), pessoa adolescente não-binária que exige o reconhecimento de sua identidade pela mãe. A densidade dessa trama e a performance de Martha e Benjamin dominam a tela na primeira metade do filme. Fica fácil apenas fechar os olhos ou abaixar a cabeça para não ter que lidar com as cenas de vômito, catarro e fezes que salpicam vez ou outra diante dos olhos.

Mas, para agradar os fãs da escatologia clássica e das representações gráficas de vísceras e dejetos, na segunda metade do longa, temos, literalmente, uma enxurrada disso tudo. As privadas do condomínio onde Malu vive em São Paulo ganham vida, se tornam assassinas e vão levando embora os vizinhos de forma tragicômica – umas mais trágicas que outras, mas todas constrangedoras e igualmente nojentas.

Nesse ponto, o problema não é do filme, e sim de quem não gosta desse tipo de terror. A produção é muito bem feita. Os efeitos visuais são de qualidade, não é um filme amador. Ao contrário, o longa foi produzido pela RT Features, mesma produtora de Ainda estou aqui.

Na sessão de debate sobre o filme, realizada nesta quinta-feira (17) em Brasília, a representante da empresa que estava presente foi perguntada sobre o orçamento de Privadas de suas vidas. Fernanda Frotte limitou-se a dizer que “não chegou a R$ 5 milhões”. Tentou tirar o peso do investimento, mas o valor é pelo menos o dobro que filmes independentes de médio porte, do mesmo gênero, conseguem com algum tipo de incentivo. A aposta foi alta.

Privadas de suas vidas está longe de ser um filme agradável, e nem é esse o objetivo. Mas, a premissa, as atuações e acompanhar a construção complexa das personagens centrais fazem valer as quase duas horas do longa – ainda que com algum (muito) desconforto.

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PRIVADAS DE SUAS VIDAS

“Esse aqui é um filme de merda.” Mas isso não é uma crítica.

Por Pedro Paulo Gouvêa

Privadas de Suas Vidas foi uma grata surpresa do festival para os amantes do terror e do cinema trash. O filme acompanha Malu, uma mãe que ainda lida com o luto pela morte de um dos seus filhos gêmeos e vive em conflito com Gênesis, seu filhe adolescente não binárie. Quando uma maldição transforma as privadas do prédio onde vivem em criaturas assassinas, o conflito familiar se mistura a um verdadeiro pesadelo.

A ideia de privadas assassinas é uma clara homenagem aos clássicos do cinema trash que transformam objetos em assassinos, como Christine, The Blob e A Camisinha Assassina. E aqui não falta escatologia, que está presente em praticamente toda a narrativa e pode afastar um público mais sensível.

O ponto mais forte do filme são seus efeitos práticos, extremamente bem feitos e nojentos. Existe uma cena envolvendo cordões umbilicais que é particularmente agoniante, muito por conta desses efeitos. O filme não tenta esconder sua sujeira: ele a coloca na frente do espectador e parece sempre querer descobrir até onde consegue levá-lo.

Mas o filme não se resume apenas à matança desenfreada e à nojeira. Ele traz uma comédia genuinamente engraçada, que arrancou risos de muitas pessoas na sala durante a exibição, ao mesmo tempo em que constrói críticas sobre transfobia, abuso parental, a falsidade de influenciadores digitais e outras tensões presentes nas relações entre os personagens.

Esse filme tem um ar quase anarquista de contar sua história. Ele quer falar sobre assuntos difíceis, mas resolve fazer isso dando um dedo do meio e chocando os espectadores a cada cena. Em muitos momentos, parece que o filme não pode ser mais absurdo, e ele consegue ir ainda mais longe. A todo momento ele quer provocar desconforto, e faz isso de maneira extremamente eficiente.

Talvez seja justamente aí que esteja sua maior força: usar toda essa violência, escatologia e absurdo para falar sobre coisas muito humanas. É um filme sobre lidar com as próprias merdas, amar as pessoas que estão ao seu lado todos os dias e aceitar e respeitar a sexualidade e a identidade de gênero de cada um.

Para mim, o mais forte de Privadas de Suas Vidas é mostrar que é possível fazer cinema de terror e trash de qualidade no Brasil sem abandonar o humor, a crítica e, principalmente, a vontade de incomodar.

