
59º Brasília (2026) Oficina Crítica, 17.set.
Delicadeza e melancolia com a proximidade do fim da vida
Por Luiz Joaquim | 18.09.2026 (sexta-feira)
– textos abaixo produzidos pelos alunos da oficina Crítica em Cinema, ministrado por Luiz Joaquim como parte integrante da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na foto acima, cena do filme Se Eu Fosse Vivo… Vivia.
SE EU FOSSE VIVO… VIVIA
Por Luna Neves
Nos anos 1970, quatro garotos ensaiam uma serenata para convencer uma menina que está chateada com um deles para acompanhá-lo num baile. É no campo dessa delicadeza que se inicia o prólogo estrelado por Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo do novo longa-metragem de André Novais Oliveira, Se eu fosse vivo… vivia. Delicadeza essa que vai ser o ponto de partida para o envolvimento da audiência com os personagens principais do filme, e o que torna suas emoções muito mais reais.
Anos após os acontecimentos do prólogo, acompanhamos o casal, agora idoso, que protagoniza o filme, Gilberto (Norberto Novais Oliveira) e Jacira (Conceição Evaristo). Os dois vivem uma vida pacata em Minas Gerais. Chupam laranja, vão à consultas de rotina, vão à festas de amigos e familiares e tomam café com pão na chapa, sempre juntos. Passamos uma boa parte do início do filme simplesmente acompanhando a vida desse casal, em cenas leves e engraçadas que trazem um ar de conforto e, novamente, delicadeza.
Esse início, além de muito prazeroso de se acompanhar, também se torna fundamental para estabelecer a simpatia da audiência para com o casal, e assim, sentimos muito por eles quando as coisas começam a dar errado. É nessa quebra de conforto que Se eu fosse vivo… vivia encontra uma de suas grandes qualidades: como audiência, queremos ver o casal retornando à sua vida pacata, e somos profundamente afetados ao perceber que isso não vai acontecer.
O longa utiliza de diversos acontecimentos sobrenaturais para simbolizar o luto. Jacira se acidenta, é internada, e volta do hospital agindo estranho. Ao notar algo bem inusitado em suas costas, Gilberto decide ir até o hospital para buscar ajuda para sua esposa, e na volta, não consegue achar o caminho de volta para casa. A reflexão sobre a morte no filme acontece, apesar dos elementos sobrenaturais, de forma muito realista. Uma hora a pessoa está lá, na outra não está mais. E lidando com essa falta, Gilberto esquece o caminho de volta para sua vida cotidiana.
O final do filme é melancólico, mas também muito bonito. Gilberto vai parar num lugar inesperado, que desde o início do filme já eram apresentados como fascinante para o personagem. Lá, ele está à vontade. Se diverte até e olha contemplativamente para o espaço. Os elogios aqui vão principalmente para a atuação extremamente tocante de Norberto Novais Oliveira, que nessa cena captura perfeitamente a melancolia do personagem, e traduz essa melancolia de forma muito emocionante para o público. Gilberto não achou o caminho de volta, não pode mais ver Jacira, mas está agora em um lugar seguro.
Se eu fosse vivo… vivia surpreende por conseguir tratar de um tema complexo de forma muito sutil. Através de suas atuações, fotografia e direção, somos totalmente imersos na vida cotidiana e na relação desse casal, e assim, o filme consegue transmitir de forma muito tocante sua reflexão sobre o luto e a melancolia.
— x X x —
SE EU FOSSE VIVO… VIVIA
Quando a dor da despedida encontra a ficção-científica em Se eu fosse vivo… vivia
Por Luísa Damasceno
Em Se eu fosse vivo… vivia, o cineasta André Novais revisita seu universo criativo para moldar a experiência da perda em uma narrativa sensível e profunda. Acompanhando a jornada de um casal unido há cinco décadas, interpretado por Norberto Novais e pela escritora Conceição Evaristo em sua estreia no audiovisual, o longa-metragem articula a dor da separação e a iminência do luto a partir de um registro que entrelaça o cotidiano a uma diegese permeada pelo fantástico.
Um dos aspectos de maior destaque da obra é a habilidade com que o diretor conduz seu elenco, extraindo de interpretantes não profissionais uma atuação pautada pelo naturalismo e pela espontaneidade. A cumplicidade entre o casal protagonista constrói uma convivência de extrema credibilidade na tela, visível em passagens de observação precisa do comportamento humano, como a cena da consulta médica em que marido e mulher entregam os pequenos deslizes de saúde um do outro. Essa capacidade de traduzir a dinâmica cotidiana de casais idosos no Brasil confere à narrativa uma verdade tátil que dá sustentação à história antes que a dimensão fantástica ganhe espaço.
Esse retrato de convivência ganha ainda mais profundidade no modo como a direção trabalha as dimensões do tempo e da lembrança. Ao abrir espaço para as memórias da juventude do casal nos anos 1970, vivida em cena pelos atores Jean Paulo Campos e Tainá Conceição no ambiente dos bailes black, o filme estabelece a consistência histórica daquela união. O contraponto entre o entusiasmo dos anos jovens e a vulnerabilidade do presente acentua a gravidade da travessia de Gilberto e Jacira, revelando que a sintonia retratada é fruto de uma longa trajetória.
O recurso aos elementos de ficção científica desvia das regras habituais do gênero para enraizar a experiência fantástica em um contexto genuinamente brasileiro. Esse entrelaçamento entre a rotina doméstica e o estranhamento estabelece uma ponte direta com o curta-metragem Quintal, obra em que o diretor já explorava a visita extraterrestre no cenário suburbano. A linguagem da direção opera essa transição sem solavancos, convertendo o choque com o desconhecido em humor sutil e cotidiano, ilustrado no momento em que o visitante de outro planeta oferece água ao protagonista e recebe em resposta um corriqueiro “Opa”.
Nesse contexto, o elemento extraordinário serve como representação simbólica do desequilíbrio provocado pela morte. A figura da esposa, que retorna do hospital sob um estado de presença ausente e com um enigmático orifício nas costas, materializa a sensação de oco e a perda vivenciada pelo companheiro. Essa desorientação ganha contornos físicos na sequência em que o protagonista se perde nas imediações de sua própria casa e passa a perambular sem rumo pelas ruas, transformando a caminhada errante no retrato exato de quem perdeu a sua referência cotidiana. A dor da ausência atua, assim, como uma força que abduz os sujeitos de sua existência ordinária: enquanto o luto habita o corpo e o lar, a realidade concreta parece suspensa, deslocando os que ficam para um território de busca.
Ao final, Se eu fosse vivo… vivia consolida-se como uma investigação tocante sobre a permanência da memória e a necessidade de reinvenção diante da despedida. Ao transpor para a tela a experiência pessoal da perda de sua mãe, André Novais converte uma dor íntima em um gesto compartilhado com o público, oferecendo um olhar singular sobre a travessia do desamparo. Ao permitir que o absurdo da morte ganhe contornos de ficção científica, o cineasta constrói uma obra de rara sensibilidade, na qual a vivência do luto, sem negar sua gravidade, consegue encontrar caminhos de leveza e acolhimento.
— x X x —

TIRÓ E A ONÇA
indígenas em cena e por traz dela
por Carolina Martins
Um documentário, que deu origem a uma encenação, que deu origem a outro documentário. Tiró e a onça, de Wera Poty, é o cinema dentro do cinema. Mas, esse gênero híbrido, apesar de muito interessante, não é grande a inovação, já que metalinguagem na sétima arte é bastante explorada. O que torna esse curta especial é a perspectiva: o olhar de uma comunidade indígena sobre si mesma.
Todo o filme foi gravado na aldeia de Tekoa Mirim, na cidade de Praia Grande (SP), que é onde vivem o diretor e o elenco do curta. Filmando depoimentos dos anciãos da comunidade, como trabalho de documentação, Poty entendeu que também era importante reviver, por meio da encenação, as histórias que os mais velhos contavam.
