X

0 Comentários

Entrevistas

50ª MostraSP (’26) Entrevista: Renata de Almeida

Mostra de SP celebra 50 edições ao lado do melhor cinema

Por Luiz Joaquim | 14.10.2026 (quarta-feira)

– Renata de Almeida em foto de Mario Miranda Filho/agencia foto

A partir da amanhã (14), os paulistanos, e não só eles, começam a viver sua tão esperada anual quinzena de prazeres cinematográficos guiada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Neste ano, ela chega robusta celebrando sua 50a. edição, trazendo 380 títulos de 93 países espalhados em 57 salas de cinema e espaços culturais da capital paulista.

O filme que abrirá a Mostra é Tigre de Papel, do homenageado desta edição, o cineasta norte-americano James Gray. A propósito da homenagem, a diretora da Mostra de São Paulo, Renata de Almeida, compartilha nesta entrevista a importância de jogar luz também sobre um cinema mais elaborado técnica e criativamente. Diz ainda sobre as expectativas e desafios de montar a simbólica edição de 50 anos, da qualidade das séries brasileiras e do livro de memórias que lança a partir do que viveu desde a 13a edição da Mostra.  Confira

entrevista RENATA DE ALMEIDA 

Datas redondas são sempre provocadoras para quem produz eventos. Quase intimidadoras no sentido de que nós nos cobramos fazer algo melhor do que já fazemos. Na verdade, há um mercado que nos cobra reinvenção o tempo todo, às vezes mais do que gostaríamos, você concorda com isso? E o quanto isso é um peso na composição de cada edição da Mostra?

Há uma expectativa grande todos os anos em torno da Mostra. E você pode imaginar o tamanho disso para esta edição. A expectativa é intimidadora sim, mas nós vamos atendê-la. Agora, o resultado é fruto sempre de muito trabalho e cada vez mais ferramentas como a Lei Rouanet, por exemplo, parecem quase uma verba extra para promover as empresas, e ela não foi criada com esse intuito. A lógica do marketing costuma valorizar o que é novo, e o desinteresse pela história é grande. A roda da cultura não deveria funcionar assim. Mas também há motivos para alegria. A Petrobrás vai estar com a gente também em 2027. 

Mesmo com a instabilidade política que se estabeleceu com o resultado no 1º  turno destas eleições?

Sim, temos um contrato. Sobre as eleições, ele [Flávio Bolsonaro] não é o meu candidato, e não se trata de preconceito. Temos de respeitar a decisão dos outros, mas a gente sabe o que foi o Governo Bolsonaro. Como a cultura, a saúde e a educação foram tratadas. Tivemos provas disso. Então não é preconceito, é um pós-conceito.Tudo foi muito difícil. 

A Mostra homenageia este ano James Gray, mas também liga os holofotes sobre o indiano S. S. Rajamouli e Paulo Branco. Ano passado celebrou o Panahi que estava à todo vapor com a Palma de Ouro, mas também a Euzhan Palcy, da Martinica; em 2024, Coppola, mas também destacou o cinema do Raoul Peck. Queria que você falasse um pouco dessas escolhas. 

A gente pensa a Mostra também como esse lugar de celebração. James Gray é um dos grandes diretores da nossa atualidade. Ele fala das relações humanas sem esquecer das questões políticas, mesclando tudo com um cuidado cinematográfico notável. É importante homenagear um profissional com o seu apuro. Chamar a atenção para o bom cinema. Veja Naza [de Yuval Abraham e Rachel Szor]. É um documentário para ver num cinema e a gente sabe que há outros docs. que são matérias televisivas. No cinema brasileiro, a gente valoriza muito o conteúdo, tudo bem, está certo, mas nem sempre precisa chegar numa tela de cinema. Quando a gente homenageia James Gray, a gente tá dizendo que o cinema também é cuidado técnico e criativo. E trazer o S.S. Rajamouli e destacar um trabalho de olhar para a Índia que começamos há alguns anos. Lá os números sempre impressionam e o Rajamouli é um cineasta que fez a Índia parecer pequena. Fez um sucesso mundial com um cinema anticolonialista e muito popular. E também o Paulo Branco, um produtor com mais de 300 filmes no currículo, tendo passado não só pelo cinema português e europeu mas também norte-americano. É um exemplo de alguém que faz cinema como pode e gera filmes corajosos. Uma curiosidade é que o seu 2º filme foi exibido na Mostra mas ele nunca veio para cá.