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FUTURO DECADENCE

Heróis do interior.

Por João Felipe Soares

É partindo da necessidade de contar e documentar histórias que o bom cinema nasce. Leviathan nos presenteia com um documentário sobre a cena underground de Maceió na década de 90. Somos levados às dificuldades de se organizar eventos underground, ainda mais naquela época. A obra reúne bastante material documental que, combinado a uma montagem mágica, parece fazer parte de um projeto de décadas.

A conteúdo parte das dificuldades e da expectativa que os encontros underground geram nos organizadores e frequentadores. Navegando por discursos diferentes, Leviathan passa sua mensagem. Se hoje já é uma operação de guerra organizar um evento underground, naquela época a dificuldade alinhada ao preconceito fazia alguns eventos parecerem impossíveis. Um belíssimo lembrete de que a festa tem que continuar.

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FUTURO DECADENCE

Por Pedro Paulo Gouvêa

Futuro Decadence já inicia extremamente bem, com uma sequência acelerada, acompanhada por uma música eletrônica eletrizante e uma fotografia extremamente instigante. Desde o começo, o filme já deixa claro o ritmo e a energia que vai carregar durante toda a sua duração.

Aqui vemos a história da criação das primeiras baladas de shows drag em Maceió e as dificuldades que isso trouxe. O filme mergulha muito bem nessa subcultura tão forte e mostra como essas pessoas são apaixonadas e dedicadas a esse universo.

Existe algo muito interessante na relação entre a decadência e a resistência presente no filme. Mesmo diante das dificuldades e de uma cidade que muitas vezes parece não oferecer espaço para essas pessoas, elas encontram maneiras de criar seus próprios espaços de expressão e felicidade. A decadência do cenário acaba contrastando com a energia e a criatividade que surgem desses lugares.

É realmente inspirador ver o quanto essas pessoas lutaram para encontrar seu espaço de expressão e felicidade, transformando esses ambientes em lugares de encontro e pertencimento.

Há de se elogiar também os números criados para o filme, que possuem um alto valor de produção e são muito bem filmados. As performances carregam toda a energia que o filme apresenta desde o primeiro minuto.

Futuro Decadence é um filme que encontra na própria noite, na música e na performance uma forma de mostrar resistência, comunidade e a busca por um espaço onde essas pessoas possam simplesmente existir.

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FUTURO DECADENCE

Curta-metragem encontra no passado de Maceió uma memória que insiste em dançar

por Letícia Passos

Para o sociólogo francês Maurice Halbwachs, referência nos estudos sobre memória coletiva, lembrar também é escolher: cada sociedade reconstrói o passado a partir daquilo que ainda faz sentido no presente. O curta-metragem Futuro decadance, exibido na mostra competitiva do 69º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, leva  o espectador em uma viagem fantástica e não linear pela cena LGBTQIA+ maceioense e pelas noites que ajudaram a construí-la.

Entre arquivos pessoais, relatos e fabulação, Leviathan transforma lembranças de festas, pistas e personagens em algo maior que a nostalgia de quem esteve lá. O que antes pertencia a registros particulares passa a compor uma memória compartilhada, de uma comunidade que, ao guardar os vestígios de suas próprias noites, também garante que sua existência não desapareça com elas.

Durante os 21 minutos da produção, são palpáveis suas intenções e sua importância. Preservar a memória de uma comunidade por vezes dupla ou triplamente marginalizada é, sim, de interesse coletivo, não apenas daqueles que se reconhecem como parte dela, mas da sociedade como um todo. Esse mérito jamais deve ser ignorado.

Lamentavelmente, no entanto, a execução não satisfaz completamente e deixa a desejar diante da grandeza dos personagens retratados e de todos os envolvidos na produção.

Embora as cenas com A Viajante, interpretada por Seven Colby, que percorre um caminho de volta ao passado com um ingresso para a festa Futuro decadance, sirvam ao propósito de comunicar, como o próprio curta diz, que “eu nasci de você e você nasceu de mim”, ou seja, que as novas gerações da cena LGBTQIA+ e clubber só existem porque outras vieram antes e abriram caminho, elas não têm o mesmo impacto. Ao contrário, acabam nos afastando justamente das passagens documentais, muito mais imersivas, emocionantes e, por vezes, até engraçadas.