A memória de Tiró, do povo Mbya Guarani, foi a escolhida para ser recriada. Ele relembra um encontro inesperado que teve com uma onça, na juventude. Uma história simples, mas que ganha o encanto de acompanhar todo o trabalho de produção, desde a escolha dos atores às filmagens. Além da reação da comunidade ao assistir o resultado do trabalho que envolveu toda a aldeia.
São cerca de 20 minutos muito envolventes e de muita leveza, que te fazem assistir a tudo com um sorriso sincero no rosto. Além do valor como memória, Tiró e a onça faz pensar sobre a necessidade de ampliar cada vez mais o espaço para filmes indígenas de autorrepresentação, no contraponto a tantos anos de cinema assimilacionista. O caráter educativo e de formação de público são muito valorosos na repercussão de um filme, que fica ainda mais saboroso quando tudo parece “apenas” fruição.
— x X x —
TIRÓ E A ONÇA
Entre o arquivo e a partilha – A cena viva de Tiró e a onça
Por Luísa Damasceno
Em Tiró e a Onça, o cineasta Wera Poty parte da riqueza da tradição oral de seu povo para transformar em gesto de cinema as memórias do ancião Tiró. Ao resgatar o relato de um encontro marcante com um felino na juventude do líder indígena, o curta-metragem gravado na aldeia Tekoa Mirim, em Praia Grande (SP), traduz esses saberes e vivências para a linguagem do cinema, conferindo ao relato de Tiró um alcance que supera os limites da tela.
O ponto de maior força do filme reside no uso das imagens de arquivo e na atenção com que o dispositivo escuta a palavra de Tiró. A combinação entre os registros do passado e o ato de narrar confere ao filme um valor histórico e documental relevante. O gesto de colocar as lideranças locais no centro da narrativa celebra a sabedoria acumulada pelos mais velhos como a principal fonte de resistência da comunidade. Trata-se de um reconhecimento da oralidade enquanto documento vivo, transformando o ato de escutar em um exercício de afirmação identitária. Dessa forma, o trabalho atento com o acervo audiovisual sobressai como o aspecto mais bem resolvido da obra, dando visibilidade à memória viva da aldeia Tekoa Mirim.
Contudo, é justamente no campo da dramatização que o filme encontra seus maiores limites. A aposta em recriar o acontecimento por meio de atuações da própria comunidade, especialmente no momento em que acontece a interpretação humana do felino, desloca o foco do espectador da força do depoimento para os contornos da interpretação. Ao chamar mais atenção para o artifício cênico do que para o causo em si, o curta gera um distanciamento que beira o humor, prejudicando o envolvimento com a experiência.
Outro aspecto de evidente valor reside na abertura de Tiró e a onça para o seu próprio processo de criação. O filme articula um formato híbrido que sobrepõe múltiplos caminhos: a narrativa oral de Tiró aliada às imagens de arquivo, as reencenações e o registro da equipe em ação. Essa escolha, que flerta com a linguagem dos bastidores, transforma a própria realização do curta em matéria prima da narrativa, permitindo acompanhar a comunidade Tekoa Mirim em pleno exercício de invenção e registro. Essa dimensão ganha ainda mais sentido ao mostrar os próprios moradores assistindo juntos ao material gravado. O gesto de colocar o seu povo diante da tela para visualizar a própria história reafirma o cinema como um exercício coletivo, no qual o processo de realização se torna tão valioso quanto o resultado final.
Essa postura expõe uma dimensão ética fundamental sobre a epistemologia da imagem. A direção de Wera Poty assegura que o primeiro e principal público do filme seja a própria aldeia Tekoa Mirim. Trata-se de um gesto de devolutiva em que a criação e a recepção caminham juntas, demonstrando um respeito genuíno pela memória da comunidade e pelo direito de usufruir da história que construíram na tela.
Em última análise, Tiró e a Onça sobressai pelo modo como recusa a instrumentalização da memória e estabelece a importância do olhar comunitário. Embora as hesitações na condução da reencenação fragilizem a imersão na narrativa, o curta cumpre o seu propósito central: fazer do cinema uma ferramenta de transmissão histórica, na qual a escuta e a partilha da tela asseguram a permanência da memória de seu povo.















0 Comentários