
Morre Jomard Muniz de Britto
Filósofo, poeta e cineasta, Jomard foi pioneiro do tropicalismo em Pernambuco e do cinema em Super-8
Por Yuri Lins | 12.10.2026 (segunda-feira)
O Recife perdeu nesta segunda-feira (12) uma de suas figuras mais inquietas. O filósofo, poeta, cineasta e professor Jomard Muniz de Britto morreu durante a madrugada, aos 89 anos, depois de uma vida inteira dedicada a cutucar consensos, fosse na sala de aula, nos livros, com uma câmera Super-8 na mão ou no meio da rua.
A despedida acontece na capela do Cemitério de Santo Amaro, na região central do Recife, com velório a partir das 10h e sepultamento previsto para as 16h.
Nascido em 8 de abril de 1937 na Rua Imperial, no bairro de São José, Jomard era filho de Maria Celeste Amorim, pernambucana, e de José Muniz de Britto, paraibano. Formou-se em filosofia na antiga Universidade do Recife, hoje UFPE, e começou a carreira ensinando em colégios. No início dos anos 1960, entrou para o grupo que acompanhou Paulo Freire nas primeiras experiências de alfabetização de adultos promovidas pela universidade. Com Glauber Rocha, manteve amizade e correspondência, e chegou a trabalhar como seu assistente.

Capa de Do Modernismo à Bossa Nova, segundo livro de Jomard Muniz de Britto, publicado em 1966, dois anos depois de a ditadura afastá-lo da universidade.
O golpe militar de 1964 interrompeu esse percurso. Em março daquele ano, às vésperas da deposição de João Goulart, Jomard tinha lançado seu primeiro livro, Contradições do Homem Brasileiro. Ainda em 1964, passou cerca de 20 dias preso no Forte das Cinco Pontas, dividindo a cela com o dirigente comunista Gregório Bezerra, e foi afastado da universidade por aposentadoria compulsória, aos 27 anos.
Seguiu lecionando na Universidade Federal da Paraíba até que o AI-5 também o alcançou: em 1969, foi impedido de dar aulas ali. Ao longo dos anos 1970, a Escola Superior de Relações Públicas, instituição privada do Recife, foi a única a abrir-lhe as portas como professor. Com a anistia, recuperou os postos na UFPE e na UFPB, e foi nesta última que se aposentou, como professor titular. Em outros períodos, dirigiu o Departamento de Extensão Cultural da UFPE e a Fundação de Cultura da Cidade do Recife. João Pessoa e Natal lhe concederam o título de cidadão.
Jomard também foi um dos primeiros a defender a Tropicália em público. Em abril de 1968, ele, o compositor Aristides Guimarães e o crítico de cinema Celso Marconi assinaram “Porque Somos e Não Somos Tropicalistas”, considerado o primeiro manifesto do movimento. Sua liderança passou, então, a aglutinar artistas e intelectuais de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte em torno da nova estética. Próximo de Caetano Veloso, levou o espírito tropicalista para o embate com a cultura oficial do estado, defendendo a mistura e o pop diante da valorização da tradição associada a Gilberto Freyre e, mais tarde, ao Movimento Armorial de Ariano Suassuna.
Em 1974, Jomard começou a filmar, e a provocação ganhou imagens. Integrou a geração que transformou o Super-8, formato pensado para filmes caseiros, em ferramenta de experimentação no Recife, e dirigiu mais de três dezenas de filmes e vídeos. Entre eles estão Uma Experiência Didática (1974), Recinfernália (1976) e Inventário de um Feudalismo Cultural (1978). Toques (1975) figura entre as primeiras experiências do cinema erótico pernambucano, e Alto Nível Baixo (1977) expõe os contrastes sociais da cidade. No mesmo período, trabalhou com o Vivencial, grupo teatral de Olinda ligado à contracultura.
Em O Palhaço Degolado (1977), seu filme mais conhecido, os alvos são os nomes mais reverenciados da cultura pernambucana, com Freyre e Suassuna à frente. Para provocá-los, Jomard se fantasia de palhaço e percorre as galerias da antiga Casa de Detenção do Recife, o velho presídio que virou Casa da Cultura. Rodado em plena ditadura, o curta se tornou um marco do Super-8 no estado e integrou a Marginália 70, mostra sobre o experimentalismo no Super-8 brasileiro realizada em São Paulo.

Jomard Muniz de Britto em O Palhaço Degolado (1977), curta em Super-8 em que ele se fantasia de palhaço para provocar os medalhões da cultura pernambucana.
Seus livros misturam prosa e poesia num registro que ele chamava de “poeticidade”. Publicou, entre outros, Do Modernismo à Bossa Nova (1966), Terceira Aquarela do Brasil (1982), Bordel Brasilírico Bordel (1992) e Atentados Poéticos (2002). A expressão que batiza este último também designava as folhas com textos seus que ele entregava a desconhecidos em eventos culturais e nas calçadas do Recife, um gesto que virou sua marca.
Nos últimos anos, essa produção voltou a circular. Os 80 anos, completados em 2017, renderam a biografia Jomard Muniz de Britto: Professor em Transe, que a jornalista Fabiana Moraes escreveu em parceria com o historiador Aristides Oliveira para a Companhia Editora de Pernambuco. Em 2011, ele já tinha sido tema do documentário JMB, o Famigerado, de Luci Alcântara. Em novembro de 2025, filmes seus digitalizados pela Cinelimite, organização dedicada à preservação do cinema brasileiro de repertório, ganharam uma sessão especial no Janela Internacional de Cinema do Recife. Curtas restaurados do realizador também chegaram a plateias estrangeiras, como a do Eye Filmmuseum, em Amsterdã.
Avesso a classificações, Jomard costumava se apresentar com apelidos que ele mesmo inventava, como “o famigerado JMB”. Deixa uma obra extensa entre livros, filmes e folhas avulsas, que pesquisadores e cinematecas seguem resgatando.

Jomard Muniz de Britto (1937 – 2026)















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