A direção dessas passagens também poderia explorar melhor as possibilidades visuais do filme, sobretudo nas cenas de ballroom. Os planos escolhidos são um tanto convencionais e pouco inventivos, e decisões mais ousadas de enquadramento, movimento e montagem poderiam tornar essas sequências mais envolventes, pulsantes e até mágicas.

Os relatos e retratos de Decadance, porém, são uma delícia de acompanhar. Os subversivos donos de boate e promoters de festas se orgulham de serem, como afirmam, “esquisitos”, e conseguem fazer com que o próprio público também se sinta parte daquele universo — e tenha orgulho disso —, mesmo chegando a ele anos depois, mesmo conhecendo tudo apenas por meio das lembranças de quem viveu aquela cena. Esses momentos são, sem dúvida, o ouro do curta-metragem.

Futuro decadance não é revolucionário, não é o próximo Paris is burning, tampouco o melhor curta do Festival. Mas é um retrato importante de gerações de pessoas LGBTQIA+ que se propuseram a resistir, fazer arte e preservar a própria memória. O resgate feito por Leviathan lembra que aquilo que uma comunidade escolhe guardar do passado também ajuda a determinar o que ela poderá ser no futuro. Talvez esteja aí a maior força do filme: fazer com que aquelas noites, aqueles “esquisitos” e tudo o que construíram não pertençam apenas a quem esteve lá.

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LAGOA DO ABANDONO

Belíssimos quadros.

Por João Felipe Suares

Lagoa do Abandono conta a história de um casal de garças vivendo em um ninho cercado pela civilização. Um canteiro de obras próximo avança para perto do ninho, e o casal vê seus três ovos ameaçados pela atividade humana. Como em todo bom conto, os humanos conseguem destruir aquilo que não é deles, sem pensar em qualquer consequência. Com isso, o casal, depois de ter o ninho destruído, avança para o céu em uma cena linda, revelando-se como “espíritos da natureza”, representando vários animais numa sequência hipnotizante. Ao chegarem ao céu, explodem todo o canteiro e reiniciam a vida que ali existia.

Para uma linda história, um belíssimo filme. A cada quadro da história, um desenho incrível, um capricho sem igual, em uma estética única e firme durante todas as cenas. Não há desfoque de movimento. São menos quadros por segundo do que o padrão e, mesmo assim, não há desfoque. Uma estética que combina com a história e passa a impressão de que estamos virando página por página de um belíssimo livro de contos.

Para completar, temos um design de som contrastado, acompanhando a tensão de cada cena. Cada quadro desse filme é, por si só, uma obra de arte.

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LAGOA DO ABANDONO

Por Pedro Paulo Gouvêa

Lagoa do abandono é uma animação belíssima, que, sinceramente, apresenta uma arte que se destaca mesmo ao lado de animações renomadas e de grandes orçamentos.

A animação chama atenção não apenas pela beleza dos desenhos, mas pela maneira como constrói esse mundo decadente. Existe um contraste muito interessante entre a delicadeza e a beleza das imagens e o cenário de lixo, poluição e abandono em que os personagens vivem. Mesmo mostrando um futuro destruído, o filme consegue fazer com que esse mundo continue sendo visualmente encantador.

Aqui acompanhamos um casal de garças sobrevivendo em uma Fortaleza decadente de 2040, tomada pelo lixo e pela poluição.

A cena que mais me marcou no curta é quando vemos uma sequência de espíritos de diferentes animais, um saindo de dentro do outro. A imagem parece representar uma união entre todos esses animais, como se a força coletiva da natureza fosse necessária para se revoltar contra um mundo que não se importa em preservá-la.

E acho que, no final, o filme aponta para uma possível mudança nas futuras gerações. O trabalho começa na educação e na transformação da nossa relação com a natureza, para que assim possamos construir um mundo mais sustentável.

Lagoa do abandono consegue transformar uma história sobre a degradação da natureza em uma experiência visualmente marcante, usando a beleza da animação para imaginar um futuro que ainda pode ser diferente.

 

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