As séries brasileiras vêm ganhando força nos streaming e não é de hoje. Percebo que as mostras de cinema estão se tornando espaços importantes como plataformas de lançamento dessas produções. Estou enganado ou esta é uma primeira edição da Mostra dedicando espaço para séries?

Desde o The kingdom [de Lars Von Trier] que a gente flerta com as séries. Também exibimos Chê, do [Steven] Soderbergh, exibimos Fassbinder. Neste ano teremos a série restaurada do [Maurice] Pialat – La maison des bois, de 1971. E, entre os nacionais, dois destaques são Sócrates brasileiro, de Walter Salles, e Leve Chico, de Marianna Brennand. São séries com qualidade cinematográfica. Então, o que fizemos foi só dar um nome – “Mostra em Série”, ou seja, estamos só organizando algo que já existia de maneira anárquica na Mostra. Na verdade, não gosto de criar divisões… filmes de mulher, filme queer… porque gosto que o acesso seja o mais abrangente possível.

Quero falar do site ‘Acervo’. Essa é uma ideia tão boa e rica para jornalistas, pesquisadores e cinéfilos que eu até me pergunto por que o site só nasceu agora. 

Olha, deu trabalho. Os antigos sites da Mostra sempre foram muito acessados. Lembro que na 20a edição chegamos a criar um CD-ROM. A gente tinha essa preocupação. Sabíamos que as pessoas procuravam. O problema é que o site de uma edição não conversa o de outra edição, daí decidimos: vamos fazer um site de acervo. Temos um custo e o louco é que quanto mais visualizações tivermos, mais teremos de pagar. Mas temos o compromisso de deixá-lo vivo o ano inteiro. 

50 edições é um marco que poucas mostras e festivais alcançam. É muito tempo, são muitas histórias e algumas delas estão no seu livro Antes que eu me esqueça. Queria que você falasse um pouco do critério de composição do livro. Imagino a dificuldade de decidir o que incluir e o que deixar de fora.

Leon [Kacoff] fez um livro quando a Mostra completou 30 anos, que eu nunca tinha lido, e até vamos disponibilizá-lo em PDF. Daí começaram a falar: Não vai fazer para edição 50? Já tem dois anos, a ideia do livro, mas fiquei pensando por um ano inteiro. Daí cheguei a conclusão que só eu poderia escrevê-lo e teria de ser num tom pessoal. A Mostra completou 50 anos, eu, 60, e essas datas redondas empurram a gente para a reflexão. No livro falo de opções que deram erradas, como as consertamos, de como fazer melhor no passo seguinte, falo de mal entendidos e como consertar as coisas e, claro, tem muitos “causos” pitorescos. É uma perspectiva a partir da 13a edição, quando entrei na Mostra. Os parâmetros são os que vivi, daí entra o processo da doença do Leon, a maternidade e o trabalho. Eu até fiquei meio constrangida em trazer alguns aspectos assim, mas agora estou feliz com o resultado. Eu sou irônica e mesmo nas situações difíceis eu me coloco assim. Acho que ficou gostoso de ler.

Pra terminar, uma pergunta diferente. 50 anos é muito tempo na vida de qualquer pessoa. Uma boa medida pra gente entender isso é lembrar o que a gente estava fazendo há 50 anos? Renata, o que você estava fazendo em outubro de 1977? 

Eu nasci em 14 de novembro de 1965, então em 1977 eu estava ali com meus 11, 12 anos. Eu lembro que onde hoje funciona o Cinesesc havia um cinema com outro nome e, na minha primeira infância, havia uma matinê que eu ia com minhas irmãs pra ver Tom & Jerry. Elas não permaneciam até o final e eu ficava bem chateada com isso. Naquela época, o programa de criança era acompanhar os pais. Não havia tanta atração cultural para a criança, daí que lembro de ter sido levada para ver Na idade da inocência, do Truffaut, Ran, de Kurosawa, e até A gaiola das loucas [de Édouard Molinaro]. Acho que meu gosto pela diversidade no cinema já vem daí.

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade