
59º Brasília (2026) Oficina Crítica, 15.set.
Sobre “Todo o Sentimento”, “Cana” e “Descarrilho”
Por Luiz Joaquim | 17.09.2026 (quinta-feira)
– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na foto acima, cena do filme Todo o Sentimento.
DESCARRILHO
por Luna Neves

“Descarrilho”
Com uma premissa enigmática e linguagem visual ambiciosa, Descarrilho aposta no surrealismo e em uma narrativa não-convencional para analisar a culpa. No curta-metragem de Aline Gutierres, Renata (Jéssica Teixeira) vive em um lugar misterioso, nunca explicado, que aparenta estar fora da realidade, onde é atormentada por sonhos envolvendo uma outra personagem que, presumidamente, sofreu algo por conta da protagonista.
Nem todo filme precisa ter um significado. Inclusive, ter mais perguntas que respostas muitas vezes é o que faz um filme ser muito bom. No caso de Descarrilho, entretanto, os elementos do filme parecem não construir uma ideia, mas sim flutuar pelo curta sem muita direção, e isso se torna frustrante por ser possível encontrar méritos nas atuações e direção do filme, mas que infelizmente são prejudicadas por um roteiro que não parece dizer muita coisa.
Então, Descarrilho acaba deixando um sentimento de tristeza pelo que poderia ter sido, mas também de vontade de ver o que a diretora pode alcançar trabalhando com uma obra mais coesa.
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Cena de “Cana”
CANA
por Luna Neves
Dirigido e escrito por Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro, Cana nos intriga desde o primeiro momento do filme. O espectador é colocado em um mundo de hostilidade e injustiça onde nunca se sabe o que pode acontecer em seguida, e assim, acompanhamos nossos protagonistas em um filme marcado por tensão e medo.
Tensão, especificamente, é o sentimento que de fato melhor descreve o curta. Tudo parece ameaçar os protagonistas de formas diferentes e somos colocados constantemente em um lugar de desconfiança de tudo ao nosso redor. Dessa forma, como audiência, somos levados a questionar em quem e no que podemos confiar nossa existência política e no quão próximas estão as ameaças institucionais às pessoas pretas.
Com atuações sólidas, direção inteligente e linguagem visual marcante, Cana consegue se destacar e ser lembrado entre dezenas de outros filmes que são exibidos em um festival de cinema, desafiando o espectador e deixando muito a se pensar após ser assistido.
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Cena de “Todo o Sentimento”
TODO O SENTIMENTO
Quando o afeto supera a distopia
por Carolina Martins
Imaginar um Brasil onde o grupo da extrema-direita triunfou no intento do golpe de Estado e saiu vitorioso depois de invadir os prédios que simbolizam os três Poderes, em Brasília, no fatídico 8 de janeiro de 2023. Um cenário distópico (ainda que não distante) de violência e autoritarismo, batizado com o nome de uma música de amor de Chico Buarque. Parece uma dicotomia, mas, pelo título, Todo o sentimento confirma o cinema de afeto de Glenda Nicácio e Ary Rosa.
O longa é o oitavo filme que os dois produzem juntos. Na filmografia, Ilha (2018) precisa ser destacado – é a partir dele que Todo o sentimento acontece. O roteiro traz uma espécie de spin-off, mostrando como o regime opressor atingiu a vida do cineasta Henrique, um dos protagonistas do filme anterior. O ator Aldri Anunciação volta para interpretar o diretor de cinema, oito anos mais velho.
Não é preciso ter visto Ilha para compreender o novo filme. O roteiro de Ary não é nenhuma continuação que gera prejuízos para quem perdeu a primeira parte. Mas, quem assistiu consegue perceber referências, inclusive nos diálogos com Gustavo (Lucas Leto), que aparece na nova trama para compor a história, formando o casal que simboliza a resistência. Do outro lado, o da opressão, uma caricatura de pastores, jornalistas e políticos que lideram o que se tornou a teocracia brasileira.
No filme, a interação entre os dois mundos é fria, se dá apenas por meio da televisão. Programas histriônicos e sensacionalistas, sempre um tom acima, evidenciando o que seria absurdo, se não fosse tão factível nos tempos em que vivemos. Há ainda uma diferença estética: mudam as cores e as texturas para denotar o abismo entre as duas realidades.
Para quem assiste, o terror de imaginar um cenário distópico que sai das telas e se torna real – já que discursos muitos semelhantes permeiam nossa sociedade nos dias de hoje – acaba sendo suplantado pela esperança que Todo o sentimento deposita no amor, no cuidado e no desejo. Henrique e Gustavo decidem viver esses sentimentos da maneira possível, isolados e na clandestinidade, a despeito da perseguição, do medo e das consequências concretas impostas pelo regime teocrático.
A alegoria usada para representar uma dessas consequências é o cerne do filme – e também a parte mais sensível a críticas. Henrique se tornou uma pessoa com deficiência. E aqui cabe refletir sobre a visão capacitista que enxerga a cadeira de rodas como uma punição. No entanto, é preciso considerar também que, ao contrário do que queriam os persecutores de Henrique, ser cadeirante não acabou com ele. Se algumas representações foram problemáticas, e foram, o personagem como um todo é um homem autônomo, independente, que vive sozinho por escolha até a chegada de Gustavo; e que encerra a jornada provocando desejos, conduzindo a si mesmo, literal e metaforicamente. Parafraseando Chico na música que nomeia o filme, num “tempo que refaz o que desfez, que recolhe todo o sentimento e bota no corpo uma outra vez”.















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